Nas redes sociais, jovens pedem ajuda financeira para pagar as últimas mensalidades da graduação. Exposição de dramas pessoais, no entanto, leva a caminhos distintos: a uma comoção positiva, com correntes 'do bem' e ajudas significativas, ou a um movimento de crítica e de caça a contradições no padrão de vida do estudante.
Por Luiza Tenente, Lara Cáfaro*, g1
Leonardo está no último ano da graduação em medicina. Só conseguiu se rematricular após receber doações em vaquinha — Foto: Arquivo pessoal
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“Eu pensei bastante antes de começar essa vaquinha, porque não queria ficar pedindo dinheiro para as pessoas. Vergonha… mas não sobrou nenhuma outra opção.”
Esse é um trecho do apelo que o estudante de medicina Leonardo Reis, de Porto Alegre, postou nas redes sociais, em um vídeo pouco produzido, basicamente sem edição, que passou de 8 milhões de visualizações no TikTok.
No depoimento de menos de 3 minutos, o jovem pede auxílio financeiro para se rematricular no último ano da graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Ele não precisou esperar nem 3 dias para arrecadar R$ 125 mil e garantir que conseguiria arcar com as mensalidades até a formatura.
➡️Nas redes sociais, há dezenas de vídeos em que alunos de medicina divulgam vaquinhas e falam do desespero de não terem mais dinheiro para a reta final da faculdade. O rumo que essa exposição da própria história de vida pode tomar, no entanto, é imprevisível. Nos bastidores, como você verá nesta reportagem, ocorrem:
- correntes do bem e mensagens de apoio;
- perda de privacidade;
- ameaças e “cancelamento”;
- caça a contradições nas escolhas de vida do aluno;
- sensação de vigilância constante;
- autocobrança.
Thaís Ferreira, de 34 anos, por exemplo, teve seu passado recente revirado por quem não acreditou que ela realmente necessitaria de doações para se formar. Ela já era nutricionista e queria fazer uma segunda graduação, em medicina. Para isso, contou com a ajuda da mãe (que esgotou a própria reserva financeira), da tia e dos avós.
Nos comentários, a relação dela com a família foi objeto de discussão e de críticas.
"Estar na internet é se colocar num espaço em que se está sujeito ao cancelamento. É um cálculo pessoal: tem pessoas que vão tolerar críticas, outras que não têm estofo emocional para aguentar”, afirma o professor de Direito Filipe Medon, da FGV-Rio.
“A palavra de ordem sempre é: pense antes de postar, pois o direito ao esquecimento [para quem se arrepende] não é exercido na prática", diz ele, que também é pesquisador da “cultura do cancelamento”.
Observação: No Brasil, os cursos de medicina são os mais concorridos na rede pública. Mesmo com o avanço recente da política de cotas sociais, alunos que não receberam uma educação básica de qualidade passam anos no cursinho, mas nem sempre são aprovados em universidades como USP e Unicamp. No ensino privado, com mensalidades que chegam a R$ 15 mil, programas de acesso como Fies e Prouni têm alcance limitado.
📢Correntes do bem e mensagens de apoio
Por que tanta gente decide ajudar? Para Leonardo Reis, a causa de “quero me formar em medicina e falta pouco” é vista com sensibilidade. Em geral, as pessoas associam essa carreira a uma oportunidade válida de ascensão social. Quando veem que um jovem está prestes a alcançar esse objetivo, querem incentivá-lo e fazem um PIX — mesmo que de R$ 5 ou R$ 10.
No caso de Léo, a mobilização começou entre pessoas próximas: familiares, colegas, professores e conhecidos da região de Porto Alegre ajudaram a levantar cerca de R$ 20 mil antes mesmo de o vídeo dele viralizar.
Depois que o apelo ganhou força no TikTok, a arrecadação disparou. Em cerca de 72 horas, somando vaquinha e depósitos feitos diretamente em sua conta, ele já havia conseguido quase R$ 120 mil — valor suficiente para dar uma entrada de R$ 80 mil e garantir a rematrícula no último ano de medicina.
Leonardo diz ter ficado impactado pela quantidade de mensagens recebidas.
“É muito incrível, sabe? Na primeira noite, eu não conseguia dormir. O que mais o marcou foram as manifestações de carinho de desconhecidos que acompanharam a história como se fosse de alguém próximo. As pessoas falavam: ‘eu estava torcendo muito por ti’”, diz.
Já Thaís Ferreira percebeu que havia uma “corrente do bem” quando, ao começar a vender brigadeiros, conseguiu levantar R$ 25 mil.
Como os vídeos viralizaram, seguidores passaram a sugerir que ela abrisse uma vaquinha para que pessoas de outras cidades também pudessem ajudar. Ela então arrecadou mais R$ 34 mil entre doações pela plataforma e transferências para a conta pessoal, atingindo os R$ 59 mil que a faculdade exigia para fechar um acordo e liberar a matrícula.
