REVISTA PLACAR 1970 - OS BASTIDORES DE UMA CRISE NA CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE DESPORTOS

 

A CRISE DA FERA

Foto de Fernando Pimentel

A última grande crise do nosso irrequieto futebol, escondida atrás das duas radiopatrulhas que guardam a concentração do Brasil no Retiro dos Padres, foi parar nas mãos de João Havelange, o austero presidente da CBD.

A ele cabe o passo mais importante, capaz de dar a paz necessária à conquista de uma Copa do Mundo: amansar João Saldanha. Por isso, nos últimos dias, João Havelange vem trocando sua confortável poltrona de presidente por longas conversas com o nosso técnico, num quarto trancado da concentração. Havelange já abriu seu jogo: quer ordem, disciplina imediata e um Saldanha calmo, mais hábil do que inteligente, menos valente, mais técnico.

Havelange já decorou as razões da impressionante evolução dessa crise de duas semanas:

1 — A acusação de Saldanha ao Dr. Ítalo Consentino, médico do Santos, provocou um processo judicial que o técnico destruiu sem muita política: desmentiu que tivesse chamado Ítalo de criminoso, ignorando dezenas de jornalistas, testemunhas oculares da acusação.

2 — A invasão da concentração do Flamengo por Saldanha, de revólver na mão, provou a instabilidade emocional do técnico. Ele estava à procura de Iustrich, querendo satisfações por uma entrevista em que o chamava de covarde. Iustrich não estava no Flamengo. Saldanha só ficou certo disso depois de agredir dois funcionários do clube. Um dado importante: Richer, presidente do Flamengo, é amigo de Havelange.

3 — No mesmo dia, à tarde, quando a cúpula da CBD tentava abafar o caso ("Foi uma visita de cortesia"), Saldanha tentou agredir o locutor Lazier Martins, da Rádio Guaíba de Porto Alegre, quando este procurava uma explicação do técnico sobre a invasão.

...Havelange somou tudo isso a outros incidentes (como a expulsão de um oficial de justiça da concentração, que também provocou uma queixa-crime), para deduzir que a Seleção precisa de um outro Saldanha. E a transformação do técnico é a única solução. A CBD não pode dispensá-lo, nem mesmo aceitar sua renúncia. Isso quebraria todo o esquema formado antes das eliminatórias da Copa, causaria completa reestruturação na Comissão Técnica, atingiria os jogadores, derrotaria o Brasil.

Havelange já se preocupa com as consequências que o comportamento de Saldanha causou na Seleção.

O supervisor Adolfo Milman, o Russo, já não sabe mais como justificar os acontecimentos, está confuso e surpreso, e tenta a defesa de Saldanha com uma frase, repetida constantemente nos últimos dias: "Por que vocês não discutem o técnico Saldanha em vez de discutirem o homem Saldanha?"

Lídio Toledo, o médico, e Admildo Chirol, o preparador físico, estão falando idiomas completamente diferentes do de Saldanha. E estão se queixando: os incidentes já começaram a se refletir nos jogadores.

Antônio do Passo, diretor de futebol da CBD e chefe da Comissão Técnica, está usando toda sua experiência de político para tentar uma justificação. Sua solução é simples:

"A Seleção precisa encurtar o calendário e viajar o mais depressa possível para o México. Cada dia que passa é mais um dia de inferno".


FLA, A SALVAÇÃO?

Os jogadores evitam falar sobre tudo isso, sobre Saldanha, sobre Iustrich, sobre qualquer coisa. Mas com essa atitude revelam uma triste situação: acabou o entusiasmo que êles tinham antes sobre qualquer decisão informal de Saldanha, nos exercícios ou nos coletivos.

Havelange pensou até em forçar a realização do jogo da Seleção com o Flamengo, domingo passado, para desviar a atenção do povo sobre a crise. Mas a lei impediu — quando há um campeonato oficial (no caso a Taça Guanabara) os clubes participantes só podem fazer amistosos com a concordância de todos os outros clubes. E quase todos foram contrários a realização do jogo. Menos o Flamengo:

— Nós queríamos o jogo porque ajudaríamos a Seleção a se preparar e ganharíamos um bom dinheiro. Poderíamos até pagar o passe de Silva que devemos ao Barcelona — explicou o presidente André Richer.

CBD, A DERROTA?

Menos Saldanha

— Os outros times tiveram inveja do Flamengo. Eles fazem profissionalismo do tempo de "Dom João Charuto", por isso o futebol brasileiro não anda.

Na verdade, dizia-se que Saldanha queria o jogo para autoafirmar-se, desmoralizando as faixas "Queremos Iustrich na Seleção". Saldanha ficou nervoso, disse que José Carlos Vilela, diretor do Fluminense, e Agatyrno Gomes, presidente do Vasco, nunca vestiram um calção nem tiveram infância; além de falar que Otávio Pinto Guimarães, presidente da Federação Carioca, "ainda usa ceroulas".

Saldanha só não falou de Iustrich, que também não queria o jogo:

— Estamos sem os zagueiros titulares e sem Doval, que é muito importante em meu time. Os reservas foram excursionar no Japão e entraríamos em campo numa situação de grande inferioridade. E afinal não tenho nada com a Seleção (embora torça por ela), nem com o treinador da Seleção. Quem me paga é o Flamengo, eu só devo satisfações à sua torcida.

