Crédito,Divulgação
Legenda
da foto,Detalhe do cartaz de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro
com o ator Jim CaviezelArticle Information
- Author,Pedro Martins
- Role,Da BBC News Brasil
em Londres
A
revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu
a Daniel Vorcaro, do Banco Master, dinheiro para a produção do filme Dark
Horse, em homenagem a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro,
provocou discussões sobre quanto custa produzir um longa-metragem e se o valor
que teria sido solicitado ao banqueiro é alto ou baixo.
Segundo
revelou o site The Intercept Brasil, o pedido foi de R$ 134 milhões, e R$ 61
milhões teriam sido efetivamente pagos por Vorcaro, mas a Go Up
Entertainment, produtora do longa-metragem, e o deputado Mario Frias (PL-SP),
roteirista da obra, disseram que não tiveram acesso à verba do banqueiro.
Vorcaro
está preso, e sua defesa não esclareceu as doações até o momento. A Go Up
afirmou ainda que não pode revelar de onde veio seu orçamento, senão quebraria
contratos de confidencialidade com os envolvidos no projeto.
Profissionais
ligados a grandes produções de cinema afirmam à BBC News Brasil, sob
condição de anonimato, que R$ 134 milhões podem ser considerados exagerados
para o orçamento de Dark Horse.
Eles
argumentam que os artistas envolvidos no projeto nunca ocuparam o panteão
de Hollywood e, apesar de terem tido alguma relevância décadas atrás,
estiveram relegados, nos últimos anos, a obras de menor relevo, a maioria delas
de viés religioso ou patriótico americano.
É o
caso de Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente. Seu projeto mais
famoso foi Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson, no
qual interpretou Jesus. O longa-metragem arrecadou US$ 612,1 milhões nas
bilheterias em 2004.
Desde
então, no entanto, a carreira de Caviezel foi marcada por papéis e projetos
menores. A exceção foi O Som da Liberdade, em 2023, que no Brasil mobilizou
sobretudo evangélicos e bolsonaristas, mas que ainda assim teve uma bilheteria
bem menor do que Paixão de Cristo, de US$ 250,5 milhões.
Em
outras palavras, é difícil imaginar, na visão dos especialistas ouvidos pela
BBC, que Caviezel tenha recebido um cachê multimilionário para interpretar
Bolsonaro.
Um
dos profissionais que conversaram com a reportagem, acostumado a contratar
atores do primeiro escalão de Hollywood, diz que pagou recentemente a uma
estrela de filmes de super-heróis US$ 2 milhões por um filme de repercussão
internacional, com circulação em festivais e mostras.
Crédito,Getty Images
Legenda
da foto,Jim Caviezel, que agora interpreta Jair Bolsonaro em Dark Horse,
fez Cristo em A Paixão de Cristo, filme dirigido por Mel Gibson
lançado em 2004
Produtora
de Meu Passado me Condena e De Pernas pro Ar,
arrasa-quarteirões nos anos 2000, a diretora Mariza Leão faz coro ao que dizem
esses profissionais e acrescenta que uma boa maneira de avaliar a adequação do
orçamento de um filme é pensar no que ele pode render nas bilheterias.
Ela
lembra que sucessos recentes como Ainda Estou Aqui arrecadou
pouco mais de R$ 100 milhões, alavancado pelo marco de ter vencido o
primeiro Oscar do Brasil, ou seja, bem menos do que o valor que Flávio
Bolsonaro pediu a Vorcaro para produzir Dark Horse.
Outro
parâmetro de comparação seria a bilheteria somada de todos os 205 filmes
lançados no ano passado, algo na ordem de R$ 215 milhões. "Não há
parâmetro de nada igual na história do cinema brasileiro. Supondo que o mercado
brasileiro seja o foco principal para recuperar esse investimento, estamos
falando de uma conta que não fecha", diz a cineasta.
Avaliar
o orçamento de Dark Horse, no entanto, não é uma tarefa fácil. Há
uma série de minúcias relacionadas à produção que precisariam ser analisadas, e
a maior parte delas pode ser impossível de descobrir, já que a feitura de um
filme, principalmente daqueles que não se valem de recursos públicos, é um
processo cheio de segredos, guardados por acordos de confidencialidade que, se
quebrados, podem implicar multas milionárias.