📲Perda de privacidade
Para convencer o público sobre a necessidade de ajuda, inevitavelmente o estudante expõe algum detalhe de sua vida pessoal: crises financeiras na família, dívidas assumidas, momentos de desespero e de fragilidade…
São histórias que passam a ser interpretadas e potencialmente julgadas por milhares de pessoas.
Exemplo: internautas passaram a vasculhar publicações antigas de Thaís, em busca de evidências de que ela não precisaria de ajuda financeira.
“O pessoal falava: ‘ela foi pra Disney em 2018’”, relata a jovem.
A viagem, segundo ela, aconteceu antes de a faculdade começar. “Eu nem pensava em fazer medicina. Fiz o vestibular em 2019 e comecei em 2020.”
Vieram também outros questionamentos: por que ela não vendeu o próprio carro, em vez de abrir vaquinha? Como conseguiu um ingresso para um camarote no Carnaval? Ela não tem vergonha de deixar a família inteira endividada, e ainda assim pagar por uma festa de formatura?
“Acho que só em 2 dias que eu fiquei abalada, mas foi porque estavam fazendo comentários sobre a minha família. Mas quem quisesse falar sobre mim podia falar. E a minha mãe amava, porque quanto mais falavam, mais viralizava, mais dava engajamento”, diz Thaís.
Ameaças e “cancelamento”
Dos milhares de comentários que Leonardo recebeu, nem cinco eram negativos. Só questionavam, por exemplo, por que o aluno não havia optado por uma universidade pública.
“Eu expliquei nos vídeos: fiz quatro anos de cursinho e não consegui. Minha renda não era baixa o suficiente para ter acesso ao Prouni, nem alta o suficiente para pagar as mensalidades. E basicamente não tinha universidade com Fies”, afirma.
Thaís viveu uma experiência mais violenta: até sua família foi ameaçada. Seguidores da jovem não apoiaram o fato de ela ter usado todas as economias da mãe e da tia para pagar a faculdade.
“Era meu sonho, e minha família sempre foi muito unida. Mas teve gente me mandando mensagem como ‘tomara que você e todos eles morram ou precisem desse dinheiro’”, conta.
Dezenas de outros vídeos foram postados por terceiros, expondo possíveis contradições na vida de Thaís.
Para o professor Medon, da FGV, a responsabilização civil nesses casos “não tem resposta prévia” e deve ser analisada “caso a caso”.
“A questão jurídica é: o fato de criar um perfil ou um conteúdo para cancelar uma pessoa gera dever de indenização? Sou responsável civilmente por isso?”, diz.
Segundo ele, a discussão fica entre a liberdade de expressão (o direito de alguém discordar de outra pessoa e expor sua opinião) e a falta de respeito.
“O intuito foi de ‘cancelar’ ou só de informar um fato para que as pessoas o conheçam? O tom que adota importa”, afirma o especialista. Na avaliação dele, publicações com “adjetivos fortes”, sobretudo se gerarem "monetização por meio do incentivo ao ódio”, podem indicar abuso.
👀Vigilância constante
Leonardo conta que, logo depois da campanha, começou a se policiar em situações banais.
“Eu tinha medo de alguém me ver saindo de um Uber e pensar: ‘ah, ele tá usando o dinheiro da vaquinha pra isso!”
O mesmo raciocínio se repetia em momentos simples, como sair com amigos. “Se eu fosse ao shopping, se eu fosse ao cinema, eu pensava: ‘meu Deus, e se alguém achar que estou usando as doações para comprar o ingresso? ’”
Qualquer cena do cotidiano poderia ser tirada do contexto e interpretada como sinal de desvio, exagero ou incoerência.
Thaís também passou a medir a própria exposição. Depois de conseguir a rematrícula, optou por reduzir drasticamente a presença nas redes para focar na reta final da graduação.
🩺Autocobrança
Se, de um lado, a vaquinha afasta o risco imediato de abandonar o curso, de outro ela pode criar um novo tipo de peso: a sensação de que agora é preciso corresponder à confiança depositada por milhares de pessoas.
Com Leonardo, essa cobrança apareceu de imediato: “Eu tenho que ser o melhor médico possível", passou a pensar, especialmente após o sucesso da campanha.
A ajuda recebida não virou uma sensação de dívida no sentido negativo, segundo ele, mas de responsabilidade. “As pessoas acreditaram em mim. Não quero nem chegar atrasado [à aula]", afirma.
Com Thaís, a autocobrança vem acompanhada de uma conta que ainda está longe de ser paga. Embora tenha conseguido concluir a graduação em 2025, ela diz que ainda deve à faculdade, a familiares e a um amigo que ajudou na rematrícula final. Somando tudo, estima uma quantia de aproximadamente R$ 300 mil.
Atualmente, ela trabalha em plantões e em uma unidade básica de saúde. “A cabeça pira”, diz. “Mas vejo que tenho feito a diferença no meu trabalho, então eu não me arrependo de jeito nenhum de ter usado desse recurso.”




















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