"Isto
tudo está confuso. Não sei mais nada." (Tesoureiro da CBD)
TIRARAM
DINHEIRO DAS FERAS
O novo
e elegante prédio da CBD na Rua da Alfândega, 70, no Rio de Janeiro
("Edifício João Havelange"), foi reformado e decorado com uma parte
do dinheiro arrecadado para as despesas da Seleção Brasileira na Copa. A prova desse
desvio de verbas está na página 22 do Boletim número 2 da CBD, de novembro de
1969, itens 11 e 12, aprovados na reunião de diretoria realizada no dia 14 de
outubro de 1969.
Item
11 — "Autorizar a despesa limite — da verba de até NCr$ 400 000,00 de
NCr$ 120 000,00 — para iniciar as obras da instalação definitiva da CBD, sendo
que essa despesa inicial correrá a contar das seguintes arrecadações: 1) NCr$
50 000,00 — provenientes da assinatura do contrato com a Shell; 2) NCr$ 70
000,00 — da receita do banquete realizado no Hotel Glória pelo Comitê Nacional
Pró-Selecionado Brasileiro."
Item
12 — "Resolver que as obras de instalação sejam realizadas pelo
sistema de administração, ficando encarregada a firma Construtora Mamede Ltda.,
percebendo pelos seus serviços a taxa de administração até o limite de taxa de
18% e mais os encargos sociais."
O
item 11 deixou claro: inicialmente seriam gastos NCr$ 120 000,00 para a
construção do edifício. Mas as despesas poderiam chegar até NCr$ 400 000,00. E
o item 12 fez uma grande revelação: a Construtora Mamede Ltda. pertence
ao cunhado de João Havelange.
O
fato de a CBD confessar publicamente o desvio de verba leva a crer que o sr.
João Havelange deve ser um honrado e ingênuo presidente e que a Construtora
Mamede Ltda. é uma firma honesta e digna. Mas não deixa dúvida quanto a um
ponto: o torcedor brasileiro foi enganado, assim como foram enganados o cantor Wilson
Simonal e Pelé (responsáveis pelos anúncios da Shell pedindo ao público
para ajudar a Seleção). Era impossível prever que o dinheiro serviria para
construir e decorar os modernos gabinetes dos dirigentes do nosso confuso
futebol.
Tão
confuso como simples é o plano para conseguir, segundo o cálculo inicial da
CBD, os NCr$ 4 498 738,00 necessários para o Brasil disputar o Mundial.
O
Sr. Walter Moreira Sales, um dos maiores banqueiros do país, lidera uma
campanha para a venda de medalhas (cunhadas gratuitamente pela Casa da Moeda) a
2 mil cruzeiros novos cada uma. Como o "valor-ouro" de cada medalha é
de 1 mil cruzeiros novos, o lucro da CBD será de 100%. A medalha é de ouro
puro; de um lado tem a Taça Jules Rimet envolvida pela frase "Copa do
Mundo de 1970"; de outro o escudo da CBD, cercado pela frase "Bicampeão
Mundial de Futebol, 1958-1962". Inicialmente foram feitas mil
medalhas. Duzentas ficaram com o Sr. Walter Moreira Sales (representam 400 mil
cruzeiros novos); duzentas com o Sr. José Ermírio de Morais Filho,
presidente da Federação Paulista de Futebol (representam 400 mil) e cem
com o Comitê Carioca (mais 200 mil). Falta distribuir apenas quinhentas
medalhas.
Também
serão vendidos diplomas (a CBD recusa explicar como serão e o que dirão esses diplomas).
Até agora não se sabe também quantos serão vendidos, mas somente que serão
feitos 20 mil, inicialmente. Eles serão dados contra uma colaboração mínima de
200 cruzeiros novos.
Assim,
o total arrecado com as medalhas (1 milhão novos) e com os diplomas (4 milhões
novos) dará exatamente para cobrir as despesas. Ainda há os 600 mil cruzeiros
novos da venda de plásticos da Shell (o plástico verde com o Pelé dando uma
bicicleta).
Para
organizar essa campanha está formado o Comitê Nacional (liderado pelo Sr.
Walter Moreira Sales) e três Comitês Regionais (em São Paulo, liderado pelo
Sr. José Ermírio de Morais; no Rio, pelo Sr. Antônio Galloti; no
Rio Grande do Sul, pelo Sr. Thompson Flôres). Nos demais Estados a
campanha será supervisionada por bancos.
