A
CRISE DA FERA
Foto
de Fernando Pimentel
A
última grande crise do nosso irrequieto futebol, escondida atrás das duas
radiopatrulhas que guardam a concentração do Brasil no Retiro dos Padres, foi
parar nas mãos de João Havelange, o austero presidente da CBD.
A ele
cabe o passo mais importante, capaz de dar a paz necessária à conquista de uma
Copa do Mundo: amansar João Saldanha. Por isso, nos últimos dias, João
Havelange vem trocando sua confortável poltrona de presidente por longas
conversas com o nosso técnico, num quarto trancado da concentração. Havelange
já abriu seu jogo: quer ordem, disciplina imediata e um Saldanha calmo, mais
hábil do que inteligente, menos valente, mais técnico.
Havelange
já decorou as razões da impressionante evolução dessa crise de duas semanas:
1
— A acusação de Saldanha ao Dr. Ítalo Consentino, médico do Santos,
provocou um processo judicial que o técnico destruiu sem muita política:
desmentiu que tivesse chamado Ítalo de criminoso, ignorando dezenas de
jornalistas, testemunhas oculares da acusação.
2
— A invasão da concentração do Flamengo por Saldanha, de revólver na mão,
provou a instabilidade emocional do técnico. Ele estava à procura de Iustrich,
querendo satisfações por uma entrevista em que o chamava de covarde. Iustrich
não estava no Flamengo. Saldanha só ficou certo disso depois de agredir dois
funcionários do clube. Um dado importante: Richer, presidente do Flamengo, é
amigo de Havelange.
3
— No mesmo dia, à tarde, quando a cúpula da CBD tentava abafar o caso
("Foi uma visita de cortesia"), Saldanha tentou agredir o locutor
Lazier Martins, da Rádio Guaíba de Porto Alegre, quando este procurava uma
explicação do técnico sobre a invasão.
...Havelange
somou tudo isso a outros incidentes (como a expulsão de um oficial de justiça
da concentração, que também provocou uma queixa-crime), para deduzir que a
Seleção precisa de um outro Saldanha. E a transformação do técnico é a única
solução. A CBD não pode dispensá-lo, nem mesmo aceitar sua renúncia. Isso
quebraria todo o esquema formado antes das eliminatórias da Copa, causaria
completa reestruturação na Comissão Técnica, atingiria os jogadores, derrotaria
o Brasil.
Havelange
já se preocupa com as consequências que o comportamento de Saldanha causou na
Seleção.
O
supervisor Adolfo Milman, o Russo, já não sabe mais como justificar os
acontecimentos, está confuso e surpreso, e tenta a defesa de Saldanha com uma
frase, repetida constantemente nos últimos dias: "Por que vocês não
discutem o técnico Saldanha em vez de discutirem o homem Saldanha?"
Lídio
Toledo, o médico, e Admildo Chirol, o preparador físico, estão falando idiomas
completamente diferentes do de Saldanha. E estão se queixando: os incidentes já
começaram a se refletir nos jogadores.
Antônio do Passo, diretor de futebol da CBD e chefe da Comissão Técnica, está usando toda sua experiência de político para tentar uma justificação. Sua solução é simples:
"A Seleção precisa encurtar o calendário e viajar o mais depressa possível para o México. Cada dia que passa é mais um dia de inferno".
FLA,
A SALVAÇÃO?
Os
jogadores evitam falar sobre tudo isso, sobre Saldanha, sobre Iustrich, sobre
qualquer coisa. Mas com essa atitude revelam uma triste situação: acabou o
entusiasmo que êles tinham antes sobre qualquer decisão informal de Saldanha,
nos exercícios ou nos coletivos.
Havelange
pensou até em forçar a realização do jogo da Seleção com o Flamengo, domingo
passado, para desviar a atenção do povo sobre a crise. Mas a lei impediu —
quando há um campeonato oficial (no caso a Taça Guanabara) os clubes
participantes só podem fazer amistosos com a concordância de todos os outros
clubes. E quase todos foram contrários a realização do jogo. Menos o Flamengo:
— Nós queríamos o jogo porque ajudaríamos a Seleção a se preparar e ganharíamos um bom dinheiro. Poderíamos até pagar o passe de Silva que devemos ao Barcelona — explicou o presidente André Richer.
CBD,
A DERROTA?
Menos
Saldanha
— Os
outros times tiveram inveja do Flamengo. Eles fazem profissionalismo do tempo
de "Dom João Charuto", por isso o futebol brasileiro não anda.
Na
verdade, dizia-se que Saldanha queria o jogo para autoafirmar-se,
desmoralizando as faixas "Queremos Iustrich na Seleção". Saldanha
ficou nervoso, disse que José Carlos Vilela, diretor do Fluminense, e Agatyrno
Gomes, presidente do Vasco, nunca vestiram um calção nem tiveram infância; além
de falar que Otávio Pinto Guimarães, presidente da Federação Carioca,
"ainda usa ceroulas".
Saldanha
só não falou de Iustrich, que também não queria o jogo:
— Estamos sem os zagueiros titulares e sem Doval, que é muito importante em meu time. Os reservas foram excursionar no Japão e entraríamos em campo numa situação de grande inferioridade. E afinal não tenho nada com a Seleção (embora torça por ela), nem com o treinador da Seleção. Quem me paga é o Flamengo, eu só devo satisfações à sua torcida.
Havelange
queria o jogo mas não conseguiu também, porque a CBD ficou enfraquecida pela
crise. Em situação normal, a CBD conseguiria convencer os outros clubes.