Havelange queria o jogo mas não conseguiu também, porque a CBD ficou enfraquecida pela crise. Em situação normal, a CBD conseguiria convencer os outros clubes.

Mas talvez o jogo fosse prejudicial. Uma derrota poderia trazer de volta todos os comentários e críticas que apareceram com o primeiro jogo contra a Argentina. E também todas as acusações (exemplo: essa defesa é ridícula), que conseguem atrapalhar um plano quase perfeito de trabalho: a preparação física e a preparação tática. Juntas, elas vão seguindo até o dia 8 de abril, data da chegada ao México. E juntas vão até o dia 3 de junho, estreia na Copa, contra a Tchecoslováquia.

Por enquanto não interessa à Comissão Técnica que a Seleção corra noventa minutos e faça dez gols por jogo. Se isso acontecesse, o time chegaria esgotado ao México. O sucesso tem que chegar devagar, não há motivos, agora, para acusações.

Acusação número 1: os goleiros são ruins, falharam — No segundo gol da Argentina, no Beira-Rio, Ado não segurou a bola. Rebateu. Segundo os jogadores da defesa, faltou um homem do ataque cobrindo o goleiro. Na semana seguinte, em todas as faltas feitas em treinos (algumas forjadas só para isso) todos os atacantes e homens do meio-campo foram treinados para cobrir o goleiro.

No único gol da Argentina, no Maracanã, Leão errou ao esperar a bola descer para ver aonde ela ia. Na semana seguinte, em qualquer tipo de treino, todos estavam instruídos para gritar com Leão, despertar sua atenção para os chutes.


PIAZZA, O CULPADO?

Acusação número 2: essa defesa é ridícula — Todos criticaram Fontana pelos dois jogos, muitos atacaram Baldocchi pelo primeiro jogo. Mas Joel já entrou no lugar de Fontana (era o titular, só estava machucado) e Brito no lugar de Baldocchi. E Brito está jogando bem.

Acusação número 3: o meio-campo é lento, não marca ninguém — Piazza, acusado do defeito de jogar muito parado e não saber apoiar, foi substituído por Clodoaldo, que deu mais velocidade ao time; Paulo César entrou no lugar de Edu e o meio-campo ficou reforçado, mais forte. E hoje até Jairzinho está voltando para combater o adversário.

Acusação número 4: falta um homem de área, um homem de choque — Os que acusam, não se lembram de que o nosso centroavante titular é Tostão, que Tostão já está bom e vai jogar daqui a uma semana. E Tostão não é Dario, Claudiomiro ou César, jogadores que sabem fazer gols mas não sabem armar jogadas.

Na história do futebol, só dois centroavantes se caracterizaram por fazer gols e abrir espaços para o resto do time: Ademir de Menezes, artilheiro da Copa de 50, e Vavá, artilheiro da Copa de 62. Agora, Tostão está entrando na história.

E se Tostão não puder jogar, centroavantes como Dario, Claudiomiro ou César só iriam prejudicar o esquema tático da Seleção. Eles ficariam plantados na área e não dariam espaços para as entradas dos companheiros. Dario, Claudiomiro ou César prejudicariam tanto quanto o temperamento atual de Saldanha.


Tiro Livre

Maurício Azêdo

PARECE MENTIRA!

O jogo Seleção x Flamengo (ou Flamengo x Seleção?) foi cancelado depois de uma reunião na Federação Carioca de Futebol. Uma reunião muito votada. O representante do São Cristóvão de Futebol e Regatas, que já acabou com o setor de remo e agora está ameaçando o de futebol, em tom solene, fez coro com o Vasco e o Fluminense: — Sou contra.

Sem adversário e sem campo (o Maracanã foi reservado para as esforçadas equipes do Vasco e do Fluminense), a Seleção foi jogar num subúrbio, contra o Bangu.

O poder que o São Cristóvão tem de vetar um jogo da Seleção Brasileira e do Flamengo mostra como o nosso futebol é surrealista
. Esse jogo seria um achado para a Seleção e para o Flamengo. Pelo barato, os cofres da CBD e do "Mais Querido" receberiam aí pelos 300 milhões de cruzeiros antigos cada um. Mais do que o Santos recebe para estourar seus jogadores em loucas excursões pelo exterior. Mais do que muitos clubes recebem em meses e meses de atividade. Mais do que o São Cristóvão recebeu em toda a sua existência. Mas o representante do São Cristóvão é inflexível: — Sou contra.

E não é também surrealista essa ideia da CBD de jogar com o Flamengo? Para uma seleção nacional, não é bom o confronto com um clube, mesmo que seja o mais popular de seu país e esteja numa fase excepcional. Uma seleção precisa de mística, que não pode ser trocada por dinheiro. Precisa ter aquela aura que envolve, por exemplo, o Estádio de Wembley, na Inglaterra, que não abre para qualquer joguinho.

E não é também surrealista a imprevidência da CBD? Há muito ela devia ter a programação certa dos amistosos para a fase de preparação da Copa. A seriedade é incompatível com arrumações de última hora, como essa de a CBD sair por aí implorando que uma equipe estrangeira venha aqui jogar.

Num futebol com uma estrutura caolha como o nosso, tudo é possível, até mesmo a sorte da Seleção depender de um cidadão qualquer que se levanta numa reunião e, em nome do São Cristóvão ou do Arranca-Toco, enuncia sua posição: — Sou contra.

Maurício Azêdo






















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