A
campanha tem um planejamento quase perfeito. Segundo o presidente Havelange,
não teria nenhuma relação com a situação financeira da CBD: quando foi a
Brasília conversar com o Ministro Jarbas Passarinho, Havelange declarou
corajosamente que quem quisesse saber a posição financeira da CBD em relação à
Seleção que buscasse dados com a própria CBD.
Foi
o que Placar tentou durante mais de uma semana. Mas só conseguiu respostas
irritadas do tesoureiro Sebastião Alonso, que certamente teme a
publicação do borderô de receita e despesa da CBD, pois este contraria
inteiramente a honrada proposta de Havelange.
Estas
foram as desculpas do Sr. Sebastião Alonso:
—
Isso está tudo confuso. Não sei de mais nada. Nossa contabilidade está parada
desde 17 de janeiro. Eu não sei de nada. Estou enrolado. Eles mudam tudo, assim
não dá. Aqui, na tesouraria, não sabemos de nada mesmo. Como posso saber o que
vamos gastar se não sei sequer o que vamos fazer? Assim não é possível!
REUNIÃO
DIRETORIA
CBD
— 22
[Trecho
com rasura e marcação circular]
11.
Autorizar a [...] limite — da verba de até NCr$ 400.000,00 [...] NCr$
120.000,00 — para iniciar as obras de instalação definitiva da CBD, sendo que
essa despesa inicial correrá a contar das seguintes arrecadações: 1)
NCr$ 50.000,00 — proveniente da assinatura do contrato com a "Shell";
2) NCr$ 70.000,00 — da receita do banquete realizado no Hotel Glória
pelo Comitê Nacional Pró-Selecionado Brasileiro.
12.
Resolver que as obras de instalação sejam realizadas pelo sistema de
administração, ficando encarregada a firma Construtora Mamede Ltda., percebendo
pelos seus serviços a taxa de administração até o limite de taxa de 18% e mais
os encargos sociais.
13.
Nomear uma Comissão de Obras composta dos Srs. Sylvio Corrêa Pacheco, Ney
Souza Ribeiro Carvalho e [...] Ferreira d'Almeida com a finalidade de
fiscalizar [...] de serviço e aprovar as especificações e instalações da obra.
O
próprio boletim da CBD (foto) não esconde que a verba da Seleção foi desviada.
ESSA
VERBA FICA FORA?
Segundo
o planejamento inicial da CBD, o dinheiro arrecadado seria distribuído segundo
o esquema abaixo. Mas como o plano de preparação da Seleção foi alterado — ela
ficará mais um mês no Brasil —, as despesas serão menores e o dinheiro
necessário será um pouco menos.
A
única falha do planejamento é que ele despreza as arrecadações dos jogos feitos
pelo Brasil. Por exemplo: das eliminatórias para cá, os jogos contra o Atlético
Mineiro, a Argentina e o Chile deram rendas fabulosas. E mais rendas ainda
serão conseguidas com os próximos jogos da Seleção no Brasil.
O
esquema de despesas não diz onde será gasto esse dinheiro e nem conta com ele
para cobrir o total das despesas: NCr$ 4 498 738,00. O esquema:
|
Item |
Valor
(NCr$) |
|
Ordenados |
600
000,00 |
|
Hospedagem |
460
000,00 |
|
Diárias
dos jogadores |
116
110,00 |
|
Prêmios
pelo título da Copa |
2
070 500,00 |
|
Gratificações
por vitórias |
459
000,00 |
|
Imposto
de renda |
133
200,00 |
|
Cotas
por jogos com equipes estrangeiras |
344
182,00 |
|
Transportes |
68
896,00 |
|
Excesso
de bagagem |
26
000,00 |
|
Hospedagem
de visitantes |
32
000,00 |
|
Seguros |
15
000,00 |
|
Presentes
e representações |
16
000,00 |
|
Taxas
de embarque |
12
360,00 |
|
Telegramas
e telefonemas |
8
000,00 |
|
Medicamentos |
12
000,00 |
|
Documentos
e vistos |
7
000,00 |
|
Impostos
indiretos |
118
490,00 |
|
Total |
4
498 738,00 |
“EXCELÊNCIA, AQUI ESTÁ PLACAR, COM MEU DEPOIMENTO MAIS IMPORTANTE”, DISSE SALDANHA AO INICIAR SUA ENTREVISTA COM O MINISTRO JARBAS PASSARINHO. “OBRIGADO, MAUT EU JÁ LI TUDO. TENHO A REVISTA AQUI NA MINHA GAVETA”, FOI A RESPOSTA DO MINISTRO.
