REVISTA PLACAR - COPA DE 70: CARTA ABERTA - JOÃO CONTA TUDO


ESTÁ EM JOGO A NOSSA SELEÇÃO

Da crise que derrubou Saldanha na noite de terça-feira passada até os cinco gols que Roberto, Pelé e Gérson fizeram na tarde de domingo, o futebol brasileiro, mais de brigas do que de ouro, passou por uma ameaça de intervenção federal e por uma série de mudanças que só entrarão em julgamento nos campos do México. Por enquanto ele provou que é feito da paixão de um povo que consegue lotar o Morumbi e de onze heróis que tentam abafar os erros ganhando de 5 a 0 do Chile.

O tanque que Zagalo quis para a Seleção funcionou logo aos quatro minutos, quando Gérson levantou a bola na área: Roberto entra com decisão e marca o primeiro.

João-técnico morreu brigando

A queda de João Saldanha foi nascendo ao mesmo tempo em que ele se transformava no João-Sem-Medo, no João-Língua-Solta, no João-das-Feras ou no João-Quixote. Enquanto deixava de ser apenas o João-Técnico, Saldanha dava motivos fundamentais para que fosse derrubado. Na noite do dia 17 de março, esses motivos eram quatro:

  1. brigas com a Comissão Técnica;
  2. liberdade "tática" excessiva aos jogadores, a qual mais tarde obrigou-o a virar-se contra eles;
  3. falta de organização tática na Seleção;
  4. interesse do governo pela Seleção.

A primeira briga com a Comissão Técnica aconteceu na manhã do dia 27 de julho do ano passado. A Seleção estava treinando em Bogotá, preparando-se para as eliminatórias. João Saldanha chamou Admildo Chirol e disse:

— Não quero que você continue dando circuit-training nem interval-training. Esse negócio pode provocar contusões e eu quero os jogadores em perfeitas condições.

Chirol quis conversar, Saldanha não permitiu. Chirol concordou em fazer apenas o que o técnico queria: exercícios leves.

Mas, no dia seguinte, Chirol continuou dando aos jogadores o mesmo tipo de treinamento, dizendo para Saldanha que tinha mudado. Como Saldanha não percebeu, Chirol concluiu que o técnico não entendia nada de preparação física e entre os dois nasceu uma diferença que existe até agora.

Segunda briga: Saldanha já não conversava muito com o Capitão Bonetti, assistente de Antônio do Passo, mas definiu sua antipatia antes do embarque de Bogotá para Caracas. Saldanha disse que Bonetti não era ninguém e que na Comissão Técnica não passava de um "quebra-galhos e um marcador de passagens". Bonetti ficou calado e passou apenas a fazer uma espécie de diário da Seleção. Quando a delegação voltou, Bonetti foi afastado.

Terceira briga: Saldanha sabia que Zé Maria tem um pequeno problema na espinha e pediu ao médico Lídio Toledo para determinar um treinamento especial para o jogador. Lídio Toledo não o atendeu, Saldanha ficou nervoso e chamou o médico de irresponsável, prometendo tomar outras providências.

Última briga: várias vezes Saldanha se desentendeu com Antônio do Passo, chefe da Seleção. E sempre fez questão de criticar os cartolas. Antônio do Passo fingia não entender. Quando perguntavam sobre as críticas, Passo sorria e dizia que não passavam de fofocas ou brincadeiras de Saldanha.

Todas essas brigas ficavam evidentes na hora das refeições. Na mesa de Saldanha sentavam Russo, Aparício Viana e o jornalista convidado pela CBD (Solange Bibas de A Gazeta Esportiva). Numa mesa mais afastada, o preparador físico Chirol, o médico Lídio e o Capitão Bonetti. Às vezes Antônio do Passo sentava à mesa de Saldanha.

Enquanto Saldanha ia brigando com a Comissão Técnica, ainda nas eliminatórias, outro problema ia-se formando: a liberdade "tática" aos jogadores.

Era comum, nos treinos, Gérson, Pelé, Carlos Alberto, Rildo, Piazza e Tostão se reunirem no meio do campo e discutirem a melhor maneira de o time jogar. Com isso, os jogadores foram criando uma dúvida: Saldanha era mesmo um bom técnico? E essa dúvida, para eles, transformava-se em certeza à medida que as instruções de Saldanha não passavam de vagas informações, completadas imediatamente por Gérson ou Pelé.

E a confiança dos jogadores foi diminuindo nesta sequência:

depois de Saldanha afirmar que não ia convocar mais ninguém e na volta convocar Ado, Baldocchi, Marco Antônio, Leão e Rogério; os dispensados: Félix, Djalma Dias, Rildo, Lula e Paulo Borges;

depois de Saldanha garantir que os jogadores machucados teriam tempo para se recuperar até o dia 15 de abril e dois dias depois "cortar" Tozinho (sinusite) e Scala (contusão no joelho) — no dia seguinte "cortava" Cláudio, depois de prometer que o goleiro iria para a Copa como prêmio;

depois de dizer que em "certas situações" nem os jogadores deviam ganhar bichos, pois isso fazia com que eles entrassem em campo mesmo sem condições;

depois de criticar Pelé — esse foi seu maior erro.

Desde o momento em que Saldanha acusou Pelé de não correr, ficou declarada uma guerra fria entre os dois. A maior parte dos jogadores ficou do lado de Pelé. A prova: no intervalo do primeiro tempo com a Argentina, no Maracanã, Saldanha desceu nervoso ao vestiário:

— O que está acontecendo? Vocês estão fazendo tudo errado. Alguém tem alguma coisa a dizer?

Pelé levantou a mão, foi até o quadro-negro e falou:

— Acho que a distância entre a defesa e o ataque é muito grande. Fischer, o centroavante, organiza todas as jogadas da Argentina ali.

Todos os jogadores concordaram com Pelé. Saldanha não concordou, mandou que os jogadores fizessem o que bem entendessem. O Brasil ganhou de 2 a 1.

Saldanha não esqueceu. Depois do treino com o Bangu (a Seleção empatou por 1 a 1), chegou perto de Pelé e falou em voz alta, para todos ouvirem:

— Como é, Crioulo? O teu sistema não deu certo hoje?

Os jogadores também ficaram revoltados quando Saldanha disse que Pelé não se esforçava. As palavras são de Clodoaldo:

— Eu vi Saldanha ser o primeiro a chegar perto do Pelé várias vezes e dizer: "Escuta, crioulo, não se esforça demais para estar em plena forma na Copa". Assim como ele chegou perto de mim e disse que o time deveria estar bem na Copa, não tinha importância que jogasse mal agora.

Os esquemas defendidos por Saldanha e os esquemas defendidos pelos jogadores causaram uma total falta de organização no jogo da Seleção. As consequências apareceram nos jogos feitos depois das eliminatórias: 2 a 1 para o Atlético Mineiro (em que só o Atlético estava motivado); 2 a 0 para a Argentina; 2 a 1 para o Brasil contra a Argentina, e 1 a 1 contra o Bangu.

Isso começou a mexer com João Havelange, presidente da CBD, que, apesar de não ser grande entendido em futebol, começou a "desconfiar" que a Seleção jogava mal. E uma declaração do Professor Ernesto dos Santos (Havelange confia muito em seus conhecimentos sobre futebol) exerceu influência decisiva. A declaração:

— Esta Seleção não tem ideia tática. Precisa de treinos, necessita de uma liderança. Precisa de um homem atrás e um na frente, caso contrário perderemos sempre.

