Padre João, figura popular e querida no sertão do Araripe, chega acompanhado de 500 vaqueiros encouraçados
Em plena caatinga uma clareira aberta, um altar de
madeira rústica, uma cruz de aroeira e, em derredor uma multidão de 5.000
fiéis.
Os aboiadores JOÃO CHICO e ANTÔNIO CAZÉ, se encarregaram do introito
Obteve repercussão nacional, sendo motivo de reportagens
coloridas nas revistas “Manchete” e “O Cruzeiro”, nos jornais cariocas,
paulistas, pernambucanos e cearenses, a Missa do Vaqueiro, pela primeira vez em
plena caatinga sertaneja, nas proximidades de Serrita, Pernambuco.
Mais de 5 mil pessoas, vindas dos mais distantes recantos
dos sertões, ali chegaram, em carros, a pé ou galopando seus cavalos. A figura
central dessa cerimônia foi o Pe. João Câncio dos Santos, Vigário Geral de
Petrolina, que reside em Sítio dos Moreira. Centenas de pessoas vieram de
caminhão e usando outros veículos menores.
LUÍS GONZAGA
A ideia nasceu de Luís Gonzaga, o famoso Rei do Baião, para
homenagear a memória do vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado há 17 anos. Em
plena caatinga, uma clareira aberta, tinha ao centro uma cruz de aroeira,
símbolo autêntico do sertão, e, sobre a mesma, uma cabeça de madeira com chapéu
de couro, representava o vaqueiro morto.
Padre João, figura popular e querida nos sertões do Araripe,
chegou acompanhado de 500 vaqueiros encouraçados. O cerimonial litúrgico valeu
pela simplicidade e imponência. O Vigário, com seus paramentos de couro,
celebrou a cerimônia, sem paralelo no sertão: a Missa do Vaqueiro.
Os aboiadores João Chico e Antônio Cazé se encarregaram do Introito, e o cearense Daudete Bandeira como Epístola, cantou os versos do seu irmão Pedro Bandeira, enumerando os feitos de Raimundo Jacó.
Na hora do sermão, Luís Gonzaga, primo de Raimundo Jacó,
subiu ao altar, com sua sanfona. Acompanhado de toda a família, cantou “A Morte
do Vaqueiro”, composição sua, em memória do parente. Após a comunhão, o
celebrante desceu do altar e os vaqueiros apearam, para formar um semicírculo
em redor do Padre. Sentados no chão retiraram dos seus alforges, carne seca,
farinha e rapadura, e repartiram a comida em verdadeira e autêntica comunhão.
Era o momento do ágape, velho costume sertanejo.
Evocando a memória de um herói anônimo do sertão, o vaqueiro, aquela Missa realizada em Lages de Serrita, em 18.07.71, foi excelente divulgação do Nordeste autêntico. O Pe. Câncio, simples, sem afetação, e humilde, ganhou renome nacional.
Página original da Revista Região de 1972