A REVOLUÇÃO
Saldanha comenta com exclusividade para Placar os catorzes pontos principais de sua entrevista com o Ministro Jarbas Passarinho.
1. Proibir que os times joguem mais de 52 vezes por ano.
Comentário — Os clubes brasileiros, principalmente os grandes, são os que mais jogam no mundo. O Santos, por exemplo, realiza, em média, 75 partidas por ano. Este ano, o Botafogo foi participar de um torneio internacional no México antes do fim das férias regulamentares dos jogadores e só estreou fora desse prazo aproveitando-se da diferença dos fusos horários. Alguns jogadores sentiram o esforço e voltaram machucados, como Afonsinho e Paulo César.
2. Obrigar que os jogadores tenham um mês de férias e proibir que os clubes joguem com ingresso pago antes de quinze dias depois do último dia de férias.
Comentário — Só assim é possível eliminar o sacrifício exigido do jogador, que vem de um período de inatividade e é lançado em partidas amistosas, colocando em risco sua integridade física e sua saúde. Os casos de distensão muscular e de cãibra são frequentes depois das férias, quando os atletas ainda não treinaram.
3. Exigir que todo clube tenha um médico de clínica geral para atendimento diário dos atletas.
Comentário — Muitas vezes o estado de saúde do jogador se reflete na sua atuação em campo e nem sempre o traumatologista resolve a situação. Além do mais, o atleta brasileiro sofre de problemas resultantes da má alimentação e de suas limitações financeiras antes de se tornar profissional, o que se reflete mais tarde.
4. Organizar uma Comissão Federal Antidoping, como existe na Itália, e aproveitar o critério utilizado pela FIFA para definir o que é doping.
Comentário — No Brasil nunca se levou a sério esse controle. As formas de doping são as mais variadas possíveis, e o jogador, se consegue escapar das injeções e de outros tipos de medicamentos, acaba caindo, sem saber, no mistério das drogas misturadas aos sucos, ao café e à água. Ao atleta, segundo autoridades no assunto, só deveria ser ministrada vitamina C. Todas as outras drogas funcionam como doping, pois deixam evidente a precariedade física do homem. Elas são receitadas, então, com o objetivo específico de reparar um erro: a inexistência de revisão constante do estado de saúde do jogador. A finalidade do esporte é prolongar a vida, e não encurtá-la. O govêrno deverá organizar verificações incertas nos vestiários, antes, no intervalo e depois dos jogos.
5. Exercer severa vigilância, de caráter cultural e educativo, sobre a moral dos treinadores das categorias infantis e juvenis, pois é bastante conhecido o nível moral de muitos deles. Exercer a vigilância não só no futebol — de campo ou praia — como em outros esportes.
Comentário — Tem-se dado pouca importância ao trabalho nas categorias inferiores, que é fundamental à estrutura do próprio futebol brasileiro. Além da invasão de leigos nos quadros jovens, há ainda a influência maléfica de treinadores sem moral, que prejudicam a formação dos moços em todos os sentidos.
6. Extinguir o chamado “contrato de gaveta”. Todas as vias de contrato em branco terão um prazo de validade, que deverá ser renovado periodicamente, em caso de não utilização. Com isso, o “contrato de gaveta” terá que ser registrado.
Comentário — Todos os clubes utilizam o contrato de gaveta. Os infantis que passam à categoria juvenil têm que assinar o contrato de gaveta, sob pena de perderem a oportunidade. Assim, quando despontam como craques, já estão presos e não têm como fugir às limitações que os clubes oferecem para sua profissionalização. Paulo César, do Botafogo, é um exemplo disto.
7. Fazer uma revisão da Lei do Passe.
Comentário — O caso Rildo é típico do tratamento unilateral de uma lei que desprotege o homem. Rildo disse que queria sair do clube porque não era titular e achou pouco o que lhe foi oferecido para renovar contrato: luvas de NCr$ 80 000,00 por dois anos. O Santos resolveu colocar seu passe à venda e o fixou em NCr$ 900 000,00. Uma lei humana evitaria essa distorção. Exemplo: se num determinado prazo não aparecesse um comprador para o passe do jogador, seu clube seria obrigado a renovar o contrato pagando um percentual anteriormente fixado e que correspondesse ao valor do preço estabelecido para a sua venda. Os 15% do jogador nas transferências não passam de uma ilusão.