Ernesto dos Santos tinha razão: a Seleção treinava pouco com bola, meia hora de vez em quando. Além disso, Havelange ficou impressionado com as críticas feitas por outros técnicos:

Zezé Moreira: Saldanha é um intruso e não conseguirá liderar a Seleção.

Flávio Costa: Falta um mínimo de treinamento à Seleção. Há jogadores geniais, mas sem noção coletiva.

Paulo Amaral: Saldanha é superinteligente, mas não tem prática para definir um esquema.

Havelange só tinha medo do apoio popular de Saldanha. Mas isso acabou quando ouviu os empregados da Fábrica Bangu cantarem assim durante o treino da Seleção:

"Eu grito, eu falo, o João Saldanha tem cara de cavalo".

A queda de Saldanha já tinha data. E ficou resolvida quando influentes amigos de Havelange o aconselharam a tomar uma decisão urgente, pois o governo estava muito interessado na Seleção Brasileira. Os amigos ainda advertiam: se Havelange não fizesse nada, o governo poderia virar-se contra ele.

Havelange armou a cena final. Orientou Antônio do Passo para desentender-se com Saldanha. O diretor de futebol da CBD, então, usou o mesmo esquema que derrubou Aimoré Moreira: deu muitas entrevistas criticando o técnico e em seguida pediu demissão, dizendo que era ele ou o técnico.

É você, disse Havelange.

A CBD já não suportava Saldanha. Sílvio Pacheco fazia questão de mostrar sua antipatia.

  • PRIMEIRO LANÇAMOS O DESAFIO DELE COMPLETAR OS MIL GOLS...
  • AGORA COLOCAMOS EM DÚVIDA SUA VISÃO...
  • E PRA GARANTIR NO MÉXICO VAMOS ESPALHAR QUE O PELÉ ESTÁ VIRANDO MULHER... (Hayl)

O anjo-da-guarda de Zagalo mais uma vez o favoreceu: na estreia, a vitória de goleada.

A FOTO DA CONTRATAÇÃO DE ZAGALO

Dia 18 de março, à tarde, Saldanha estava demitido, a Seleção estava sem técnico, era grande a confusão e a expectativa na CBD. Antônio do Passo foi escolhido por Havelange para convidar Zagalo. Dirigiu-se então até o campo do Botafogo. Passava um pouco das 14 horas. Lá ficou sabendo que o Botafogo tinha ido treinar na Escola de Educação Física do Exército. Acompanhado de Admildo Chirol e do médico Lídio Toledo, Antônio do Passo foi até lá num VW, mas não quis entrar. Admildo Chirol levou Zagalo até a Praia Vermelha, no Opala do próprio Zagalo. O fotógrafo João Rodrigues desconfiou da presença dos três homens da Seleção e, ao invés de seguir o preparador físico Chirol, seguiu Antônio do Passo. Na Praia Vermelha, João Rodrigues ficou com a teleobjetiva armada, esperando. Meia hora depois, chegavam Zagalo e Chirol. Apesar das ameaças, João Rodrigues fotografou o encontro que, por questão de segurança, deveria ser secreto, pois Zagalo poderia não aceitar.

OS SETE DIAS DA CRISE

Sábado, 14 — À tarde, a Seleção empata de 1 a 1 com o Bangu. Às 21h30, Antônio do Passo telefona para Abílio de Almeida, diretor da CBD, e depois para João Havelange, anunciando que se demitiria do cargo de presidente da Comissão Técnica. Causa: os incidentes provocados pelo técnico João Saldanha. Havelange concorda e pede que tudo seja formalizado na segunda-feira.

Domingo, 15 — Apenas especulações em torno do assunto: João Saldanha renunciaria ou seria afastado?

Segunda-feira, 16 — O presidente do Flamengo, André Richer, apresenta queixa-crime contra Saldanha, por invasão de domicílio (a "visita de cortesia" do técnico à concentração do clube) e tentativa de agressão (contra o porteiro que quis barrá-lo). Havelange reúne-se com a Comissão Técnica e diz que deu tudo à Seleção, mas os resultados foram negativos. Critica seu trabalho e marca nova reunião para o dia seguinte. No saguão, diálogo áspero entre o presidente e o técnico. Era o rompimento. Passo pede demissão. Saldanha é informado da renúncia por um telefonema interurbano da equipe de Placar. Confessa sua surpresa: "Mas eu não sei de nada! Se for uma jogada tipo PSD, não contem comigo. Não renuncio. Se quiserem, que me demitam".

Terça-feira, 17 — Saldanha dirige o treino no Itanhangá. Antes, anuncia a escalação do time contra o Chile, sem Pelé. À noite, em reunião na CBD, Havelange dá por dissolvida a Comissão Técnica. "Não sou sorvete para ser dissolvido", diz Saldanha. Havelange o demite.

Quarta-feira, 18 — Chirol dirige o treino. Começam os boatos em torno do nome do novo técnico. Havelange chama Dino, técnico do Coríntians, que conversa com Passo e impõe condições para dirigir a Seleção. À mesma hora, Havelange se reúne com Oto Glória, técnico do América, e o convida para o cargo. Mas, na Praia Vermelha, no interior do automóvel do técnico, Passo acerta tudo com Zagalo, que assume na mesma noite. Na TV-Globo (Rio e São Paulo), Saldanha faz graves denúncias e diz que foi traído. Chama os dirigentes de covardes e pusilânimes, diz que Pelé "é uma gazua usada pela CBD para tirar dinheiro dos banqueiros".

Quinta-feira, 19 — A Seleção treina no Maracanã, sob o comando de Zagalo e com novos convocados: Félix, Leônidas, Roberto e Arílson. Falta Dario, que não chegou a tempo. Os titulares vencem por 4 a 0. É o melhor rendimento do time desde que se formou, mas os reservas não recebem instruções. Roberto faz dois gols (um deles com a mão, diz o goleiro Leão). Chamado a Brasília em companhia do presidente do CND, Elói Meneses, Havelange dá explicações sobre a crise ao Ministro Jarbas Passarinho, que anuncia uma devassa na CBD, depois da Copa, quer o Brasil ganhe ou perca.

Sexta-feira, 20 — Havelange fala em programa especial da TV-Tupi e pede apoio à torcida: quer um crédito de confiança para o novo treinador. Dario apresenta-se à Seleção, e Zagalo diz que o convocou como prêmio pelos gols que faz (Dario foi o artilheiro do Robertão de 1969). Saldanha chega a São Paulo, contratado com exclusividade por Placar, para escrever a história da crise. Em Brasília, o Ministro Passarinho comunica que concederá audiência a Saldanha, talvez esta semana ou no máximo até o dia 6 de abril. 










CARTA ABERTA

João Saldanha passou três dias trancado num apartamento em São Paulo, escrevendo as sujeiras, as manobras e as mentiras da Seleção Brasileira.


Um dia o Dr. Antônio do Passo apareceu na minha casa e me convidou para ser treinador da Seleção Brasileira. Não me falou em contrato, em dinheiro, em nada. Só perguntou se eu queria ser o treinador da Seleção. Eu disse a ele:
— Isso é uma sondagem ou um convite?
— É um convite.
— Topo.

