Ernesto dos Santos, professor de futebol, observador da Seleção em 1958 e 1962, analisa com exclusividade para Placar os dois jogos do Brasil contra a Argentina.
Fotos de Lemyr Martins e Fernando Pimentel
Nos dois jogos com a Argentina apresentamos os mesmos defeitos. Nossa vitória no Maracanã se deveu a dois acidentes (os gols); não sei se ela nos trará algum benefício. As falhas são técnicas (individuais) e táticas (coletivas). Entre um e outro jogo houve apenas uma diferença: no segundo, o técnico e os jogadores fizeram tudo para acertar. Como queríamos, mas falhamos.
Também começamos a perder esta Copa em 1962. Foi quando os europeus começaram a armar esquemas defensivos capazes de anular nossa forma de jogar. O que fizemos nós? Praticamente não tomamos qualquer providência. Acreditamos que o talento de nossos jogadores seria capaz de resolver todos os problemas.
Aceitei a proposta de Placar como uma possibilidade de contribuir com minha experiência para o preparo da Seleção Brasileira, sem nenhuma intenção de destruir seja o que for. Dentro de tal espírito, aponto tudo aquilo que no meu entender está errado.
As primeiras necessidades de nossa Seleção são um homem atrás, como líbero, e outro na frente, como verdadeiro ponta-de-lança. Sem eles, dificilmente venceremos os europeus, que sabem explorar as jogadas em profundidade, nas costas de nossos zagueiros; na defesa, eles têm sempre um homem na sobra.
A nossa Seleção precisa treinar muito. Não conseguiremos eliminar nossos vícios com treinos de meia hora. Não é com liberdade excessiva, como acontece agora, que se firma uma estrutura tática.
Nossa defesa esteve sempre na mesma linha quando os argentinos atacavam. O homem que sobrava, ora Brito, ora Fontana, não estava consciente de sua posição. Ele sobrava porque não tinha um atacante a quem marcar. Para ajustar um homem a tal função é preciso muito treinamento. Ela é rigorosamente necessária, os demais integrantes da defesa dependem dela.
Para se ter um homem na sobra é preciso que um dos apoiadores passe a marcar um dos pontas-de-lança adversários. Por sua vez, um atacante passa a apoiador. A ideia é a seguinte: Brito na sobra, Piazza com um dos pontas-de-lança adversários e Dirceu como um médio-volante convencional.
O PRIMEIRO GOL DO BRASIL — JAIRZINHO
O líbero tem que ser preparado como num laboratório. Quando fui supervisor do Bonsucesso, no ano passado, o técnico Duque teve que trabalhar dois meses para ajustar Renê às funções de líbero. Acho que um outro Renê deveria ser treinado com a maior urgência.
Sempre que formos atacados, temos que manter na frente apenas um homem, mas que tenha características de choque, que seja capaz de exigir a atenção de dois zagueiros adversários, seja ele Dario, Roberto, Claudiomiro, César ou sei lá quem. O importante é que ele permaneça sempre na zona ideal de chute. Do contrário, estaremos sempre longe do gol. O grau de dificuldade encontrado por um homem que vem de trás é muito maior do que o de um que está na entrada da área.
Os dois laterais podem adiantar-se alternadamente, dependendo, é lógico, do ponteiro que o adversário recuar para ajudar a defesa. Os apoiadores, ajudados pelos laterais, têm que formar uma segunda linha de ataque, mesclando-se com os atacantes chamados convencionais. Nos dois jogos com a Argentina, a Seleção Brasileira criou todos os fundamentos do futebol moderno. Todos os méritos foram pessoais. As ações individuais são válidas, mas a maioria das tentadas contra os argentinos foi um desperdício de talento e energia. Elas não conduziram a nada. Serviram para o moroso adversário ganhar tempo e se articular na defesa.
O maior erro técnico (individual) é a falta de jogo associado. Ninguém encontra ninguém para passar a bola. Houve um lance (no segundo jogo) em que Pelé passou por três e perdeu para o adversário seguinte. Ninguém lhe oferecia jogadas e ele partiu para a ação individual, com uma soma de movimentos desnecessários. Esta falha só pode ser corrigida com treinamentos continuados e com uma ideia tática severa.
Uma vez me perguntaram o que eu achava da dupla Pelé-Tostão. Respondi que era ótima, mas que não levaria o Brasil à conquista do título. Poderia funcionar contra times que não tivessem líberos, como os sul-americanos. Eu já falava da necessidade de um ponta-de-lança que ficasse na frente. Não me ouviram.
FALTA UM ROMPEDOR
Os erros permanecerão enquanto não for convocado um jogador capaz de permanecer na zona ideal de chute e que prenda os zagueiros adversários. Não sou contra Pelé-Tostão, desde que haja outro homem na frente. Com eles, ou Dirceu, ou Rivelino, toda vez que tivermos de enfrentar um líbero, encontraremos dificuldades praticamente insuperáveis.
O valor do craque é medido não em face de sua capacidade individual, mas do seu poder de adaptação ao grupo. Aí é que o comando técnico tem que se impor, mostrar-se capaz de anular em cada um a ação individualista, prejudicial à vitória. Parece que, por falta de treinos ou outras razões que ignoro, não houve ainda uma ação de comando.
Quanto aos argentinos, eles jogaram sempre na defensiva. Só desciam nas chamadas bolas boas, mesmo assim sem desarmar seu bloco defensivo. Não houve qualquer evolução em sua forma de atacar. Continuam jogando de forma arcaica, sem outros méritos que o talento de alguns de seus jogadores.
TIRO LIVRE: UM MINUTO DE PELÉ
(Por Hamilton de Almeida)
Em dois jogos, duas cidades (Passo, João, eu sou jornalista, esta gente é mesmo impossível), a ausência de tática, que só existe na cabeça de João nos papos de quarto de hotel, e a ausência de organização (desculpem, Doutor Lidio, Russo e Admildo). E o pior de tudo é que não se sabe se ainda há tempo.
[...] Saldanha sempre falou que ia resolver os problemas da Seleção de homem para homem, hoje balança entre resolver logo esta questão ou deixar que ela não se resolva mais.
Será que Saldanha (que na época era jornalista) não viu quanto Feola sofreu em 66 procurando um companheiro para Pelé? Entre Dirceu, Rivelino, Zé Carlos e qualquer outro da Seleção, as combinações são muitas para serem testadas e colocadas em prática até o Estádio Jalisco em Guadalajara. [...]
Um minuto de Pelé não chega a ser uma tática, não consegue ser um esquema, não é uma rima e não será nossa solução.






































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