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ANIMAÇÃO ARARIPINA

PLACAR DE 1970 DESTACA: "O POVO ACREDITA EM TOSTÃO"





O POVO ACREDITA EM TOSTÃO

Tostão será (ver entrevista na página ao lado) o dono da camisa 9 do Brasil na Copa do Mundo. E, na opinião do povo, em junho Tostão não só estará curado do descolamento da retina que sofreu em outubro passado como também terá recuperado a forma física e técnica ideal. Mas seis em cada dez torcedores admitem que êle terá mêdo de cabecear ou de disputar bolas divididas.

Essas impressões foram dadas pelos torcedores na pesquisa que PLACAR realizou no Rio, em São Paulo e Belo Horizonte, ouvindo novecentas pessoas de tôdas as idades e classes sociais. "O médico Roberto Abdala Moura, que operou Tostão, garantiu que êle joga na Copa. Você acredita nisso?" — era a primeira pergunta da pesquisa. A resposta de 73% dos entrevistados foi esta: "Sim".

Embora Tostão esteja parado há mais de quatro meses, a torcida acha que êle terá tempo de voltar às condições ideais, como nas eliminatórias, quando foi o artilheiro do Brasil. Essa foi a opinião de 75% das pessoas ouvidas.

Para 56% dos entrevistados, Tostão é indispensável à Seleção. Mas na Guanabara, onde êle quase chegou a ser tão popular quanto Pelé, a pesquisa foi surpreendente: apenas 44% consideram-no indispensável, enquanto 56% admitem que pode ser substituído.

Quanto ao substituto ideal de Tostão, a pesquisa apresentou outra surprêsa: o preferido foi Dirceu Lopes (36%), com ligeira vantagem sôbre Rivelino (35%).

"Se você fôsse Saldanha, assumiria o risco de escalar Tostão?" Resposta da maioria (63%): "Sim".


EU VOU JOGAR

Placar — Você vai mesmo à Copa, Tostão? Tostão (com voz pausada, quase ditando) — Estou certo de que irei ao México, como jogador da Seleção. Além de meu otimismo, conto com a palavra do Roberto (Tostão não o chama de doutor) de que estou em condições de jogar.

Placar — Você está curado? Tostão — Claro que estou. Quem diz isso é o Roberto e sua equipe. Por que vou duvidar da palavra do médico para acreditar em curiosos? Sinto-me muito bem e o resto não me interessa.

Placar — Você aceita o risco de uma nova contusão por se julgar indispensável à Seleção? Tostão (com certo nervosismo) — Olha, a pergunta tem dois erros. Primeiro, o risco que vou correr é o mesmo de qualquer outro jogador. Quero repetir que não tenho mais nada no olho. A operação foi um sucesso. Segundo, não me considero indispensável. O Saldanha conta com excelentes jogadores para o meu lugar, três deles já convocados: Rivelino, Dirceu Lopes e Toninho. Há ainda o Zé Carlos, do Cruzeiro, e outros. Se o risco que eu vou correr fosse maior do que o de qualquer outro, eu deixaria de jogar. Volto porque os médicos garantiram que eu estou 100 por cento bom.

Placar — Nós fizemos uma pesquisa no Rio, em São Paulo e Belo Horizonte e 56 por cento das pessoas ouvidas o consideram indispensável à Seleção. Tostão — Bobagem, eu não sou indispensável nem ao Cruzeiro, quanto mais à Seleção.

Placar — Você já pensou nas consequências de uma nova contusão no olho? Tostão — Penso nessa possibilidade como em qualquer outra como, por exemplo, quebrar a perna. É lógico que eu ainda estou um pouco preocupado, depois de cinco meses de expectativa. Mas posso garantir: não tenho medo de voltar a jogar.

Placar — E a hemorragia? Tostão — Dei o maior azar. A hemorragia nada teve a ver com a operação, mas veio numa hora difícil, um dia depois que o Roberto me considerou curado. Por causa disso fiquei sabendo pelo meu pai que alguns jornais do Brasil estão fazendo um verdadeiro carnaval, dizendo, inclusive, que não poderei mais jogar futebol e que estou definitivamente fora da Seleção. Não é verdade. Ficarei aqui mais algum tempo a pedido do Roberto, que quer fazer outros exames, pois a hemorragia poderia causar um problema maior. Como o Saldanha disse que meu prazo de apresentação foi dilatado, decidi ficar mais alguns dias em Houston. Não se trata de nada grave, apenas uma hemorragia externa, provocada por uma blusa de lã que usei.

Placar — No México, se algum adversário disser que lhe vai dar um soco no olho operado, como você reagirá? Tostão — Não espero receber ameaças desse tipo. Mas, se isso acontecer, não tomarei conhecimento. Muitas vezes já disseram que iriam quebrar minha perna e eu respondia a essas provocações jogando meu futebol com mais entusiasmo e garra. Sei que a Copa do Mundo é uma guerra, mas não terei medo de ameaças ou cara feia.

Placar — Quando você volta? Tostão — Não tenho data certa para chegar, mas acredito que até o fim da semana estarei aí. (O mais certo é que Tostão chegue ao Brasil na manhã de sexta-feira, vá a Belo Horizonte para alguns problemas e se apresente à Seleção no sábado. Há também pequena possibilidade de que ele chegue ao Brasil nas próximas horas.)

Placar — O que você tem feito em Houston, Tostão? Tostão — Tenho feito exercícios e treinos com a bola, sempre orientado pelo Roberto. Logo que eu me apresente ao Saldanha, poderei treinar, evitando choques violentos e cabeçadas. Em quinze dias estarei 100 por cento.