Eu disse à imprensa que já tinha sido convidado três vezes. Foi mentira: fui convidado cinco vezes, em 1958, 1966, 1967, 1968, 1969. Aceitei. Aceitei porque achava que daria uma dimensão maior à luta que sempre travei na imprensa. Quem quiser que procure: são nove anos de artigos assinados no jornal Última Hora, do Rio de Janeiro. Era a luta em defesa do maior patrimônio esportivo brasileiro: o jogador. Em defesa do jogador contra o cartola, o oportunista, o aproveitador. Topei a parada sabendo que ia brigar contra a inveja, a calúnia, a perfídia. Topei porque sabia que nosso país precisa de alegria. E o futebol é a alegria de nosso povo. Por isso topei a parada. Sabia que ia me aborrecer muito, que ia lidar com a inveja, a calúnia, a intriga. Que ia lutar contra tudo.

Fomos para as eliminatórias. Ganhamos. Tive problemas sérios. Nenhum de campo. Problemas de campo não eram difíceis: nosso time era bom, e nossos adversários não eram muito bons. O Paraguai era adversário difícil, mas só lá na terra deles. Fora de lá, não. Que me desculpem os paraguaios, povo que admiro, que talvez tenha formado a primeira nacionalidade na América do Sul: fora de sua terra os senhores não são fracos.

Fomos para a Colômbia em cima da hora. Não dava para formar um time. Preferi uma base, a do Santos. Fui criticado, massacrado. Todos diziam que o Santos estava podre. Mas foi com o Santos e mais três jogadores que vencemos a Inglaterra, campeã do mundo. Com o Santos e mais três ou quatro, nós classificamos o Brasil para disputar as finais da Copa, em que eu espero tenhamos um pouco de sorte. Adoraria que ganhássemos esse troço. Mas tive de enfrentar coisas horrorosas.

O Brasil é famoso em futebol, e Pelé é mais famoso que o Brasil. Se algum turista for à Armênia, à Coréia, ao Tibete, à Finlândia, talvez tenha dificuldade em explicar onde fica o Brasil. Mas não terá nenhuma dificuldade em explicar qualquer coisa sobre Pelé.

DEFENDO O JOGADOR

Entrei nessa para defender o nosso patrimônio mais precioso: o jogador de futebol. Não admito, repito com a maior violência, até de arma em punho, que um jogador brasileiro seja atingido. Ao fazer isso, estou certo de que, antes de mais nada, defendo o meu país.

Começou a guerra. Houve inveja, ciúmes, calúnia. Tudo isso era secundário. Diziam-me todos os dias os dirigentes: "Ponha a imprensa daqui para fora". Eu dizia não. O diálogo com a imprensa é importante porque, mesmo que mintam, que deturpem, nós estaremos colocando nosso país mais em cima, mais alto. Num programa de televisão em Hamburgo, Alemanha Ocidental, o entrevistador perguntou-me:
— O que o senhor acha da matança de índios no Brasil?

Eu respondi:
— Nosso país tem 470 anos de história. Nesses 470 anos foram mortos menos índios do que em dez minutos de uma guerra provocada por vocês. Os selvagens são vocês.

A televisão saiu do ar, o entrevistador nunca mais falou comigo.

Eu defendo meu país em toda parte por onde ando. Mesmo as coisas erradas que fazemos aqui no Brasil — as coisas erradas que todos os países fazem. Se lá fora disserem que estamos cometendo erros, eu brigo, jogo uma TV para o alto, chuto um jornalista, ponho para fora um radialista, rasgo uma fita de gravação, arrebento um microfone. Não admito que ofendam o meu país. Ofender meu país é ofender um povo, ofender a mim, ofender toda a gente de que eu gosto.

Por compreender o papel da imprensa, abri as portas da concentração, abri as portas da informação. Não houve nenhum segredo, nenhum mistério. Todos podiam entrar, podiam sair, fazer o que quisessem. Quando elas foram fechadas, foi contra a minha vontade, porque eu compreendia que tudo o que fosse escondido seria sujeira — e eu achava que, como não tínhamos nenhuma sujeira, não tínhamos nada a esconder. Entretanto, o meu espírito de solidariedade e de lealdade a meus companheiros me obrigava a defender mesmo as ideias deles que eu julgava erradas.

Quando entrei na Seleção, não me fizeram injunções. Todos os brasileiros têm o seu time, eu tinha o meu, como brasileiro. Escalei o meu time. Então sofri as maiores injunções que jamais alguma pessoa possa ter sofrido. Mas meu time era o meu time. Fui para as eliminatórias, lutei. Entre os dezesseis países classificados para disputar a Copa, o Brasil foi o que conseguiu a classificação mais brilhante, elogiada por toda a imprensa estrangeira. Impus o respeito ao treinador brasileiro. Tenho em meu poder os elogios feitos por Matt Busby, do Manchester United, o homem mais competente em futebol no mundo inteiro. Tenho em meu poder as declarações dos treinadores de todos os países, que passaram a respeitar o treinador brasileiro, que agora pode manter com eles um diálogo mano a mano. Por isso, Alf Ramsey, técnico da Inglaterra, dizia:
— Não gosto de enfrentar o João Saldanha. Ele tem uma agilidade mental fora do comum.

Não, eu não tenho agilidade mental fora do comum. Eu apenas defendo a verdade.

Quando assumi, chamaram-me de treinador não diplomado. Paciência, o que é que vou fazer? Foi assim também quando assumi a direção de futebol do Botafogo. O Paulo Amaral — precursor da Educação Física séria no Brasil, professor da matéria na Escola Nacional de Educação Física — estava com o cargo de roupeiro, submetido às ordens de um homem diplomado por um decreto presidencial que facilitou as coisas para alguns treinadores antigos, que não tinham sequer o curso primário. Um dia, Paulo Amaral fazia aquecimento de seu time. O treinador diplomado por decreto chamou-o e disse:
— Ocupe o seu lugar. Vá tratar das chuteiras, dos calções, das sungas e das meias dos jogadores.

Mas eu dei toda força ao Paulo Amaral para que pudesse desempenhar a sua profissão. Esta foi a minha atitude ante os diplomados. Respeito o diploma, porque respeito o estudo — e até hoje sou um estudante. Leio sobre tudo. Só paro de ler quando o sono me engole.

E tive de enfrentar outras paradas, muito sérias, dentro da Seleção. Quando disse "topo" ao Dr. Antônio do Passo, estava tomando posição em defesa do jogador.

MANDEI PRA CABEÇA

Eu sabia que aquele "topo" ia causar uma revolução no futebol brasileiro. A Seleção estava desmoralizada. O Maracanã não enchia nem contra a Seleção da FIFA, nem contra a Seleção da Alemanha. O povo não acreditava mais. Eu achava que devia promover o nosso futebol — provocar, chamar atenção pra cima da gente, pra cima de mim se fosse preciso. Devíamos chamar o povo de novo pra dentro do Maracanã. E acho que tive grande êxito nessa parada.

Eu trabalhava em jornal. Meu jornal dedicava quatro páginas a esportes. Depois despediu oito funcionários e passou a dedicar apenas uma. Eu trabalhava numa rádio, que dedicava várias sessões de sua programação ao esporte. E a rádio cortou o esporte, deu-lhe apenas alguns minutos. Eu trabalhava numa televisão que, de uma hora e meia, passou a ter apenas quatro minutos sobre futebol. Eu achava que isso tudo tinha de ser modificado. Felizmente, pude constatar que aquele jornal voltou às quatro páginas de esporte. Os minutos daquela rádio se transformaram em horas.


A televisão passou a ocupar duas horas por dia com futebol. Não só toda a nossa classe estava arrumando emprego, mas também o jogador de futebol estava promovido, estava em seu lugar. O público voltou aos estádios. Este mérito, meus amigos, me desculpem a falta de modéstia, eu tive. Quando me convidaram, entendi que estavam modificando os critérios velhos, que estavam querendo coisas novas no futebol brasileiro. Mandei pra cabeça.

