UMA DERROTA CONTRA A ARGENTINA PODE SAIR DO BEIRA-RIO, CHEGAR À CBD E DESTRUIR TODOS OS NOSSOS PLANOS. O SUPERVISOR RUSSO SABE POR QUÊ.
"Se perdermos êsses dois jogos, temos que parar para pensar. O estado psicológico dos jogadores descerá a um nível que nem posso imaginar. E o desgaste da Comissão Técnica será tanto que valerá a pena fazer uma revisão nos planos."
As palavras do supervisor Adolfo Milman, o Russo, confirmam: os dois jogos do Brasil contra a Argentina (no Estádio Beira-Rio e no Maracanã) poderão servir para tudo, menos para beneficiar a Seleção.
TIRO LIVRE: ACORDA, JOÃO!
Nas luzes fortes do Beira-Rio e no calor do Maracanã procura-se de novo ver o grande circo do futebol brasileiro, vendedor de ilusões, cheio de feras e atrações, e nêle se tentará encontrar a Seleção campeã do mundo de 70.
— João, qual é o time?
Ninguém mais sabe na ponta da língua os titulares da Seleção, as feras do domador João. Félix; Carlos Alberto, Djalma Dias, Brito e Rildo; Piazza e Gérson; Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé e Tostão. Ou: Cláudio; Zé Maria, Scala, Joel e Everaldo; Clodoaldo, Paulo César e Rivelino; Paulo Borges, Toninho e Edu, os reservas. Êsses dois times se perderam nos corredores do prédio da CBD, nos aviões e nos hotéis da Europa, nas conversas de botecos e boates, nas máquinas de escrever dos jornais e nos microfones das rádios. João andou muito, falou muito e os dois times lhe caíram da ponta da língua.
— Os jogadores acreditam em você, João?
Lula, Félix, Djalma Dias, Rildo, Cláudio, Scala, Paulo Borges e Toninho se consideram traídos. Os outros não sabem mais quando o domador João está falando sério ou apenas enchendo o tempo do espetáculo entre um número e outro do circo. Quem ficou na Seleção não tem mais a certeza de estar presente ao ato final, seja no Estádio Jalisco de Guadalajara ou mesmo no Estádio Azteca da Cidade do México. Nem mesmo sabe se está sendo treinado ou virando personagem de coluna de jornal, ou mesmo de livro de denúncia.
— João, você é capaz de abandonar o circo?
Fora da Seleção, nos botecos, se fala menos hoje em ganhar a Copa e se tem mais mêdo de que o apresentador do espetáculo não fique em cena até o fim. Nem tanto por ser tirado, muito mais por não agüentar as vaias da platéia que não perdoa.
— João, você se lembra de 50?
A SELEÇÃO SÓ TEM A PERDER
“Temos é que jogar, mas seria muito melhor que fôsse contra times mais fortes, contra os europeus. Principalmente porque êles são a maioria da Copa. Só na nossa chave há três (Romênia, Tchecoslováquia e Inglaterra).”
As palavras de Gérson, titular do meio-campo da Seleção, ajudam a montar o quadro das condições em que serão feitos os dois jogos: em lugar errado, na hora errada, com escalação errada e contra um adversário errado. Para destruir todos os argumentos de Saldanha ou dos cartolas, há quatro motivos:
1 — A Argentina, além de liderar a escola mais arcaica do futebol sul-americano, é um adversário completamente indesejável, que só tem a ganhar com os dois jogos.
2 — O deslocamento da Seleção do Rio de Janeiro a Pôrto Alegre será muito cansativo e irá beneficiar a Argentina, que fica mais perto de Pôrto Alegre do que o Rio.
3 — Nossos jogadores vão entrar em campo com menos de 150 minutos de preparação coletiva, tempo considerado insuficiente por qualquer técnico.
Servirão até para Havelange melhorar seu relacionamento com os cartolas argentinos, dando assim mais um passo em direção à FIFA. E também para que a CBD ganhe mais dinheiro, podendo inclusive terminar a decoração de seu nôvo prédio.
“O jogo é válido como competição. Cada vez que a Seleção se reúne é vantajoso, pois time a gente arma em campo. O adversário é a Argentina porque os times mais fortes que nós convidamos não tinham datas. A Argentina resolve o problema, em parte.”
TEMOS 150 MINUTOS DE TREINO, É MUITO POUCO
As palavras do técnico João Saldanha escondem uma verdade admitida inclusive pelos jogadores: tècnicamente, os dois jogos nada valerão. A Seleção nada tem a aprender com a Argentina, que não conseguiu classificação para a Copa, que sofreu uma grande crise.
O silêncio do Maracanã lotado, na hora do segundo gol uruguaio, ainda pesa como imagem. Chegou a virar filme, no Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro. Mortal e pesado é o julgamento da platéia para quem a faz parar de rir, deixar de comprar ilusões para afundá-la na realidade hoje tão distante dos circos, dos palhaços e das pipocas.
