Aldenize
Ferreira da Silva aparece em carteira de trabalho com cargo vinculado à
prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. 'Me senti como um
palhaço', afirma.
Por Artur
Ferraz, Taynã Olimpia*
Técnica de enfermagem Aldenize Ferreira da Silva foi registrada em carteira de trabalho digital como presidente da República — Foto: Reprodução/WhatsApp
O
que costuma ser o maior sonho de todo político brasileiro virou um transtorno
para Aldenize Ferreira da Silva. Na semana passada, ao procurar emprego
na Agência do Trabalhador de Jaboatão dos Guararapes, no
Grande Recife, a técnica de enfermagem descobriu que o nome dela
consta, há 24 anos e dois meses, como ocupante do cargo de presidente da
República.
O
registro também aparece na Carteira de Trabalho e Previdência Social
(CTPS) Digital da trabalhadora, com salário inicial de R$ 201,60. Conforme o
documento, o cargo de presidente estaria vinculado à prefeitura de Jaboatão,
onde ela trabalhou como merendeira, em 2002. A última remuneração, segundo o
documento, foi de R$ 15,42, em dezembro daquele ano.
Procurada,
a prefeitura de Jaboatão informou que o erro aconteceu durante a transição do
antigo Sistema Empresa de Recolhimento do FGTS e Informações à
Previdência Social (SEFIP) para o e-Social. A gestão municipal disse,
ainda, que ela deve procurar o setor de Gestão de Pessoas do município para
regularizar a situação (saiba mais abaixo).
O g1 também
procurou o Ministério do Trabalho e Emprego, mas não obteve resposta até a
última atualização desta reportagem.
Em
entrevista ao g1, Aldenize contou que se formou em técnica de
enfermagem em 2023 e, desde então, foi algumas vezes à agência e distribuiu
currículo, mas nunca tinha vaga. Até ser pega de surpresa ao procurar de novo o
serviço, na quarta-feira (13).
O rapaz pega meu CPF, coloca lá no sistema. Ele olha para mim e diz assim: 'a senhora está de brincadeira comigo, né?'. Aí eu disse: 'de brincadeira? Como assim?'. Ele disse: 'como é que a senhora trabalha há 24 anos e 2 meses e a senhora tem o cargo de presidente da República desde o dia 14 de março de 2002? E a senhora tem a cara de pau de vir aqui atrás de emprego.
—
Aldenize Ferreira
Em
seguida, Aldenize disse que se levantou e viu o cadastro com a informação
errada no computador do atendente, que informou que o dado deveria estar em sua
documentação.
"Eu
disse: 'não, agora eu vou ter que tirar uma foto desse documento'. Ele
disse: 'a senhora não pode, a senhora tem que ter [o registro]'. Porque a
senhora está alegando que não tem emprego. Mas aqui está constando, está em
aberto. Faz 24 anos e 2 meses que a sua ficha está em aberto. Isso pode gerar
um problema muito sério com a senhora. Mais futuramente, se a senhora
necessitar de uma aposentadoria, não vai conseguir", afirmou.
Segundo
Aldenize, ela sempre usou a carteira de trabalho física e só baixou a CTPS
Digital, com a ajuda da cunhada, depois da conversa com o atendente da Agência
do Trabalhador. A técnica de enfermagem disse, ainda, que a única vez em que
trabalhou na prefeitura foi entre 2000 e 2002.
"Quando
entrou outro prefeito, nós fomos comunicados que não íamos trabalhar mais, por
conta do outro prefeito, que ia chamar outras pessoas. Mas isso não chegou a
ser assinado na minha carteira. [...] O serviço que eu prestava era em uma
escola na zona rural. Eu era merendeira, cozinheira, eu era tudo lá. Serviços
gerais", explicou a ex-servidora, que afirma ter trabalhado na Escola
Municipal Rural Elizabeth Menezes, localizada na comunidade de Manassu.
Para
Aldenize, o erro no cadastro dificultou a procura por um trabalho. "Acho
que eu não estou arrumando emprego mesmo por conta desse problema, porque vai
ver que [o vínculo] está em aberto", disse.
"Me
senti uma palhaça"
A
ex-servidora disse que está desempregada há alguns anos e trabalhou na
prefeitura sem carteira assinada. De acordo com ela, o único vínculo
empregatício que aparece na carteira física se refere ao período em que atuou
como profissional de serviços gerais no abatedouro de uma feira em Jaboatão.
Aldenize
afirmou, ainda, ter sentido um grande constrangimento quando ouviu do atendente
da Agência do Trabalho que estava empregada como "presidente da
República".
"Na hora me deu uma pane, assim, que eu me senti mal. Pensei em mil coisas, só pensei em coisas que poderiam acontecer, de eu ir presa, porque isso é falsificação. Não (fui) eu que provoquei isso aí. [...] Me senti constrangida, me senti como se eu fosse um palhaço fazendo graça pra um público", contou.
—
Aldenize Ferreira
Além
de técnica de enfermagem, Aldenize disse que tem formação como cuidadora de
idosos.
"Eu
gosto de cuidar de idoso, em geral, crianças também. Aí eu me viro assim, como
faxineira. Quando tem uma pessoa no hospital, eu vou, passo dois, três dias
para acompanhar, e em casa também. As pessoas, às vezes, precisam do meu
trabalho, eu vou dar um suporte, até eu conseguir o meu emprego formal, porque
é tudo que eu quero. Eu fiz o meu curso para isso. Estou tendo essa dificuldade
e agora, depois desse problema aí, acho que as coisas ficam complicadas",
declarou.
O
que diz a prefeitura de Jaboatão
Procurada,
a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes informou que:
- a ex-servidora deve
comparecer à Unidade de Gestão de Pessoas (UGEP), localizada no Palácio da
Batalha, sede da prefeitura, na Avenida Barreto de Menezes, 1648, em
Prazeres, no horário das 8h às 17h, segunda a sexta-feira;
- no local, ela vai receber
"todos os esclarecimentos necessários sobre a sua situação";
- a Secretaria de
Administração identificou como origem do problema um erro decorrente da
transição do antigo SEFIP (Sistema Empresa de Recolhimento do FGTS e
Informações à Previdência Social) para o e-Social;
- nessa migração de um
sistema para o outro, houve o registro equivocado de servidores ocupantes
do "cargo comissionado genérico como Presidente da República" em
algumas bases de dados;
- a gestão municipal reforça
"seu compromisso com a transparência, a correção de inconsistências e
o respeito à trajetória funcional de todos os cidadãos que já prestaram
serviços ao município";
- a prefeitura segue à
disposição para novos esclarecimentos e adotou medidas internas para
evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.
O g1 perguntou
à prefeitura se alguém será investigado pelo erro no cadastro e quantas
pessoas, além de Aldenize, foram registradas como "presidentes da
República" na base de dados do município.
Também
questionou como o vínculo antigo de Aldenize foi registrado se ela não havia
assinado carteira na época em que trabalhou na Escola Municipal Elizabeth
Menezes, mas, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta.
*Estagiária sob supervisão do editor Artur Ferraz.