Fui para o Paraguai, botei os jogadores na rua, brigando a soco, bofetão e pontapé quando tentaram comemorar dois dias antes o centenário da Guerra do Paraguai. Por que queriam me derrotar. Onde estivemos, enfrentamos com hombridade, mas nunca agredimos. Jamais disse a algum jogador que desse um pontapé, porque o jogador brasileiro é artista. Quem precisa de pontapé é o jogador grosso, o ignóbil, o traiçoeiro, o jogador mau-caráter.

Fui por aí, enfrentando as paradas. Estava tudo muito bem. De repente surgiu uma crise. Se perguntarem hoje por que fui demitido, palavra de honra, juro pela Teresa e pelas crianças que não sei. Por que não me deram nenhuma explicação, tentaram fazer com que eu pedisse demissão. Ora, um homem de luta não pede demissão. Disseram-me que a Comissão Técnica estava dissolvida. Eu respondi:
— Não sou sorvete para ser dissolvido. O que quer dizer dissolvido? Estou demitido?
— Está demitido.
— Até logo, boa noite, vou para casa dormir.

E não há ninguém que tire a tranquilidade do meu sono.

PELÉ É UM INGENUO

Por que aconteceu tudo isso?

Não sei muito bem. Vou tentar adivinhar. Dentro dessas tentativas estão meus esforços para ajudar a admirável posição do Ministro Jarbas Passarinho, interessado em auxiliar o futebol brasileiro, em ajudar o povo brasileiro na sua importante missão de Ministro da Educação — e eu considero o futebol uma das formas mais importantes de educação. É preferível que um menino vá jogar uma partida do que se marginalizar. Vou tentar dar algumas explicações do porquê da minha demissão.

Acho que para se ganhar uma Copa do Mundo é preciso esforço, sacrifício — e acima de tudo seriedade. Mas há problemas, muito sérios. Em primeiro lugar, a luta contra os crimes que atingem o futebol. Vou desenrolar agora uma série de casos esclarecedores que acontecem na Seleção. Sei que todo o bode está aí formado em torno de Pelé. Tenho relatórios médicos de Pelé que vêm desde 1960. Vejam isto:

"No ano passado, depois de examiná-lo três vezes em seis meses, para jogar na Seleção, o médico Hilton Gosling concluiu que Pelé estava sob séria ameaça de um colapso renal (uremia), que bem podia decorrer do grande esforço a que vinha sendo sujeito, fazendo em média três jogos por semana. O médico ficou de tal maneira assustado que mandou um relatório confidencial, advertindo as autoridades desportivas quanto ao perigo que corria a saúde de Pelé. O relatório depois foi encaminhado ao Santos Futebol Clube, cujo presidente, então, comprometeu-se com a CBD a dar uma folga ao jogador. Deu-lhe vinte dias para extrair as amígdalas. Mas, três meses adiante, o Santos entregava Pelé ao selecionado brasileiro (excursão à Europa, no começo deste ano) nas seguintes condições físicas: tornozelo direito inflamado e recém-saído do gesso com tratamento incompleto; frieiras e calos infectados em quase todos os dedos dos pés; contusão na planta do pé direito, que mal lhe permitia pisar no chão. Para jogar, Pelé precisava acolchoar as chuteiras com palmilhas de espuma de borracha e pôr nos entrededos pequenas almofadas também de espuma para proteger os calos e atenuar a comichão das frieiras".

O texto é do jornalista Armando Nogueira (revista Senhor, Rio, novembro de 1960, página 53). O laudo é do Dr. Hilton Gosling.

Pelé é o jogador mais sacrificado do futebol brasileiro, o jogador mais explorado. Ganha por jogo, por participação — e precisa jogar, porque senão seu clube não ganha. Acho que o Pelé faz muito bem. Mas ele é um ingênuo, uma criança; não sabe que é o homem mais explorado do mundo. Em torno dele muita gente enriqueceu. Pelé é o gênio do futebol, o rei do futebol, o maior jogador de todos os tempos. Tenho dificuldade em vaticinar se possa aparecer alguém melhor. Diria assim: será possível aparecer um gênio militar maior do que Napoleão? Talvez tenha acontecido, não sei. É possível que apareça um jogador melhor do que Pelé, mas para mim isso jamais ocorrerá.

Contra esse rapaz tem sido cometidos os maiores crimes, os crimes mais estarrecedores. Não sei se vale a pena ou se é oportuno lembrar um caso em Milão, em 1963, quando os empresários italianos disseram que não haveria jogo se Pelé não fosse ao campo. Quando o chefe da delegação disse que Pelé teria de entrar em campo de qualquer maneira, o Dr. Hilton Gosling recusou fazer uma infiltração de Novocaína para que ele entrasse no circo romano, no circo máximo, para satisfazer às hienas que estavam nas arquibancadas. Pelé jogou dez minutos. Se não jogasse, não haveria jogo. Por quê? Porque o contrato feito com a Federação Italiana obrigava a presença de Pelé.

LIDIO, UM TRAIDOR

Vem a Seleção Brasileira, e eu estou no meio do negócio. Feitos os exames médicos, são-me apresentados os problemas, mas superficialmente, sem nenhum caso sério. Então nós fomos para o campo jogar a primeira partida com o Peru, à noite. Com quinze minutos de jogo, puxei pela camisa o supervisor Adolfo Milman, o Russo, e disse-lhe:
— Há algo de estranho, você não acha?
— O quê?
— Com o Pelé.
— Acho.

Aconteceram duas ou três jogadas em que não era possível o Pelé errar. Perguntei ao médico se havia algum problema com Pelé. Ele disse que não. Veio outro jogo. Perguntei novamente ao médico e ele respondeu que não havia qualquer problema com Pelé. Quando Pelé errou duas ou três jogadas em outro jogo noturno, eu disse:
— Pelé errou aquelas jogadas porque não enxergou a bola.

Então o médico me disse que tinha feito um exame em Pelé. Quanto a isso, vou dizer uma coisa: nunca esse médico me deu qualquer laudo sobre nenhum jogador da Seleção, embora eu tenha pedido mais de duzentas vezes. Desconfiei e descobri que Pelé estava com dificuldade de jogar. Não disputava bola de cabeça e errava as jogadas mais simples. Fazia, porém, jogadas notáveis, porque seu talento, seu gênio, sua capacidade, seu amor ao futebol e a nosso país lhe impunham este sacrifício.

Vida que segue. Continuou o negócio, ganhamos a eliminatória. Não era difícil. Pedi a Pelé que voltasse ao meio de campo. Aliás, no jogo com o Peru, aquele da briga, eu disse a ele:
— Sal da área que eles querem te matar.

O jogador La Torre dava pontapés em jogadores brasileiros há mais de oito anos, todas as vezes que um time do Brasil ia a Lima. Era o cancã de lá, o brabo. Eu dizia aos nossos jogadores:
— Abram o olho com esse jogador, que ele é facinoroso.
— Não, não é preciso — respondiam os jogadores, principalmente os do Santos e do Botafogo, que todos os anos jogam lá duas ou três vezes.

Voltemos à concentração. Imprensa e rádio de um modo geral notaram algum problema com Pelé.
— Quero um exame sério — disse o médico respondeu: —

SEGUE


 

— Que espécie de exame?
— Quero um exame de campo visual, que seja feito na Aeronáutica. O mesmo exame que os pilotos são obrigados a fazer. Um exame de saúde da ponta do cabelo à ponta dos pés. Jamais botarei no campo um jogador que não tenha condições físicas para disputar uma partida.

