Veja perguntas e respostas sobre o pico da pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus que já teve mais de 1 milhão de casos ao redor do mundo.
Por Lara Pinheiro, G1 Bem-Estar Saúde

3 de abril: agente de saúde em equipamento protetor tira amostra de paciente possivelmente infectado com Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, em Turku, na Finlândia. — Foto: Roni Lehti / Lehtikuva / AFP
Com mais de 1 milhão de casos de Covid-19 ao redor do mundo,
as perguntas sobre quando a doença atingirá seu pico no Brasil se tornam cada
vez mais comuns. Com mais de 9 mil casos confirmados da infecção até
sexta-feira (3), o que os especialistas dizem sobre o cenário futurno no país?
Além disso, é possível dizer que alguns países já passaram pelo pior? Pode
haver uma nova onda de casos na China?
O isolamento pode influenciar o ritmo e o pico da pandemia?
Entenda, abaixo, o que se sabe até agora sobre essas e outras perguntas:
Quando a doença atingirá o pico no
Brasil?
Segundo previsão feita pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique
Mandetta, a infecção pela doença deve disparar neste mês e
continuar crescendo até junho, quando essa curva deve começar a desacelerar. O
secretário-executivo da pasta, João Gabbardo, também previu que o país terá "dias difíceis" em abril.
Mas determinar de forma exata quando a pandemia atingirá o ápice no país
não é tão fácil, afirmam especialistas ouvidos pelo G1. Isso ocorre por vários fatores.
Um deles é a demora para os resultados dos
testes. Só o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, tem 16 mil amostras na fila de análise para Covid.
"Na hora que o exame é colocado na linha do tempo, ele precisa ser
colocado na data que foi coletado", explica o epidemiologista Paulo
Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP. Caso contrário, explica o professor, pode se
ter a falsa impressão de que um grande número de casos novos ocorreu em um dia
quando, na verdade, os resultados se referem a exames que estavam aguardando há
mais tempo, 10 ou 15 dias, na fila.
Essa demora nos testes faz com que a "decolagem" dos números
ainda não tenha sido percebida, explica o físico Vitor Sudbrack, do Instituto
de Física Teórica da Unesp, apesar de o Brasil viver, hoje, a fase
de crescimento exponencial da Covid-19, representado
pelo crescimento vertiginoso do número de novos casos de infecção. (Entenda mais aqui).
E os testes não são os únicos que demoram: as notificações de óbitos por
Covid-19 e de internações também estão levando tempo para serem computadas.
Dados da Fiocruz divulgados na quarta (1º)
apontaram uma queda no ritmo de crescimento de internações por problemas
respiratórios no Brasil. Mas o cientista Marcelo Gomes, que
coordena a pesquisa da fundação, explica que, pela demora em colocar essas
informações nos bancos de dados ao redor do país, só se poderá ter uma melhor
noção dessa queda na semana que vem.
Existe, ainda, um terceiro ponto: as regiões brasileiras
enfrentarão os picos da doença em momentos diferentes. Primeiro,
explica Paulo Lotufo, serão São Paulo e Rio de Janeiro, que registraram os
primeiros casos e têm maior número de infecções.
Depois, segundo relatório divulgado pela Fiocruz em de março, correm
risco os centros urbanos de Brasília, Recife, Salvador, e, então, a região
litorânea entre Porto Alegre e Salvador e
várias microrregiões de Paraíba, Ceará e Pernambuco. Outras áreas com
risco alto são as microrregiões no entorno de Cuiabá, Goiânia e Foz do Iguaçu, no Paraná, de acordo com o relatório.
"Isso se não acontecer uma imensa bobagem, que é: São Paulo se
resolve, por exemplo, e aí você abre as fronteiras [para outros estados] – todo
mundo pode vir para cá", ressalva Lotufo. "Isso aconteceu na China, Hong Kong, outros lugares.
Aí você volta com os infectados", diz o epidemiologista, que prefere não
fazer previsões para um pico da pandemia no Brasil.
"Tem um monte de gente que fala com muita certeza quando vai ser o pico. Eu não ouso falar, até porque não é um experimento natural, observacional – muito pelo contrário: está sendo feita uma baita intervenção, com o isolamento. Há um paradoxo: quanto mais efetiva for a nossa ação, nós vamos tender a prolongar um pouco mais – esse pico vai demorar mais", explica Lotufo.
Mas, alerta Lotufo, se as medidas tiverem efeito, esse pico pode nem
chegar a existir. "Talvez não tenha um pico, tenha um platô – aquela coisa
que vai achatando e depois caindo, não vai ter uma espícula", pondera o
epidemiologista.
As medidas de isolamento vão atrasar
o pico da pandemia no Brasil?
Os especialistas ouvidos pelo G1 foram
unânimes em dizer que as medidas de isolamento social podem interferir na
disseminação do vírus no país. E esse efeito pode significar duas coisas:
·
que o pico da pandemia no país pode
ser adiado, dando mais tempo ao sistema de saúde para se preparar e atender
mais pessoas;
·
que esse pico pode não ser tão alto quanto seria se as medidas
de isolamento fossem suspensas e as atividades no país fossem retomadas
normalmente.
"Acho que [o isolamento] já é consenso de toda a comunidade
científica – acho que quem está discordando disso é quem não está enxergando e
olhando para todas as variáveis", pondera Diógenes Justo, matemático e
mestre em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e
professor na Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), em São
Paulo.