Mas
talvez o jogo fosse prejudicial. Uma derrota poderia trazer de volta todos os
comentários e críticas que apareceram com o primeiro jogo contra a Argentina. E
também todas as acusações (exemplo: essa defesa é ridícula), que conseguem
atrapalhar um plano quase perfeito de trabalho: a preparação física e a
preparação tática. Juntas, elas vão seguindo até o dia 8 de abril, data da
chegada ao México. E juntas vão até o dia 3 de junho, estreia na Copa, contra a
Tchecoslováquia.
Por
enquanto não interessa à Comissão Técnica que a Seleção corra noventa minutos e
faça dez gols por jogo. Se isso acontecesse, o time chegaria esgotado ao
México. O sucesso tem que chegar devagar, não há motivos, agora, para
acusações.
Acusação
número 1: os goleiros são ruins, falharam — No segundo gol da Argentina, no
Beira-Rio, Ado não segurou a bola. Rebateu. Segundo os jogadores da defesa,
faltou um homem do ataque cobrindo o goleiro. Na semana seguinte, em todas as
faltas feitas em treinos (algumas forjadas só para isso) todos os atacantes e
homens do meio-campo foram treinados para cobrir o goleiro.
No
único gol da Argentina, no Maracanã, Leão errou ao esperar a bola descer para
ver aonde ela ia. Na semana seguinte, em qualquer tipo de treino, todos estavam
instruídos para gritar com Leão, despertar sua atenção para os chutes.
PIAZZA,
O CULPADO?
Acusação
número 2: essa defesa é ridícula — Todos criticaram Fontana pelos dois
jogos, muitos atacaram Baldocchi pelo primeiro jogo. Mas Joel já entrou no
lugar de Fontana (era o titular, só estava machucado) e Brito no lugar de
Baldocchi. E Brito está jogando bem.
Acusação
número 3: o meio-campo é lento, não marca ninguém — Piazza, acusado do
defeito de jogar muito parado e não saber apoiar, foi substituído por
Clodoaldo, que deu mais velocidade ao time; Paulo César entrou no lugar de Edu
e o meio-campo ficou reforçado, mais forte. E hoje até Jairzinho está voltando
para combater o adversário.
Acusação
número 4: falta um homem de área, um homem de choque — Os que acusam, não
se lembram de que o nosso centroavante titular é Tostão, que Tostão já está bom
e vai jogar daqui a uma semana. E Tostão não é Dario, Claudiomiro ou César,
jogadores que sabem fazer gols mas não sabem armar jogadas.
Na
história do futebol, só dois centroavantes se caracterizaram por fazer gols e
abrir espaços para o resto do time: Ademir de Menezes, artilheiro da Copa de
50, e Vavá, artilheiro da Copa de 62. Agora, Tostão está entrando na história.
E se
Tostão não puder jogar, centroavantes como Dario, Claudiomiro ou César só iriam
prejudicar o esquema tático da Seleção. Eles ficariam plantados na área e não
dariam espaços para as entradas dos companheiros. Dario, Claudiomiro ou César
prejudicariam tanto quanto o temperamento atual de Saldanha.
Tiro
Livre
Maurício
Azêdo
PARECE
MENTIRA!
O jogo
Seleção x Flamengo (ou Flamengo x Seleção?) foi cancelado depois de uma reunião
na Federação Carioca de Futebol. Uma reunião muito votada. O representante do
São Cristóvão de Futebol e Regatas, que já acabou com o setor de remo e agora
está ameaçando o de futebol, em tom solene, fez coro com o Vasco e o
Fluminense: — Sou contra.
Sem
adversário e sem campo (o Maracanã foi reservado para as esforçadas equipes do
Vasco e do Fluminense), a Seleção foi jogar num subúrbio, contra o Bangu.
O poder que o São Cristóvão tem de vetar um jogo da Seleção Brasileira e do Flamengo mostra como o nosso futebol é surrealista. Esse jogo seria um achado para a Seleção e para o Flamengo. Pelo barato, os cofres da CBD e do "Mais Querido" receberiam aí pelos 300 milhões de cruzeiros antigos cada um. Mais do que o Santos recebe para estourar seus jogadores em loucas excursões pelo exterior. Mais do que muitos clubes recebem em meses e meses de atividade. Mais do que o São Cristóvão recebeu em toda a sua existência. Mas o representante do São Cristóvão é inflexível: — Sou contra.
E
não é também surrealista essa ideia da CBD de jogar com o Flamengo? Para uma
seleção nacional, não é bom o confronto com um clube, mesmo que seja o mais
popular de seu país e esteja numa fase excepcional. Uma seleção precisa de
mística, que não pode ser trocada por dinheiro. Precisa ter aquela aura que
envolve, por exemplo, o Estádio de Wembley, na Inglaterra, que não abre para
qualquer joguinho.
E
não é também surrealista a imprevidência da CBD? Há muito ela devia ter a
programação certa dos amistosos para a fase de preparação da Copa. A seriedade
é incompatível com arrumações de última hora, como essa de a CBD sair por aí
implorando que uma equipe estrangeira venha aqui jogar.
Num
futebol com uma estrutura caolha como o nosso, tudo é possível, até mesmo a
sorte da Seleção depender de um cidadão qualquer que se levanta numa reunião e,
em nome do São Cristóvão ou do Arranca-Toco, enuncia sua posição: — Sou
contra.
Maurício Azêdo





