Então o Dr. Lídio Toledo me confessou que Pelé sofria de miopia. Eu jamais revelei esse problema. E lamento que o Dr. Lídio — informante de um jornal do Rio, não sei se como assalariado ou gratuitamente — tenha revelado isso. Aliás, o Dr. Lídio cometeu a indignidade de informar a esse jornal que seriam cortados da Seleção os jogadores Scala, Toninho e Zé Maria. E eu soube, dos jogadores que iam ser cortados, por esse jornal. Eu, o técnico.

PELÉ NÃO OBEDECEU

Vida que segue, vamos em frente.
Sobre minha demissão? Claro que não deve ter sido causada pelas provocações de Iustrich, pois o João Havelange me abraçou, me beijou. Se houvesse alguém perto, podia ter-me comprometido, pois pensariam que algum de nós era uma coisa estranha. No dia seguinte, Havelange me chamou e me demitiu. Então, o ato nada tinha a ver com provocações disso ou daquilo, mas sim com a revisão que eu havia pedido para Pelé.

Por uma série de problemas, Pelé vinha atuando mal na Seleção. Das dezessete ou dezoito partidas que fez, jogou bem apenas em uma delas: meio tempo contra o Paraguai, em Assunção. Quando exigi que fosse feita uma revisão nisso tudo, lembrei-me do conselho de um velho amigo e homem experiente do futebol, chamado Vicente Ítalo Feola.

— João — ele me disse — cuidado com o "apogeu". O Gérson está uma bala; é atualmente, longe de todos os outros, o melhor jogador brasileiro e talvez o melhor do mundo.

Eu tirei Gérson do campo porque Gérson estava em ponto de bala, atendendo à advertência de Vicente Ítalo Feola — homem bom, leal, simples. Se o Gérson estava em ponto de bala e a Copa do Mundo vai ser disputada a partir de 3 de junho, e nós estamos em março, eu quis poupar Gérson.

Com Pelé se dava o contrário. Ele vinha de uma série de atuações irregulares que me preocupavam. No jogo com a Argentina, em Pôrto Alegre, aos dez minutos mandei pelo Aparício Viana um recado para que o Pelé voltasse para o meio de campo, pois os argentinos tinham três homens ali. Esse recado era apenas uma lembrança do que eu tinha dito antes do jogo. Aos 22 minutos, Admildo Chirol foi dar o recado que não tinha sido cumprido. Aos 32 minutos, novo recado do Chirol. Aos 38 minutos, eu, pessoalmente, quando fui ajudar a atender o zagueiro Baldocchi, machucado na perna, mandei o recado.

No intervalo, falei com Pelé:
— É você que tem de ficar ali no meio-campo, junto com Piazza e Gérson. Fui obrigado a tirar até o Piazza, porque ele estava morto. E você que tem de ficar ali vinte minutos.

Pelé não ficou ali. Foi para aquele lugar em que o Zagalo e o Jair da Rosa Pinto jogaram mais de dez anos, num cantinho do campo. Ali pro lado.

Pelé é homem de caráter, jogador brioso. Ele não foi pro meio de campo porque não tinha condições. Eu o desafio e a quem quer que seja a desmentir isso: o confronto com o Aparício Viana, Admildo Chirol, Baldocchi e todos os jogadores, com os quais falei no intervalo, no vestiário.

Eu quis tirar Pelé aos quinze minutos do segundo tempo. Tinha pedido que ele ficasse vinte minutos recuado, junto do Gérson e do Piazza. Como ele não estava recuando, pensei que o remédio seria retirá-lo.

Não que Pelé quisesse fazer uma maldade, ele é incapaz disso. Ele não estava podendo fazer o que pedi. E o supervisor Russo me pediu que eu não o tirasse, porque, se perdêssemos, poderia parecer que o estávamos culpando. Achei justo. Logo em seguida saiu um gol da Argentina. Aí é que resolvi mesmo não tirá-lo de campo. Tirar Pelé, o nosso maior patrimônio, poderia parecer que eu jogasse a culpa da derrota em cima dele. E engoli a derrota sozinho.

Lamento que Pelé ande pensando ou dizendo que está sendo enganado por mim. Lamento mais ainda porque em Bogotá eu me expus por causa dele. Nada tenho contra ele, só quero defendê-lo. Quando vi aquela cena de Milão, em 1963, a que me referi antes, saí aos berros protestando. Felizmente o Dr. Hilton Gosling teve a consciência de não fazer aquele negócio.


DERAM BOMBA AO REI

Quando descobri que Pelé tinha um pequeno defeito visual — não é grave, absolutamente — apenas repeti o que os médicos me disseram. Não sou oftalmologista, mas jamais falei isso a ninguém. Lamento que o Dr. Lídio Toledo, diante de um jornal, tenha feito a revelação ao público e tenha provocado esse escândalo no Brasil. O Dr. Lídio Toledo é um mau-caráter, como vão comprovar os fatos que contarei.

Pelé estava com 38 graus de febre num dia, e no dia seguinte apareceu bom. O Dr. Lídio Toledo me explicou:

— Apliquei nele este remédio. É por isso que ele está bem.

O remédio é Penbritin, um antibiótico que os astronautas que foram à Lua tomaram. Fiquei surpreso: no dia seguinte Pelé estava inteiro, com tanta saúde quanto o meu filho Joãozinho, de dez anos.

Na hora da escalação de Pelé para o jogo seguinte, aquele treino contra o Bangu, perguntei ao Dr. Lídio como estava a situação. Ele disse:

— Vai, João. Com aquela bomba, ele está zero quilômetro.

Agora, pergunto eu: como Pelé estará no quilômetro 70, tão envelhecido ele já foi?

Já fiz referência aos problemas de 1963, ao círculo vicioso que envolve Pelé. Se ele não jogar, o Santos não joga. Se o Santos não jogar, não ganha dinheiro. Se não jogar; também Pelé não ganha dinheiro. Por isso ele tem de jogar sempre.

Entrei na Seleção com o firme propósito de defender os jogadores. Lamento a pusilanimidade e a insinceridade do Dr. Lídio Toledo. Ele que me processe, se for capaz. Vai ser mais um processo na minha vida. Eu queria os jogadores porque já os conhecia. Tenho o testemunho do jornalista Sandro Moreira e do radialista Clóvis Filho: Sandro Moreira segurava os braços de Garrincha, e Clóvis Filho lhe colocava uma toalha na boca para o Dr. Lídio aplicar uma injeção no joelho de Mané, a fim de garantir a presença dele na partida do Botafogo contra o Peñarol. Garrincha também pode confirmar isso. O jornalista Doalcei Camargo também. Se Garrincha não entrasse, o Botafogo não jogaria.

O Dr. Lídio Toledo era o médico da minha família. Isso não é uma contradição em relação ao que eu digo? Não. Se qualquer pessoa tiver de fazer uma operação, que procure o Dr. Lídio Toledo. Ele tem uma habilidade fantástica, é um médico excelente. Ele pôs o Garrincha no campo, o Botafogo ganhou 8 ou 9 mil dólares. Garrincha ganhou seu bicho. Mas os ecos urros das injeções e infiltrações de Cortisona e Novocaína, tomadas com uma toalha na boca, para resistir à dor.

É isso que eu não admito, e por saber disso fui logo dizendo:
— Não quero que façam isso.