— João, você está conseguindo treinar a Seleção? Seja no Itanhangá Gôlfe Clube ou em qualquer campinho, o circo da Seleção parece não andar conseguindo ensaiar direito. Fora os que se machucaram (Tostão, Joel, Everaldo e Rogério), nós (a imprensa) e os bicos (gente que se mete em tudo, têrmo lançado por Roberto Carlos: bico, bicão), sobra muito pouco espaço para o trabalho.
— João, você continua jornalista? Como armar um time, desarmar o circo para poder treinar, se a platéia não estará presente quando isso acontecer? Como ser vedete sem platéia? Em 66, quando a Seleção foi transformada em circo, com palhaços de tôdas as côres e naipes, João, o domador, era jornalista e gozava com todos os apelidos que a delegação ganhou: seleção nycron, do senta, levanta. Hoje, talvez ela sente e levante menos, mas continua jogando com gente que não tem importância, fazendo dinheiro para prédios (como o da sede da CBD), atendendo interêsses de procuradores de jogadores, de anunciantes publicitários e até mesmo do João, novamente jornalista.
— João, você já pensou em perder a Copa? Como jornalista, Saldanha nunca perdoou quem não deixava a Seleção trabalhar. Hoje, a Seleção está começando a trabalhar com João-Domador, em meio a um clima de insegurança e sem contar com as críticas do Saldanha que trocou de lado. Quem ganhou ou perdeu com isso? O jornalismo ou a Seleção Brasileira?
— João, acorda, João.
Hamilton Almeida
EM 1966 NÓS COMEÇAMOS ASSIM. PERDEMOS A COPA.
E HÁ A SUPERSTIÇÃO, ISSO É BASTANTE RUIM
"Passo, preciso falar com você. Esse jogo não pode ser em Porto Alegre. A Argentina não tem prestígio aqui e o jogo pode até dar prejuízo."
As palavras do General Mareu Ferreira, um dos principais cartolas da Federação Gaúcha, trouxeram o verdadeiro motivo da escolha do Beira-Rio, conforme resposta de Antônio do Passo, presidente da Comissão Técnica: o jogo é no Beira-Rio porque a série pré-eliminatória foi iniciada lá, contra o Peru, e deu sorte. O negócio é repetir.
"O mal do futebol brasileiro é reunir os jogadores num dia e colocá-los para jogar no outro. Treinar para eles não tem valor. Não há um mínimo de seriedade. Técnico e jogadores são lançados na arena sem saberem como se defender."
As palavras de Tomás Soares da Silva, que já foi Zizinho, um dos maiores jogadores brasileiros, descobre a dura realidade: a CBD está repetindo os mesmos erros anteriores, que acabaram com o tri nas oitavas-de-final, em Liverpool.
COUTINHO FORA DA SELEÇÃO
— Coutinho precisa de 45 dias para curar uma atrofia. Se ele fosse convocado agora seria cortado no primeiro exame médico.
Júlio Mazzei, preparador físico do Santos, não esconde sua contrariedade com a lembrança de Saldanha: — Coutinho pode ficar abatido por não poder ir para a Seleção Brasileira e se desinteressar do tratamento.
O problema de Coutinho é antigo. Começou quando se contundiu no joelho direito. Segundo Mazzei, ele passou então a evitar qualquer choque com a perna direita e até mesmo quando está parado procura se equilibrar sobre a esquerda.
Para se recuperar, Coutinho está fazendo fisioterapia, ginástica com peso e tomando banhos de luz. — Antigamente, era quase impossível que o Coutinho ficasse bom — diz Mazzei. — Mas agora ele está com vontade de jogar e tudo ficou mais fácil. É uma pena que ele não possa ser aproveitado na Seleção Brasileira.
Apesar de lembrado para a Seleção, Coutinho continua o mesmo homem desconfiado e de pouca conversa: os que vão à sua casa, em Santos, interromper ou impedir seu sono de todas as tardes, conseguem muito pouco. Ele não diz nem sim, nem não. Fala pouco da Seleção.
— Já imaginou o atual estado de espírito de Tostão? Acho que ele deve se sentir inseguro demais. Depois de todo aquele carnaval do Saldanha, dizendo que esperaria o tempo que fosse preciso, Tostão agora sabe que pode ser cortado a qualquer instante, sem a mínima explicação. Isso deve ser duro para ele.
Coutinho afirma apenas que a lembrança de Saldanha veio em boa hora: — Vou renovar meu contrato e assim posso pedir um pouco mais ao Santos.
Quem não concorda com Coutinho é o diretor de Esportes do Santos, General Osman Ribeiro: — Depois que o Saldanha se lembrou dele, o clube vai ter que gastar mais para renovar seu contrato.
Zito só pensa na Seleção: — É uma pena não ver o Couto ao lado de Pelé. Dentro de uma área ele é até melhor do que o Negrão.










































Blog do Paixão