SÃO PAULO - Um homem caminha por uma rua comercial vazia no centro de São Paulo
nesta terça-feira (24) depois que o governo da cidade decretou o fechamento de
lojas como medida de precaução contra a disseminação do novo coronavírus —
Foto: Nelson Almeida/AFP
O professor é parte de uma equipe de pesquisadores voluntários, de
várias universidades e empresas no Brasil e no exterior, que criou um monitoramento para tentar prever quando será o colapso do sistema
de saúde de São Paulo, levando em conta as medidas de isolamento e
os leitos de UTI disponíveis na cidade.
Eles montaram quatro possíveis cenários:
·
no primeiro, com nenhuma intervenção
para isolamento, o sistema de saúde entraria em colapso no dia 23 de abril;
·
no segundo, com redução de 25% do
contato social, o colapso seria em 1º de maio;
·
no terceiro, com redução do contato
social à metade, o colapso seria adiado para 17 de maio;
·
no quarto, com redução de 65% do
contato social, o colapso só ocorreria em 17 de junho.
Os especialistas escolheram estudar a capital paulista por ser a que tem
maior número de casos e a maior quantidade de dados, mas também pretendem
estender o monitoramento para outras capitais brasileiras, como Rio de Janeiro,
Porto Alegre e Fortaleza.

24 de março: Avenida vazia em São Paulo, que está em quarentena — Foto:
REUTERS/Amanda Perobelli
"Se a gente empurrar [o pico da pandemia] para a frente, não estamos dizendo que vão ser os mesmos infectados, só que ao longo do tempo. A gente está falando, também, que, [se as medidas de isolamento forem suspensas], vai ter um número maior de infectados", explica Justo.
Nos cenários avaliados pelos pesquisadores, mesmo com o número maior
de leitos anunciados pelo governo, o sistema de saúde em São
Paulo não conseguiria acompanhar a velocidade de novas infecções. Os
especialistas destacam que as previsões vão mudando conforme as novas medidas
adotadas e elas não indicam que
o isolamento deve ser suspenso.
"Não é um argumento para a imunidade de rebanho – primeiro, porque a gente vai ter um colapso muito mais cedo. Tendo um colapso muito mais cedo, não teve nem a chance de acionar mais mil, 2 mil leitos que sejam. A gente está falando de mil, duas mil vidas", lembra Justo.

O Hospital de Campanha H.M Camp, no Pacaembu, será uma unidade de portas
fechadas para pacientes transferidos da rede municipal da saúde — Foto: TV
Globo/Divulgação
A chamada "imunidade de rebanho" é a
proteção indireta de uma doença infectocontagiosa que ocorre quando uma
população se torna imune a uma doença ou por vacinação ou por já ter sido
contaminada com ela. Uma vez que ela tenha sido estabelecida por um tempo, a
capacidade da doença de se espalhar é diminuída.
"Se a gente deixa tudo liberado, deixa infectar e fazemos essa
imunidade de rebanho, o colapso vai ser muito maior e o sistema vai demorar
muito mais tempo para se reerguer. A questão do colapso é qual o grau desse
colapso", explica João Visoci, que também integra a equipe do
monitoramento e é Ph.D. em Psicologia Social pela PUC-SP e
professor na Universidade Duke,
nos Estados Unidos.
"O nosso cenário tenta chegar a 65% de controle da transmissão – mas pode haver um cenário maior, com mais restrição, e que potencialmente diminua isso. Se a gente achata isso, dá fôlego pro sistema, o tamanho desse colapso e o tamanho do problema podem ser muito menores, e [podemos] dar mais habilidade para o sistema de se reaver", avalia Visoci.
Ele também lembra que outras partes do Brasil podem
ter cenários completamente diferentes dos de São Paulo.
"Existe uma chance de o Brasil não colapsar tanto assim se aprender
com o que está acontecendo fora do país, se levar em consideração esses
monitoramentos e tentar diminuir o impacto que isso vai ter a longo prazo.
Daqui a pouco, outras partes do país podem tentar absorver o impacto do que
está acontecendo em São Paulo – mas só se tiver um certo movimento do país
enquanto entidade, e não simplesmente ações individuais", pondera Visoci.
Mas, lembra Paulo Lotufo, da USP, ainda há um outro
fator em jogo: a proporção de leitos de UTI nos setores público e privado e a
quantidade de pessoas que têm ou não planos de saúde variam ao redor do país.
"A proporção de leitos do SUS é maior em São Paulo, a população com plano de saúde é maior. Em outros lugares, é uma desproporção muito grande. Vai ser mais uma briga", prevê Lotufo.
Mostrando essa disparidade regional, levantamento
feito pelo G1 constatou
que, em
861 cidades brasileiras, há apenas um ventilador mecânico disponível.
Cinco capitais – São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Recife –
concentram 26% dos respiradores do Brasil. Já em outros lugares, como o Amapá,
a quantidade de habitantes por respirador passa dos 9 mil.
Quais
países já passaram pelo pior?