Agora, quando tirei Pelé do time, foi para ter a única esperança de contar com ele na Copa do Mundo. A partir de hoje, mordido no seu amor-próprio muito grande, amor-próprio de homem de bem, talvez ele corra mais do que pode. Mas se sacrifica.

Talvez pensem que Pelé é muito rico. Ele poderia ser, mas deu metade do que ganhou. Todo dia ele dá dinheiro para alguém. Esse crioulo bom, bacana, não pode ser dopado para entrar no campo. Ele não pode estar com 38 graus de febre num dia e no outro estar inteiro, à custa de bombas.

Naquele treino do Bangu, eu disse a Pelé para jogar do lado direito. O repórter Fausto Neto, de Placar, é testemunha, pois estava ao meu lado. Eu queria que o Paulo César ficasse ali, mas Pelé não podia ficar em outro lugar. Era um dia nublado, e Pelé não estava enxergando direito. Quando ele tinha voltado para a Seleção, eu perguntei ao médico como estava a vista dele. O laudo foi passado a jato. O médico disse:
— Não está bem, mas dá para jogar.

— Então — respondi — converse com ele e diga que ele não deve jogar nem de noite nem num dia escuro.

O médico fez então uma revelação que eu desconhecia:
— Pelé está usando óculos.


A FOTO INDISCRETA

Sei que há dias o Jornal da Tarde de São Paulo publicou a fotografia de Pelé com óculos. Essa foto apareceu na redação de O Globo.

— Foi feita há seis meses, numa gravação de novela, porque o Pelé não gosta de — disseram-me.

— Pelo amor de Deus — pedi ao chefe da seção esportiva de O Globo — não publiquem essa foto porque isso conta prejuízos Pelé.

— Isso não é novidade — ele respondeu. — Já saiu no Jornal da Tarde.

— Se vocês têm alguma consideração por mim — insisti —, não façam isso.

Eu sabia do problema de Pelé, queria poupá-lo para a Copa. No treino de sexta-feira, no Maracanã, Pelé ficou mordido e correu como um alucinado. Eu queria que ele corresse como um alucinado não aqui, mas lá na Copa do Mundo. Pouparia Pelé como poupei Gérson. Ou e chamei e disse:
— Gérson, você está em ponto de bala. Fica sossegadinho aí que você só vai voltar a jogar quando estivermos em treinamento lá no México.
Eu queria fazer o mesmo com Pelé.

PELÉ PAGA TUDO

Mas Pelé tem de jogar a qualquer preço. Quando eu quis tirá-lo, veio todo mundo em cima de mim.
— João — disse um diretor da Seleção —, se o Pelé sair o patrocinador não nos paga mais.
— Mas eu não tenho nada com patrocinador, sou apenas um treinador de futebol.
— Não, João, não faça isso, senão não vamos ter mais dinheiro.
Se o médico me disse que Pelé tinha uma lesão de ligamentos do joelho direito, se me disse todos os venenos que ele tomou estes anos todos, se me disse que ele não podia ou não devia jogar de noite, minha obrigação era poupar Pelé, para que ele fosse tratado. Quando o médico me falou tudo isso, pedi:
— O senhor pode me dar isso como um laudo por escrito?
Juro sob palavra de honra que até hoje não tenho qualquer laudo por escrito.
É apenas com Pelé que eles se negam a dizer o que há realmente. Com Rildo não foi assim. O médico me disse que Rildo tem um sopro no coração e não pode jogar em altitudes como a do México. Só por isso não convoquei Rildo, meu amigo pessoal, jogador que eu mesmo fui buscar no juvenil do Esporte Clube Recife a fim de levá-lo para o Botafogo. Um jogador de fibra, de caráter. Mas o médico me afirmou que Rildo não tem condições para disputar a Copa do Mundo no México.
Sei que o Dr. Lídio vai desmentir tudo isso, mas vou para a cadeia chamando-o de canalha, chamando-o de mentiroso. Podem publicar isso na revista, eu não me incomodo: só por esta razão não convoquei Rildo.
O médico me falou também sobre os problemas do Djalma; tive então de cortá-lo. Sobre o Félix deu até escândalo. Jamais revelei qualquer desses problemas, mas o Dr. Lídio Toledo, informante de um jornal do Rio, dava todas estas informações sub-repticiamente, fazendo-as explodir.

O CASO ZÉ MARIA

A coisa mais pusilânime, Ministro Jarbas Passarinho, o senhor que está interessado em saber o que há no futebol, a coisa mais cruel, mais imunda que já vi foi com o jogador Zé Maria. Esse rapaz tem um mal congênito que não é importante; má formação — não sei como se chama em termos médicos — da última costela. Aquilo aponta fenômenos de dor. O Dr. Lídio Toledo quis barrá-lo. Depois da eliminatória, afirmou que Zé Maria não podia jogar duas semanas. Disse que ele tem uma hérnia de disco, que não foi comprovada pelos neurologistas.
— Mas é grave? — perguntei.
— Não. Com uma operação, em um mês, um mês e meio, ele está bom.
— Então — sugeri — procure o médico da Portuguesa de Desportos, leve suas radiografias, para fazerem a operação. Daqui a um mês e meio teremos o mais fabuloso lateral-direito do mundo.
Mas Zé Maria, homem humilde, filho de gente humilde, que ganha uma porcaria de ordenado, se não me engano 600 mil cruzeiros velhos por mês, não foi tratado, não foi operado.

LÍDIO É MENTIROSO

No meio disso surgiu o Corinthians Paulista, interessado em Zé Maria. O Dr. Lídio Toledo foi correndo e avisou o Corinthians: Zé Maria não podia jogar. Zé Maria estava jogando, era um dos melhores jogadores do Robertão, até fazia gols, era artilheiro. E o Corinthians quis contratá-lo. Dr. Lídio disse ao médico do Corinthians que Zé Maria era portador de um mal. Achei isso uma canalhice. Pelo amor de Deus, publiquem o que estou dizendo. Isto é uma sem-vergonhice, uma traição. Uma das coisas mais ignóbeis que já vi.
O Dr. Lídio Toledo foi ao médico do Corinthians — testemunha é o repórter Solange Bibas, da Gazeta Esportiva de São Paulo — e o Corinthians, que ia contratar Zé Maria por 900 milhões antigos, desistiu do negócio. Zé Maria ganharia 15%, cento e tantos milhões. De rapaz pobre que é, passaria a ser um rapaz azeitado. Cento e trinta e cinco milhões não são nada, mas davam, pelo menos, para Zé Maria comprar um trocinho pra ele, casar-se começar o seu pé-de-meia.
Mas o Dr. Lídio não foi ao médico de um clube, que comprou um jogador do Botafogo há pouco tempo, para avisar que esse jogador é epiléptico. Há quatro anos o Dr. Lídio sabe que esse jogador é epiléptico. Permitiu que esse rapaz fosse vendido a outro clube. É claro, meus amigos, que não vou revelar o nome do jogador. Mas este rapaz precisa é abandonar o futebol, ser tratado, para ter uma vida normal, e não ser vendido a outro clube, o que é uma sujeira, uma traição.
O senhor está ouvindo, Ministro Jarbas Passarinho? São estas coisas que o senhor precisa saber, interessado que está em fazer bem ao futebol brasileiro.
Um exemplo: não pude impedir que Toninho fosse excluído — o laudo médico foi categórico. Apenas aconteceu uma coisa: na hora de comunicar o laudo médico ao jogador, o médico saía covardemente por uma porta, enquanto Toninho entrava por outra. O médico, que não apareceu, disse que com sinusite não dá para jogar na altitude do México.
Eu tenho sinusite desde 1932. Joguei futebol no México, até inaugurei o Parque Astúrias. Fiquei lá dois meses jogando futebol. Depois voltei ao México umas quinze ou dezesseis vezes, a última ainda há pouco. Nunca senti nada. De vez em quando faço uma lavagenzinha na minha sinusite. Nunca me fez mal algum. Mas os médicos afirmavam categoricamente, eu respeito o laudo dos homens de ciência. Sou ingênuo, acredito nas pessoas. Toninho foi barrado.