O DIA DA DÚVIDA


Há silêncio em toda a casa do cônsul Jorge de Oliveira, em Houston: são 7 horas da manhã. Tostão acorda e sente que há qualquer coisa com seu olho esquerdo (o operado). Vai ao espelho e grita nervoso: — Seu Jorge! Acorda, Seu Jorge! O cônsul sai do quarto e vê que o olho de Tostão está manchado de sangue. Fica tão nervoso quanto o jogador. Corre ao telefone e liga para o Dr. Roberto Moura. Explica o problema, fica impaciente com a calma do médico, que pede para Tostão ir ao hospital. — Vamos rápido. Mas você tem que andar devagar até o carro. Pouco depois, pálido e ansioso, Tostão encontra-se com Francisco Mafra no saguão do Hospital Metodista. Tostão é examinado durante uma hora. Na ante-sala, Mafra, economista que o acompanhou nas duas viagens a Houston, não consegue esconder o nervosismo. A todo instante atende telefonemas de sua mulher, Dona Sônia, querendo saber o resultado do exame. Tostão e o médico deixam a sala. Ninguém fala nada. Só o Dr. Roberto Moura: — Está tudo normal. Era uma hemorragia, causada por alergia. — Então deve ter sido por causa da blusa de lã que eu usei na noite de ontem. Tostão, você não acharia melhor ficar aqui mais alguns dias? Agora ficou a impressão de que seu olho está machucado. Não deve voltar ao Brasil assim. Tostão apóia o braço no ombro de Francisco Mafra, o médico procura tranquilizá-lo. — Não houve nada. A hemorragia é externa. Está tudo certo com a sua retina. O que você acha de ficar mais uns dias? — Eu vou ficar. Quero voltar completamente curado. Francisco Mafra vai telefonar para Dona Sônia. O cônsul Jorge de Oliveira toma providências para a volta de Tostão à sua casa. Tenta animar o jogador: — Nós nos assustamos por nada. Você só vai continuar aqui por mais alguns dias. À noite, na casa do cônsul, Tostão se despede de Mafra (que vai embarcar para Washington, de regresso ao Brasil) e lhe diz para não se preocupar com o seu "silêncio". — Você entrega este relatório ao Dr. Lasmar (médico do Cruzeiro). O da CBD eu mesmo dou ao João Saldanha, quando voltar. Diga à mamãe que tudo está bem. Francisco Mafra, antes de entrar no carro, dá um último adeus a Tostão, que está na varanda. O carro parte. Tostão volta ao interior da casa. O cônsul tenta começar uma conversa. Tostão responde com monossílabos. Caminha para o quarto e se reencontra com o silêncio.

(Legenda da foto central): O México vai ver este gesto.

O MENGO VOLTOU




O MENGO VOLTOU

O time que ganhou de 4 a 1 da Romênia, domingo, no Maracanã, será o campeão carioca de 1970. É uma profecia e um opinião respeitável. Seu autor: Tomás Soares da Silva, o Zizinho, ex-jogador do Flamengo e da Seleção Brasileira.

— Se o Flamengo continuar assim, ninguém o vence. Está com uma velocidade de infernal, nem parece um time brasileiro. Além disso, joga em conjunto, em bloco, como uma máquina. Tem um futebol disciplinado. Iustrich deu organização, condição física e habilidade ao time.

Zizinho assistiu ao jogo ao lado do velho sambista Ciro Monteiro, que concordou com outra opinião sua: o Flamengo está em “estado de graça”.

Arílson, o bom

— O Flamengo poderia ter feito muitos gols mais, se explorasse melhor a velocidade e os chutes do ponta-esquerda Arílson (o melhor em campo), e se a Romênia não jogasse como uma tartaruga, fechando-se na defesa.

— É claro, e por causa disso não se pode dizer que a defesa do Flamengo é a ideal, que os romenos atacaram poucas vezes. Na verdade, só fizeram um ataque bom, o do gol — Murilo bobeou na marcação do ponta-esquerda.

O Flamengo, para Zizinho, foi assim: os laterais, Murilo e Paulo Henrique, foram bem, com exceção de algumas falhas; os centrais, Washington e Tinho, não foram empenhados, nem Sidnei, o goleiro; entre Zanata e Liminha, preferiu o segundo, que jogou mais na frente. Zanata quase sempre se preocupou com a defesa; Doval, o ponta-direita, só perdeu de Arílson; Dionísio, mesmo marcado sempre por dois, foi mais atacante que Fio, muito parado.

Flamengo, a Seleção

Os romenos resolveram até apelar: eles se surpreenderam com a velocidade do Flamengo, pois sempre disseram que o futebol brasileiro é jogado em câmara lenta. Houve um (Dan Coe) que quase jogou a bola na cara de Doval, só porque levou um esbarrão. E aquele cabeludinho (Dinu) partiu para a ignorância e foi até expulso. E eles ainda têm a coragem de dizer que nós somos indisciplinados!

Os gols não surpreenderam Zizinho. Para ele, o Flamengo entrou jogando certo, cauteloso — já que não conhecia o futebol dos romenos —, para depois passar o tempo inteiro atacando. Os gols só surpreenderam Ciro Monteiro, que no fim pulou nos braços de Zizinho, gritando:

— É demais! É demais! É a Seleção! É a própria Seleção Brasileira!

Doval, o Diabo Louro, numa noite de fúria!


































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