As
gravações do longa-metragem aconteceram nos Estados Unidos e no
Brasil e foram encerradas em dezembro. Segundo a Go Up, o longa-metragem foi
todo filmado em inglês e agora está em edição nos EUA. Não há previsão de
estreia.
Crédito,Reprodução
Legenda
da foto,Montagem com cenas dos bastidores do filme Dark Horse
Dark
Horse custou mais caro do que filmes brasileiros do Oscar: o que isso
significa?
Muitas
comparações têm sido feitas entre o orçamento de Dark Horse e
o de outros filmes brasileiros, principalmente Ainda Estou Aqui,
que venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional no ano passado, e O
Agente Secreto, que concorreu a quatro estatuetas neste ano.
O
primeiro longa-metragem, estrelado por Fernanda Torres, custou cerca de R$
45 milhões, e o segundo, protagonizado por Wagner Moura, saiu por
aproximadamente R$ 28 milhões.
São
valores muito inferiores, é fato. Mas isso pode não dizer muita coisa, na visão
dos profissionais ouvidos pela BBC.
Isso
porque o Oscar busca premiar as obras de maior qualidade feitas no ano, e isso
nem sempre tem relação com o orçamento das produções. Fazer um filme custa
caro, mas uma boa história — ou a melhor história — não necessariamente é a que
custou mais caro. Essa é uma máxima que rege a indústria do cinema.
Uma
comparação entre Moonlight: Sob a Luz do Luar e Titanic,
que venceram a categoria de Melhor Filme no Oscar em 2017 e 1998, pode ilustrar
essa equação.
O
primeiro, sobre um jovem negro que cresce em um bairro pobre de Miami enquanto
tenta entender sua identidade e sexualidade, custou US$ 1,5 milhão, considerado
o menor orçamento da história entre os vencedores da estatueta mais importante
da premiação americana.
Já o
segundo, que narra o maior naufrágio da história sob a ótica do romance
improvável entre uma jovem rica, Rose, e um garoto pobre, Jack, custou US$ 200
milhões, considerado até hoje o orçamento mais caro de um vencedor da principal
estatueta do Oscar.
Crédito,Divulgação
Legenda
da foto,O ator Wagner Moura em cena do filme O Agente Secreto, que
concorreu ao Oscar
Comparações
mais recentes podem reforçar essa ideia. O vencedor da categoria de Melhor
Filme deste ano, Uma Batalha Após a Outra, não foi o filme
mais caro entre os dez títulos indicados. O longa premiado saiu por US$ 130
milhões, enquanto F1, sobre um piloto da Fórmula 1, que também
concorria ao prêmio, teve orçamento estimado em US$ 300 milhões.
Essa discrepância ilustra que usar o Oscar para avaliar se um filme custou muito ou pouco — isto é, se seu orçamento está adequado ou não — pode não ser a melhor alternativa.
A
'caixa-preta' do cinema e por que é difícil avaliar um orçamento
O
orçamento de um filme pode ser influenciado por uma série de fatores, a começar
pelo cachê de cada um dos envolvidos, mas também pelo local das filmagens e
pelo valor empenhado na divulgação, que muitas vezes se iguala ou até supera o
custo de produção — cifras que, via de regra, são mantidas em segredo.
Muitos
cachês, aliás, podem nem sequer ser fixos. Os principais nomes por trás de uma
película frequentemente têm contratos que preveem o pagamento de um valor
inicial, mas que podem crescer com o recebimento de uma porcentagem da
bilheteria, por exemplo. Assim, às vezes nem o protagonista de um filme sabe
qual será seu pagamento definitivo.
É
preciso ainda avaliar se Dark Horse é uma produção americana
ou brasileira. Isso tem impacto direto nos custos, haja vista que cachês em
dólar custam mais caro do que em real, assim como gravar nos EUA.