Por quê? Porque assim poderiam fazer, como fizeram, toda pressão em cima de mim para convocar Dario. Entre Dario — que é um excelente jogador — e Tostão eu preferia Tostão, ou Claudiomiro do Internacional de Pôrto Alegre. Um jogador desse tipo, acostumado a levar pelo chão a bola, que fatalmente seria perdida se nós a levantássemos ante aqueles europeus gigantes que jogam muito bem pelo alto.
Senhor presidente da República, General Garrastazu Medici. O senhor é gaúcho, sabe que eu adoro gaúcho. O senhor é gremista, sabe que eu adoro o Grêmio. Todo mundo diz que sou Botafogo. Não. Sou Botafogo no Rio de Janeiro, mas o meu clube — todo garoto, sabem, gosta mais do seu primeiro clube — é o Grêmio, que é também o seu clube. Então nós temos estas coisas em comum. Eu conheço a sua família, o senhor conhece a minha. Somos filhos daquelas famílias tradicionais, os gaúchos de quatrocentos ou quinhentos anos. O senhor é um torcedor apaixonado pelo futebol. Isso é uma maravilha. O Brasil precisava há muito de um presidente que goste de futebol, verdadeiramente, como o senhor gosta. O senhor é homem de vestiário. Seu irmão foi um jogador muito bom. Então o senhor é gente do futebol.
Veja o caso do nosso conterrâneo Scala. Desde novembro do ano passado eu estava atrás de Scala, pedindo-lhe que não se sacrificasse. Várias vezes tentaram colocá-lo no campo antes da hora, em partidas importantes do Internacional. É aquele negócio que não é maldade, não é cafajestada: é um apego esportivo que quer ganhar jogo. O senhor já pensou, presidente, nós gremistas campeões há sete anos e o Colorado querendo ganhar da gente? O senhor sabe que eles punham até veneno na nossa comida para ganhar jogo. Então, colocavam Scala em campo de qualquer maneira. Esse açodamento prejudicou o jogador, que chegou à Seleção sem condições físicas. Mas a exclusão de Toninho foi sórdida.
Quem teve de dar o laudo médico foi o "doutor" João Saldanha, que não é formado em Medicina. O médico havia fugido da sala. Toninho chorou, eu também chorei, mas não por sentimentalismo (eu não sou sentimentalista), e sim de raiva, porque sabia o que estava acontecendo e não podia fazer nada contra os homens que a toda hora me desafiavam em nome da ciência.

Depois, foi marcada uma reunião no Hotel Plaza para comunicar as dispensas. Deviam comparecer o supervisor Adolfo Milman, o Dr. Lídio Toledo — para comunicar as questões médicas — e eu, para dizer quais os jogadores que iria substituir. Às duas horas da tarde não apareceu ninguém. Duas e dez, nada. Duas e quinze, idem. Às duas e meia, comuniquei aos jogadores que eles tinham sido cortados.

LÍDIO DEU NO PÉ

Além de Toninho e Scala, havia Cláudio, que não fazia parte da Seleção. O Cláudio é apenas mais uma vítima da criminosa atividade do futebol brasileiro, que quer pôr os jogadores em campo de qualquer maneira, dopando-os, com doping positivo ou negativo. Cláudio, que hoje é vítima de sérias crises renais, que já foi internado na Casa de Saúde São José, no Rio, e em Santos, é vítima dos antibióticos para curar as infecções provocadas por injeções que lhe foram aplicadas.

Como o Dr. Lídio não apareceu no Hotel Plaza, eu fiquei como o homem que cortou Scala e Toninho. Por uma questão de coerência, afirmei: se esses jogadores estiverem bons antes da data da inscrição na Copa (15 de abril), eu os recoloco na Seleção. Se os jogadores foram convocados por mim e cortados por condições físicas, seria lógico que voltassem ao time assim que se recuperassem fisicamente.

Na hora de comunicar o corte a Toninho eu tive de explicar a razão, sem saber como, pois não sou médico. Na hora de explicar a Scala, como o Dr. Lídio deu no pé, quem explicou foi um neurologista que por acaso passava na sala — um homem de alta competência e que disse que Zé Maria não tem hérnia de disco.

O REMÉDIO DO NEGRÃO

Dirijo-me a vossa excelência, Ministro Jarbas Passarinho: nunca recebi um laudo médico, nenhuma informação. No diário com o dia em que Marco Antônio não treinou, num dia em que o Joel também não apareceu. Fiquei surpreso:
— Cadê o Joél?
— Ah, o Joel está com amigdalite, vai ser operado.
Mas Joel não ia ser operado. Eu pedi que o operassem logo, pois precisava dele imediatamente. Então operaram o Joel. Quando Joel ficou doente, eu soube no campo.
— Ué, cadê o Negrão? — perguntei.
Disseram que Pelé estava com 38 graus de febre. No dia seguinte voltei lá, haviam dado a Pelé aquele remédio, Peritritin, cuja bula está comigo. Estranhei:

— Doutor, não é perigoso dar remédio desse tipo?
— Não, não é. É isso que astronauta toma.


Nós já conquistamos a Lua, mas a gente não sabe direito o efeito desses remédios. Sou contra, não admitia que jogador fosse para o campo sem condições físicas. Então eu quis tirar Pelé de campo, da mesma forma que havia tirado Gérson, para evitar que seu "apogeu" seja agora, e não lá no México. Eu queria o "apogeu" de Pelé lá no México e não aqui, agora.


— Olha, Crioulo — eu disse pra ele —, abre o olho. Estão te dando o diabo. Você ontem estava com 38 graus, hoje está aí pulando como sapo, é capaz de bater o recorde mundial de altura. Abre o olho com essas bombas.
Comuniquei então aos meus companheiros de Seleção e de concentração que ia tirar o Pelé do time, para ver onde isso ia dar.
Qual é o grau de miopia de Pelé?

Senhor Ministro Jarbas Passarinho: eu não sei, porque ninguém me informou. Não me deram um bilhete sequer sobre condição física de qualquer jogador. Fui obrigado a descobrir as coisas, para, por exemplo, impedir que Everaldo desse piques.
E vou confessar-lhe uma coisa: o jogador Rogério entrou chorando no meu quarto e disse que estava sendo perseguido pelo médico, que ameaçara expulsá-lo da Seleção caso ele não fosse imediatamente para o campo. Rogério alegou que tinha uma distensão muscular, precisava de um pequeno repouso.
Eu o tranquilizei:
— Descansa aí da tua distensão, Rogério, e só entra no campo quando você estiver bom.

