Ex-primeira-dama
descreve episódio em que ela e o senador divergiram sobre aliança com chapa de
Ciro Gomes na eleição do Ceará. "Eles me tratam como se eu fosse idiota,
como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que
eles pensam", disse.
Por Arthur
Stabile, g1
Michelle publicou vídeo em suas redes sociais — Foto: Reprodução
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A
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou um depoimento nas redes
sociais em que diz ter sido maltratada e humilhada por Flávio Bolsonaro,
escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato à Presidência nas
eleições de outubro.
Em
dois vídeos, Michelle expõe uma briga com Flávio e diz que eles não se falam
desde o fim de 2025. A discussão dos dois envolve a disputa pelo palanque do PL
no Ceará, em que o partido tentou se aliar com o ex-governador Ciro Gomes
(PSDB) -- apoio criticado por Michelle (leia mais abaixo).
"Voltando ao Flávio. Telefonei para ele, tentei algumas vezes, mas ele não atendeu. Algumas horas depois da postagem, ele retornou a ligação. Mas, sinceramente, para falar o que ele me falou, seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou o telefone. E eu não tinha feito nada contra ele", afirmou a ex-primeira-dama.
"Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço", continuou.
Ao
longo do depoimento, Michelle se refere a Flávio pelo nome, como "meu
enteado" e "pré-candidato", sem usar o sobrenome
"Bolsonaro" em nenhum momento.
Após
Michelle expor a briga dos dois, Flávio Bolsonaro fez uma live em suas
redes sociais antes do jogo do Brasil contra a Escócia, pela Copa do Mundo
2026. Nas imagens, ele apareceu com a mulher e usou uma máscara do atacante
Neymar.
"Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar de coisa boa, vamos tratar de futebol", disse.
Flávio
relatou ter visitado Jair Bolsonaro na prisão domiciliar nesta quarta-feira
(24), que o ex-presidente mandou abraço a todo mundo. "Ele está forte, é
uma pessoa que tem a cabeça muito no lugar, está antenado no que está
acontecendo, sabe o que é melhor para o Brasil, me deu essa missão",
afirmou.
Críticas
à aproximação do PL com Ciro Gomes
O
episódio aconteceu, segundo Michelle, após um comício em que participou
no Ceará, no fim do ano passado. À época, Michelle criticou a negociação de
palanque no Ceará em que o PL estava em busca do apoio de Ciro Gomes (PSDB),
que havia criticado Jair Bolsonaro à época em que ele era presidente.
À
época, Michelle estava no palco do evento em Fortaleza e apontou para o
deputado André Fernandes (PL-CE), um dos articuladores da aproximação com Ciro,
e afirmou que a aliança havia sido "precipitada".
“É sobre isso. É sobre essa aliança que vocês se precipitaram a fazer. Eu tenho orgulho de vocês, mas fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, assim não dá”, disse Michelle, olhando para Fernandes, na oportunidade.
Gomes
é pré-candidato ao governo do Ceará. Pesquisa Quaest divulgada em abril sobre
as eleições locais indicam Ciro Gomes na liderança das intenções de voto, com
41%, e Elmano de Freitas (PT) com 32%. Eduardo Girão (Novo) é o terceiro, com
4%. A aliança do PL previa o apoio de Gomes à candidatura presidencial de
Flávio com palanque no estado.
Michelle e Flávio Bolsonaro — Foto: Reprodução
"Vi as postagens do Flávio contra mim nas redes sociais. Palavras duras, tom agressivo defendendo o André Fernandes (articulador do PL no estado) e, em consequência, apoiando o homem que chamou a ele, a mãe e a seus irmãos de corruptos e de ovos de serpentes nazistóides", disse Michelle.
Segundo
Michelle, Ciro Gomes foi o principal responsável "pelo processo que levou
à inelegibilidade do meu marido", e citou que o ex-governador do Ceará
havia chamado Bolsonaro e seus filhos, incluindo Flávio, de corruptos e
bandidos.
Michelle
cita publicações com ataques 'premeditados'
A
ex-primeira-dama afirmou no vídeo que, depois de Flávio, os outros filhos de
Jair Bolsonaro fizeram postagens similares em resposta ao seu posicionamento no
Ceará. Para ela, a reação pareceu algo "premeditado".
"Para ele e alguns que o cercam, eu não entendo de política. Tudo bem, eu me recolhi. E desde esse dia, ele não me procurou mais. Eu também não procurei, porque estou respeitando o que ele falou e é só isso", disse Michelle, ao dizer que o vídeo serve para "desmentir as narrativas e notícias que circulam na imprensa"
"Eu
sei quem as planta. Eu sei quem são as fontes. Eles me tratam como se eu fosse
idiota, como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais
do que eles pensam", afirmou Michelle em trecho do seu pronunciamento.
Atuação
na pré-campanha de Flávio
Parte
dos aliados de Bolsonaro pressionam que a ex-primeira-dama contribua para a
pré-campanha de Flávio e alegam que ela não tem se esforçado nessa missão. No
vídeo, a ex-primeira-dama nega que tenha exigido um pedido de desculpas de
Flávio para anunciar apoio à candidatura.
"Eu nunca pedi, cobrei ou condicionei desculpas públicas de ninguém. Não preciso disso. Eu já liberei o perdão faz muito tempo", afirmou.
Em
outro momento dos vídeos, sem citar nomes, Michelle afirma que sofre ataques
diários de um grupo que está no exterior, que "alguns deles" aparecem
em fotos com Flávio e que a filha adolescente, Laura, sofre com isso, porque
"acompanha tudo". Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde o
ano passado.
"Fazem postagens e vídeos retirando do meu nome o sobrenome Bolsonaro, na tentativa de me atingir. Não me atingem, eu sei quem eu e o meu marido somos. Mas será que eles pensam no que estão provocando na vida da minha filha? Ela é uma adolescente que acompanha tudo, que lê tudo e que sente tudo", diz.
"Eles
não se importam. Para eles tudo é política, e uma política que não existe em
função do ser humano. Esse tipo de política não serve para nada além de
egoísmo", afirma.
Ex-primeira-dama
relata que não se fala com Flávio
No
vídeo, Michelle contou que ela e Flávio não se falam, embora o senador vá à sua
casa com frequência. "Flávio vai à minha casa toda semana, mais de uma
vez. Se ele realmente quisesse falar comigo, já teria falado."
Michelle
também voltou a criticar a aliança com Ciro Gomes no Ceará e afirmou que isso
deveria acontecer apenas no segundo turno. Segundo ela, "Ciro Gomes já
provou inúmeras vezes não ser confiável".
"Não estou exigindo que se desfaça nenhuma aliança no Ceará, mas que adiem para o segundo turno. Eu sou contra ela, mas essa é apenas a minha convicção. Se a direita quer se unir para derrotar o PT, tudo bem", disse. "Mas a coerência obriga que isso aconteça apenas no segundo turno. É preciso dar chance ao candidato que verdadeiramente se enquadra e defende os nossos valores."


