Erguida originalmente na década de 1980 por moradores da região, sob técnica milenar do adobe (tijolos de terra crua), casa foi destaque no ArchDaily
Por Lucas Moraes
Projeto 'Casa de Mainha', de Feira Nova, foi reconhecido como um dos melhores do mundo - HÉLDER SANTANA
Em Feira Nova, no interior do Agreste Pernambucano, a arquitetura moderna reencontrou suas raízes em um projeto que prioriza a história e a economia local. A residência da mãe de um arquiteto local, Zé Vágner — situada na cidade de 20 mil habitantes, famosa pela produção de farinha de mandioca — tornou-se um exemplo de como a sustentabilidade pode ser sinônimo de simplicidade e foi eleita uma das melhores casas do mundo pelo ArchDaily — considerada a maior plataforma de arquitetura do mundo.
Erguida originalmente na década de 1980 por moradores da região utilizando a técnica milenar do adobe (tijolos de terra crua), a edificação passou por uma intervenção que buscou respeitar o passado enquanto olhava para o futuro. O novo projeto foi desenhado sob a premissa do baixo custo e da alta eficiência. Entre os pilares da reforma, destacam-se o uso predominante de insumos encontrados na própria região e implementação de ventilação cruzada e aproveitamento da iluminação natural, reduzindo a dependência de energia elétrica.
Projeto 'Casa de Mainha', de Feira Nova, foi reconhecido como um dos melhores do mundo - HÉLDER SANTANA
O projeto busca atender às necessidades da moradora (mainha do Zé Vagner, Marinalva) considerando a história e a implantação da edificação. Baseado nos conceitos apresentados por Armando de Holanda no Roteiro para construir no Nordeste (2010), o projeto adota o uso predominante de materiais naturais e locais, ventilação cruzada e iluminação natural, além de priorizar o baixo custo de obra e manutenção. As soluções construtivas dialogam com a mão de obra local pouco especializada, valorizando o saber popular e garantindo a viabilidade da execução.
Por limitações financeiras, apenas a fachada e os ambientes sociais foram reformados e as paredes originais de adobe foram mantidas, melhorando também o desempenho térmico da edificação. A principal intervenção consistiu no aumento do pé direito em um dos trechos, tornando as duas águas da cobertura desniveladas, possibilitando assim uma exaustão para a fachada poente através de uma linha de cobogós.
Cinco ambientes subutilizados foram demolidos para permitir uma sala ampla, um jardim interno e um terraço aberto, potencializando o caráter de sociabilidade que a casa já possuía. As portas de entrada, agora restauradas, são protegidas por placas de concreto pré-moldado, utilizadas aqui como brises horizontais de baixo custo; o mesmo elemento também conforma os bancos do terraço aberto.
O muro da fachada, mantido a pedido da moradora, é agora vazado através de uma trama de tijolos cerâmicos inspirada na forma que as olarias empilham as peças para secagem. A base do mesmo muro é revestida com placas de cerâmica originalmente destinadas às chapas de forno das casas de farinha da região.
Projeto 'Casa de Mainha', de Feira Nova, foi reconhecido como um dos melhores do mundo - HÉLDER SANTANA
MÃO DE OBRA LOCAL
Em vez de grandes construtoras, o projeto apostou na mão de obra local. Ao dialogar com o conhecimento técnico dos trabalhadores da cidade, a obra garantiu viabilidade financeira e fortaleceu a identidade cultural da comunidade. "As soluções construtivas valorizam o saber popular e garantem a viabilidade da execução", destaca o memorial do projeto.
Assinada pelo Studio Zé, a residência se destaca por unir arquitetura contemporânea a elementos tradicionais da região, como o uso de ladrilhos, sendo totalmente funcional.
Zé Vágner, o arquiteto responsável pelo projeto, formado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), relata que o projeto segue a sua premissa maior: construir espaços, mas pensar nas pessoas". "Arquitetura é feita de gente, com alma e história", destaca.
"Essa é a casa onde eu cresci. Uma casa feita com as mãos dos meus pais. literalmente, minha mãe costureira, meu pai negociante, o estudo era a vida. Casaram em 1994, e levantaram essa casa no adobe, canto por canto. Como muita casa do interior, ela foi crescendo sem projeto, sem planejamento. Só que o tempo cobra: os cômodos ficaram apertados, o calor virou rotina, a casa começou a pesar, insalubre sem saúde. E hoje, com anos, minha mãe finalmente está vendo essa casa se transformar", relatou nas redes sociais.
Projeto 'Casa de Mainha', de Feira Nova, foi reconhecido como um dos melhores do mundo - HÉLDER SANTANA
RECONHECIMENTO INTERNACIONAL
Escolhidos ao longo de três semanas de votação pública, os vencedores são representativos do cenário arquitetônico atual, refletindo uma diversidade de abordagens, materialidades e estéticas, ao mesmo tempo em que revelam fios condutores entre diferentes culturas. Em sua 17ª edição, o prêmio recebeu mais de 120.000 votos de mais de 100 países, consolidando-se como a maior premiação de arquitetura do mundo baseada na comunidade.
Os vencedores representam 14 países e perspectivas distintas: Alemanha, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Etiópia, Índia, Indonésia, Japão, Portugal e Vietnã.
Projeto 'Casa de Mainha', de Feira Nova, foi reconhecido como um dos melhores do mundo - HÉLDER SANTANA
FICHA DO PROJETO DA 'CASA DE MAINHA'
Arquitetura Residencial, Casas
Feira Nova, Brasil
Arquitetos: Studio Zé
Área: 165 m²
Ano: 2025
Fotografias:Hélder Santana
Fabricantes: Cerâmica Reis, Esquina dos Presentes, Ladrilhos Olinda, Lenys Tiburcio, Ludmilla Castro, Vucan Impermeabilizantes
Equipe De Projeto: Rubens Trajano, Nic Caldeira, Adja Santos
Arquiteto Líder: Zé Vagner
Pedreiro: Eduardo Oliveira
Ajudante de Pedreiro: Marluce Oliveira
Ceramista: Sr. Cassimiro
Cidade: Feira Nova
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