“ESCUTEI SEU COMENTÁRIO DO PRIMEIRO JOGO COM O CHILE. GOSTEI MUITO. O SENHOR MOSTROU ISENÇÃO DE ÂNIMO”, DISSE O MINISTRO. SALDANHA RESPONDEU: “ESTOU FELIZ POR TER UM OUVINTE TÃO ILUSTRE”.
DE SALDANHA
8. Revisão do imposto de renda dos jogadores, cuja profissão não permite uma carreira tão longa quanto as das demais pessoas, que, em média, têm de 30 a 35 anos de atividade lucrativa permanente.
Comentário — Poucos são os jogadores que encerram a carreira em boa situação financeira. O imposto de renda é calculado para todas as categorias profissionais de maneira uniforme. Acontece que o atleta tem um ciclo de atividade pequeno em relação a outras profissões. Ele, praticamente, só tem bons contratos durante seis ou sete anos. Os contratos iniciais são irrisórios e quando o jogador entra em declínio aceita também uma redução nas luvas e salários. Muitos ex-grandes jogadores acabam suas carreiras no interior, em troca de simples alimentação e de casa, para fugir da chuva.
9. Proibir que a Seleção Brasileira tenha patrocinadores.
Comentário — Tem-se observado, indiretamente, que o patrocínio comercial impõe exigências que influenciam até na escalação da Seleção. É o caso do contrato da firma que patrocina a Seleção Brasileira, cuja cláusula principal prevê a presença constante de um determinado jogador (Pelé) no time, sem ressalva alguma.
10. Incluir no currículo das escolas primárias noções elementares sobre a prática do esporte, tais como dieta de alimentação antes das competições ou da “pelada”.
Comentário — Deixo por conta dos nutricionistas e outros profissionais especializados no assunto a justificativa da proposição.
11. Extinção do “bicho” por partida para os jogadores e suspensão imediata dessa espécie de prêmio para médicos, técnicos, preparadores físicos, massagistas e roupeiros.
Comentário — O “bicho” leva muitas vezes à prática de crimes contra a saúde ou o estado atlético dos jogadores. Indiretamente, contribui para criar um clima anormal em determinados jogos. Acho que o prêmio deve ser dado por competição ganha. O objetivo do Brasil nas eliminatórias era a classificação. Se o Brasil tivesse vencido os primeiros quatro jogos e os prêmios tivessem sido pagos em razão de cada resultado positivo e, depois, o time virasse o fio e afinal não se classificasse, ficaria evidente que os prêmios pagos não tinham atingido sua finalidade: a classificação. Acho que médicos, técnicos, etc. deveriam receber um salário digno e real, que os levasse a repudiar tôda e qualquer prática irregular ou criminosa contra o jogador, entre elas a de colocar o atleta em condições por meio de estimulantes ou drogas.
12. Exigir que os clubes segurem os atletas contra acidentes durante os jogos.
Comentário — Fefeu, que chegou a disputar uma vaga na Seleção para a Copa de 66, hoje passa por dificuldades. Ele sofreu um acidente que o afastou definitivamente do futebol e o impossibilitou, também, de exercer imediatamente outra profissão. Como estava emprestado pelo São Paulo ao Bangu, nenhum dos dois clubes se julgou responsável por sua situação. Sobrevivendo à custa dos favores de parentes e amigos, Fefeu espera por um milagre que talvez não venha tão cedo: obter fundos para sua recuperação e para poder trabalhar.
13. Proibir as multas extorsivas que os clubes aplicam aos jogadores.
Comentário — Há clubes que chegam a multar os jogadores em 60% de seus ordenados. A penalidade fere não somente as leis trabalhistas e a própria Constituição, como também é um ato profundamente desumano.
14. Criar uma Comissão Médica Federal para fiscalizar os departamentos médicos dos clubes, das federações e confederações.
Comentário — Quando se forma uma Seleção, os jogadores se apresentam com fichas médicas cujas informações são as mais superficiais imagináveis. Constam, geralmente, do nome do jogador, altura, peso, idade e estado civil. Quando muito, falam por cima de seu estado físico. Nunca explicam, realmente, porque um jogador chega estourado à Seleção. A Comissão fiscalizaria a obrigatoriedade da revisão médica rigorosa de todo jogador duas vezes por ano. Também obrigaria que a idade biológica dos jogadores fosse controlada desde a categoria infantil.







