O médico me procurou:
— Olha, esse Rogério aí está me chateando.
Não sei a razão disso. Mas seria o caso de apurar.
Tenho mais coisas a dizer-lhe, Ministro Jarbas Passarinho, ao senhor que está interessado em defender o nosso futebol. Conte com o meu apoio. Me chame, me leve à sua casa. O senhor deve ter algum dia de folga. Me chame um dia que eu vou contar o caso do jogador diabético a quem foi aplicada glicose. O senhor sabe o que é dar açúcar a um diabético. Pois é. O jogador morreu.
Eu lhe diria coisas horrorosas que acontecem não por crime, mas porque as paixões do futebol levam a tal ponto.
E lhe diria outras coisas também.
Tenho em mãos, senhor Ministro, propostas ignóbeis de vendedores de material esportivo. O senhor sabia que quando eu fui ver o campo do Itanhangá o administrador da Seleção me disse que a baliza custava 5 milhões de cruzeiros antigos? Eu fui ao fabricante da baliza, ela custou apenas 1 milhão e 600 mil cruzeiros velhos.
O senhor sabia, senhor ministro, que a diretoria da CBD me proibiu dizer que a diária de cada jogador em Guadalajara custa 4 dólares e meio sem comida, enquanto na cidade de Guanajuato, com todas as refeições, a despesa diária é de apenas 12 dólares?

O JOGO DAS VIAGENS

O senhor sabia, senhor ministro, como são tiradas as passagens para as viagens da Seleção?

Quando fomos fazer a viagem para as eliminatórias, eu advertia aos homens que os jogadores gaúchos poderiam ter uma passagem assim: Pôrto Alegre — Rio — Bogotá — Caracas — Assunção — Rio — São Paulo. Esta passagem custa o mesmo que aquela com partida do Rio de Janeiro. Os jogadores de São Paulo podiam ter a passagem São Paulo — Rio — Bogotá — Caracas — Assunção — Rio — São Paulo. Também custava o mesmo. O senhor sabe o que aconteceu? Tiraram todas as passagens a partir do Rio de Janeiro e voltarão para o Rio de Janeiro. As outras passagens dos Estados foram pagas em dinheiro. O senhor sabe quanto custa uma passagem Rio — Pôrto Alegre — Rio? Quinhentos e noventa cruzeiros novos.

O senhor sabe, senhor ministro, que eu quis fazer a concentração em São Paulo, porque São Paulo tinha quatorze jogadores e isso permitiria uma economia enorme? Toda vez que eu lhes desse folga, eles já estariam em casa. Só havia um casado do Rio. Os mineiros eram solteiros. A única despesa da CBD, portanto, seria a de uma passagem de um jogador para ir de São Paulo ao Rio e voltar, o que era uma brincadeira (brincadeira não, senhor ministro, que passagem de avião anda meio cara). Mas os homens da CBD me disseram:
— Nós nos concentraremos no Amazonas ou em Teresina, mas em São Paulo não.
— Por quê? — eu quis saber.
— Porque em São Paulo há injunções políticas, imprensa, etecétera.

A imprensa de São Paulo, senhor ministro, não foi injusta comigo. Não é maior a dose de adversários ou de críticos na imprensa de São Paulo que na do Rio Grande, Rio ou Minas. Não faço essa injustiça porque isso é monstruoso. Eu quis levar a Seleção para São Paulo porque isso nos dava uma economia de dezenas de milhões de cruzeiros velhos. Entretanto, a luta político-esportiva — que eu desconheço e não consegui assimilar muito bem — é tão sórdida, tão suja, que impediu que isto fosse feito.

INTERVENHA NA CBD

Tem mais coisa, senhor ministro, que eu não posso esquecer. Por favor, faça uma lei que proíba a qualquer time jogar mais de 52 partidas por ano. O senhor estará prestando um grande benefício ao futebol brasileiro. O remédio para Pelé é jogar apenas uma partida por semana. Assim o Pelé não terá mais nenhum problema, mesmo que fosse cego dos dois olhos. O senhor, senhor ministro, sabia que há um lateral-direito (Modesto, do Coritiba) que é cego de um olho, mas que disputou o Robertão, custou 150 milhões antigos e foi um dos melhores jogadores do torneio?
O senhor sabe, senhor ministro, como são as fichas médicas dos clubes? Elas dizem assim: jogador, fulano; idade, 23 anos; peso, 72 quilos; altura, 1 metro e não sei o quê; estado civil, solteiro ou casado. Mas não dizem que o jogador tem sopro no coração, rutura de ligamentos, infecções, verminose, áscaris, ameba, esquistossomose (se nordestino) e o diabo-a-quatro.

É CASO DE POLÍCIA

Senhor ministro, ponha um paradeiro nisso tudo. Ponha até polícia dentro do vestiário, mas não deixe mais que envenenem os jogadores. Entrei nesta parada para defender o jogador e continuo nela, porque ele é o nosso capital mais precioso.

Senhor ministro, faça uma intervenção no futebol brasileiro, mas eu vou lhe propor o nome de dois interventores: João Havelange ou Antônio do Passo. Sabe por quê? São malandros, experientes, conhecem o futebol brasileiro a fundo. Como dirigentes eles são fraquíssimos, mas como interventores serão fabulosos. São covardes, cínicos e pusilânimes, mas como interventores seriam fabulosos, porque possuem tamanha experiência que nenhum chefe, presidente ou diretor de clube ou de federação teria coragem de fazer injunções sobre eles.

Sei, porque as vi, as injunções que eles sofrem. Agora, com a força de interventores e apoiados pelo senhor, que quer fazer uma limpeza em nosso capital mais precioso, esses dois homens seriam fabulosos. Não os troque porque seria uma injustiça, embora eles tenham tido o cinismo de me demitir sem dizer por quê. Passo vai de diretor do Olaria a diretor de futebol da CBD: é um gênio, tem talento. Isento de injunções, este homem seria o melhor interventor do futebol. Talvez melhor que o Havelange, que, quem sabe? anda um pouco cansado de futebol e tem uma coisa e uma diferença: o Passo gosta e futebol, o Havelange detesta o futebol.
Nomeie o Doutor Antônio do Passo, senhor ministro, mas não deixe nenhum presidente de federação chegar perto dele, principalmente o Otávio Pinto Guimarães, da Federação Carioca, que, caramba!, em pleno 1970 ainda usa ceroulas.
Faça isso, senhor ministro!

DERROTISMO, NÃO

Não pensem que estou fazendo uma campanha de derrotismo. Não. A minha luta é outra. Se quiserem, os senhores têm nove anos de artigos no jornal Última Hora do Rio, escritos e assinados por mim, todos em defesa da integridade dos jogadores. Escrevi um livro, Os Subterrâneos do Futebol, onde fiz as mais sérias denúncias — e quase fui parar na cadeia. Uma delas foi a do doping no futebol brasileiro.

Não pensem que isto é uma campanha de derrotismo. Se eu queria poupar Pelé era para ver se dava, porque acho que Pelé é mais importante naqueles vinte dias de briga, de guerra de foice, de guerra de feras, lá no México. Quando chamei os jogadores de feras foi para botar meia-sola na palavra cobra. Cobra estava muito barato. Porque a maior fera é o homem. E para ganhar a Copa é preciso ter homens.

Vamos dar apoio à Seleção, mas vamos livrar a Seleção da sujeira. Vamos tirar o pânico dos jogadores brasileiros. Eles não podem ficar submetidos a injunções e interesses escusos, aos interesses comerciais de alguns e à inveja e pusilanimidade de outros.
Minha posição é de apoio à Seleção Brasileira. Seleção pela qual lutei e continuo lutando e a que dei o melhor de minha vida.

João Saldanha 













Postar um comentário

Blog do Paixão

Postagem Anterior Próxima Postagem

SEU ANÚNCIO AQUI!

SEU ANÚNCIO AQUI!