A
produtora Go Up Entertainment se limita a dizer que o filme teve cenas
gravadas em ambos os países, mas não informa quantos por cento da película foi
rodada em cada um deles — no cinema, os cálculos muitas vezes são feitos por
diárias de gravação.
A
BBC questionou a produtora sobre os detalhes do projeto, mas não recebeu
retorno até a publicação desta reportagem.
Seria
preciso saber ainda em qual cidade americana aconteceram as filmagens, porque
os custos variam muito de um Estado para outro, devido a inúmeros fatores,
desde impostos até o custo com seguros de saúde da equipe envolvida.
A jornalista
Ana Paula Sousa, que já foi parecerista do Fundo Setorial do Audiovisual
(FSA), avaliando a viabilidade de projetos que buscavam recursos públicos da
Agência Nacional do Cinema (Ancine), explica que essas lacunas de informação
são primordiais para analisar a adequação do orçamento, assim como a origem
dele — o que a produtora se nega a responder.
"Quem são os donos do filme, ou seja, quem detém os direitos sobre ele? Essas pessoas investiram por que motivo? Para receber lucro de volta ou porque acreditam na causa que ele defende? Ou por vaidade? Essas são questões pertinentes quando pensamos em uma produção honesta, sem considerar artimanhas financeiras", diz.
Crédito,Divulgação
Legenda
da foto,A atriz Fernanda Torres em cena de Ainda Estou Aqui, que
venceu o Oscar em 2025
Quanto
custa, afinal, um filme?
Os
profissionais do setor ouvidos pela BBC dizem que, no Brasil, um filme como
esse custaria de R$ 40 milhões, se o orçamento fosse otimizado, até R$ 70
milhões, caso a produção não tivesse muita preocupação em economizar. Nesse
caso, seria possível afirmar que os R$ 134 milhões pedidos a Vorcaro seriam um
exagero.
Lula,
O Filho do Brasil, a cinebiografia do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), toda filmada no Brasil, custou R$ 17 milhões em
2009, o que hoje seria equivalente a R$ 51,4 milhões, se aplicado o IPG-M, o
Índice Geral de Preços ao Mercado.
Mas,
nos EUA, uma produção como essa poderia facilmente custar mais de US$ 20
milhões, equivalentes a R$ 100 milhões, e, portanto, a doação solicitada ao
banqueiro não seria um exagero.
Os
segredos que envolvem a produção de um filme não são uma particularidade
de Dark Horse, mas uma tradição da indústria cinematográfica. A
menos que algum ator, diretor ou produtor quebre o silêncio e decida revelar
quanto ganhou por seu trabalho, os cachês, por exemplo, permanecem secretos.
Crédito,AFP via Getty Images
Legenda
da foto,Durante um evento da pré-campanha em Santa Catarina, Flávio Bolsonaro
usou uma camiseta com a inscrição "O Pix é do Bolsonaro; o Master é do
Lula".
O
que se sabe, em geral, é o orçamento total de uma produção. Mas mesmo esse
valor costuma ser divulgado apenas no caso de filmes feitos para o cinema e são
estimados. Produções realizadas por plataformas de streaming não têm nem seu
custo total revelado.
Também
é muito raro que sejam divulgados os valores gastos com um roteirista, com a
pós-produção ou com a divulgação da obra, um orçamento que pode ser equivalente
ao valor empenhado na produção ou até mais alto.
A
edição, aliás, pode envolver não uma, mas dezenas de empresas. Grandes
produções cinematográficas costumam entregar a edição de diferentes sequências
para companhias distintas, que podem lapidar o material bruto até o corte final
ou cuidar apenas de aspectos específicos, como a coloração.
Os efeitos especiais são um capítulo à parte na planilha de custos. Não raro, uma única cena demanda a contratação de várias empresas, cada uma especializada em uma tarefa, desde aspectos mais amplos — como a inserção de cenários quando a gravação foi feita sobre fundo verde (o chamado chroma key) — até detalhes extremamente específicos, como a alteração de uma parte do corpo de um ator. Isso pode ser feito para baratear custos, mas também para evitar vazamentos.