31 de março: agente desinfecta
Praça do Domo, em Milão, contra a Covid-19, doença causada pelo novo
coronavírus. Na data, o governo italiano anunciou que havia atingido o pico da
pandemia no país. — Foto: Piero Cruciatti / AFP
Na quarta-feira (31), o governo italiano anunciou que o
país havia atingido o pico das infecções. Nesta sexta (3),
a Itália tinha quase 14,7 mil mortes pela Covid-19, segundo dados da agência de
proteção civil italiana.
Na Espanha, o ministro da
Saúde, Salvador Illa, disse na semana passada que aquela seria uma semana
difícil, na qual o país poderia chegar ao pico da pandemia. A Espanha registrou pelo menos dois recordes diários de
mortes em dois dias da semana passada, com mais de 10,9 mil
mortes até esta sexta-feira.
"Chegar ao pico da epidemia não significa resolver o problema. A segunda etapa é dobrar a curva [de transmissão] e a terceira, vencer o vírus. Pedimos que sigam cumprindo o conjunto de medidas, que são das mais restritas da Europa", pediu Illa, no dia 23 de março, segundo o jornal espanhol "El País".
Nos Estados Unidos, que têm mais de 6,9 mil mortes
registradas, o estado de Nova York, o mais atingido, se prepara para um pico de
casos até o começo de maio, segundo o governador, Andrew Cuomo. Autoridades da cidade de Nova York afirmam estar a
dias de um "Dia D", quando os hospitais não terão mais
capacidade de responder à pandemia.
Na quarta-feira (1º), o principal especialista de Trump para
Covid-19, Anthony Fauci, disse que o país poderia afrouxar as medidas de
distanciamento social quando não registrasse mais nem novos casos, nem novas
mortes, mas que o verdadeiro "ponto de virada" só viria com uma
vacina.
No Reino Unido, o governo
declarou nesta sexta (3) que ainda é "cedo para dizer" quando o país
terá seu pico de infecções. Segundo monitoramento da Universidade Johns Hopkins,
nos Estados Unidos, 3.611 mortes haviam sido registradas em solo britânico.
Na China, o governo
anunciou no dia 11 de março que o país já havia passado do pico da pandemia. Os
maiores números de novas infecções em solo chinês foram registrados entre o fim
de janeiro e o começo de março.
É
possível haver uma nova onda de casos na China?

31 de março: na foto, integrante de uma equipe médica de combate à
Covid-19 em Wuhan, na província de Hubei, epicentro da doença na China, é
recebida pela filha na volta para casa em Huaian, na província de Jiangsu. —
Foto: STR / AFP
As
autoridades do país temem que sim. Nesta
sexta (3), autoridades de Wuhan, cidade chinesa onde os primeiros casos de
Covid-19 foram registrados, pediram que as pessoas
continuem vigilantes e evitem sair de casa. A cidade se
prepara, aos poucos, para suspender as medidas de isolamento que proibiam que
os moradores saíssem de casa desde 23 de janeiro.
A preocupação do governo chinês, agora, também é com a transmissão da
doença por pacientes sem sintomas (veja vídeo). Estudos
apontam que essas pessoas podem ser responsáveis por até 60%
das transmissões.
Em Hubei, província onde fica Wuhan, parte do comércio e dos transportes
já está funcionando, mas, na província vizinha, Henan, os 600 mil habitantes do
município de Jia foram isolados pela segunda vez. Só lá, o
governo investiga pelo menos dez casos de doentes assintomáticos.
Outra preocupação é com a chegada de pessoas infectadas
de fora do país. Na quinta-feira (2), a China confirmou 35 novos
casos da doença, todos de pessoas que chegaram de fora. Esse receio, como
mostrou a reportagem do JN, afeta cidades como Xangai, centro financeiro chinês
onde vivem mais de 160 mil estrangeiros. Para evitar os casos importados,
atrações turísticas fecharam de novo. Elas tinham sido abertas no meio de
março.
Na semana passada, a China já havia proibido
a entrada de estrangeiros na tentativa de evitar uma
segunda onda de contaminação.
Blog do Paixão