Caprinovinocultura
fortalece pequenos produtores do Vale do São Francisco, movimenta a economia
regional e preserva saberes históricos do semiárido pernambucano
Uma tradição que já garantia a sobrevivência de muitas famílias do Sertão do São Francisco se transformou em fonte de renda com forte impacto na economia local. O ofício de retalhar a carne de caprinos e ovinos criados em municípios como Petrolina, Dormentes, Afrânio e Lagoa Grande transformou um produto pecuário em mais do que alimento: um patrimônio cultural carregado de identidade. O Sebrae Pernambuco atua há mais de 20 anos no fortalecimento da caprinovinocultura, promovendo soluções para que produtores enxerguem esta cadeia produtiva como estratégica e com forte potencial de mercado.
O
sucesso da carne ovina da região é resultado de um processo artesanal que
envolve desde a criação dos animais até as técnicas de abate e corte. O segredo
da textura e do sabor da carne do São Francisco — bastante apreciada em
restaurantes locais — está na preparação. Após a retirada dos ossos, a carne é
aberta em cortes finos, com espessura média de dois a três centímetros,
formando uma espécie de “lençol”, característica que popularizou o termo “manta
caprina”, usado para definir o produto.
Depois
da salga, a carne segue para a etapa de secagem em grandes varais, prática
tradicional que contribui para garantir maciez, sabor e suculência. A técnica,
passada entre gerações, precisou ser aperfeiçoada para atender às normas
sanitárias. No abatedouro de Petrolina, principal da região, a manta caprina
representa cerca de 70% do processamento, e todo o procedimento segue as
exigências do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), garantindo segurança
alimentar e qualidade ao consumidor. Segundo dados da prefeitura, são
aproximadamente 15 mil abates por mês.
Território
fértil para a caprinovinocultura
Grande
parte da criação de caprinos e ovinos ocorre em áreas secas, fora dos
perímetros irrigados. Os primeiros registros da presença desses animais no
semiárido nordestino remontam ao período colonial. Raças como Rabo Largo,
Morada Nova e Santa Inês se adaptaram às condições da caatinga e passaram a
integrar a paisagem sertaneja.
De
acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o
Nordeste concentra cerca de 75% do rebanho de caprinos e ovinos do Brasil.
Apenas Petrolina reúne mais de 500 mil animais, segundo a Base de Dados do
Estado (BDE), do Governo de Pernambuco. E o maior rebanho está justamente na
região do São Francisco. A maioria dos criadores atua em bases familiares, o
que faz da atividade uma importante ferramenta de geração de renda, emprego e
permanência das famílias no campo.
Apesar
da forte tradição, a profissionalização da cadeia produtiva ganhou mais força
nas últimas duas décadas, impulsionada pelo apoio técnico de instituições como
o Sebrae Pernambuco. “O principal desafio é fazer com que os produtores se
enxerguem como empreendedores, muitos ainda não têm essa percepção. As
consultorias envolvem desde orientações sobre alimentação do rebanho até manejo
adequado e melhoramento genético dos animais. Hoje, eles produzem de forma mais
organizada e com rebanhos geneticamente mais qualificados, capazes de
participar de competições, leilões e alcançar maior valor de mercado”, explica
Larissa Souza, especialista em agronegócio do Sebrae/PE.
Riqueza
da caatinga
O diferencial da carne produzida no Vale do São Francisco conquistou espaço até entre os paladares mais exigentes. Além de movimentar restaurantes e mercados especializados, a caprinovinocultura gera oportunidades de renda e fortalece pequenos negócios do Sertão.
A
carne ovina do São Francisco também poderá conquistar um reconhecimento
importante em breve: a Indicação Geográfica (IG). O processo é desenvolvido por
meio de uma parceria entre o Sebrae/PE e a Agência de Desenvolvimento Econômico
de Pernambuco.
Com
a certificação, a expectativa é ampliar a valorização da carne produzida na
região, reforçando sua origem, tradição e qualidade diferenciada. A IG também
pode abrir portas para novos mercados e fortalecer ainda mais a cadeia
produtiva local.
Essa
riqueza construída pela resiliência do povo sertanejo será apresentada no
penúltimo episódio da série audiovisual Riquezas de Pernambuco,
produzida pelo Sebrae/PE. Com episódios semanais exibidos no Instagram e no YouTube,
a produção destaca atividades econômicas que impulsionam o desenvolvimento
regional e reforçam a valorização dos territórios pernambucanos.
Fotos: Léo Cavalcanti



