Para Denilde Holzhacker, manobra busca estabilidade e controle do petróleo, mas histórico chavista da família Rodríguez e laços com a China desafiam pragmatismo da Casa Branca
Da Redação
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, acena após sessão da Assembleia Nacional em Caracas, em 5 de janeiro de 2026 Foto: AFP
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de apoiar Delcy Rodríguez para liderar a transição na Venezuela, em detrimento de líderes da oposição, como María Corina Machado ou Edmundo González Urrutia, reflete um cálculo focado na estabilidade interna e no acesso a recursos energéticos do país. A avaliação é de Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, que vê o movimento da Casa Branca como uma estratégia para evitar conflitos internos com uma mudança abrupta de regime.
A análise de Holzhacker corrobora as informações de um relatório sigiloso da CIA, revelado na segunda-feira, 6, que indicou ao presidente norte-americano que lideranças leais ao governo deposto de Nicolás Maduro estariam mais bem posicionadas para manter a ordem do que a oposição tradicional.
Segundo a professora, mudanças abruptas de regime tendem a gerar grande instabilidade e disputas violentas entre grupos rivais. “Se escolher o elemento de uma pessoa de dentro do próprio regime, pode dar mais estabilidade. É um risco, um grande risco que o governo americano está assumindo”, afirma.
“Para os EUA e para o Trump é mais estabilidade. Evita ter que fazer uma intervenção direta e se distancia da política de intervenções, especialmente as que aconteceram depois do Iraque.”
Petróleo e objetivos econômicos
Outro fator decisivo para a escolha foi o controle que Rodríguez exerce sobre a estrutura de poder e a economia venezuelana. Além de ter sido vice-presidente, ela comandou o Ministério da Economia e Finanças e possui trânsito livre na área de energia. “Ela controla o principal recurso que o governo Trump tem como objetivo de ter acesso”, explica Holzhacker, referindo-se às vastas reservas de petróleo do país sul-americano.
A especialista destaca que, desde 2024, Rodríguez vinha adotando uma postura mais prática na condução econômica, conseguindo controlar parcialmente a inflação. “Havia já uma sinalização de uma negociação pós-Maduro em que ela teria um pragmatismo maior em assumir uma política de transição”, pontua a professora.
Além disso, a influência política da família Rodríguez é um ativo. Seu irmão, Jorge Rodríguez, preside a Assembleia Nacional, o que confere a Delcy canais importantes de poder dentro do grupo chavista para convencer os militares e a elite política de que a transição sob seu comando é mais segura do que uma entrega de poder à oposição.
Apesar do alinhamento momentâneo, a Casa Branca impõe condições severas. Segundo Holzhacker, os norte-americanos manterão “uma pressão muito forte” sobre a nova liderança. A lista de exigências inclui a abertura do mercado de petróleo e, crucialmente, o distanciamento da Venezuela de países considerados hostis aos interesses de Washington, como Cuba, Irã e China.
“A China tem uma ação de investimento, recebe petróleo venezuelano. Então, Delcy tem também uma pressão por parte dos EUA muito grande. E ela vai ter que convencer todos os grupos, especialmente os militares, de que a transição no comando chavista é melhor do que uma mudança de regime”, avalia a professora.
No entanto, o risco permanece: a família Rodríguez tem um histórico de luta marxista e ligação profunda com o chavismo ideológico, o que levanta dúvidas sobre até onde irá o alinhamento com os objetivos de Trump.
Doutrina Trump
Para a especialista, a manobra consolida a visão de política externa de Trump, que busca se distanciar do modelo de “nation-building” (construção de nação) visto nas guerras do Oriente Médio.
“Tanto o Iraque quanto o Afeganistão e a Líbia mostram que ele e o governo dele têm uma outra estratégia. Ele busca decisões realistas que não gerem tanta pressão na opinião pública americana”, conclui Holzhacker. Ao optar por uma transição controlada por dentro do chavismo, Trump tenta garantir os interesses dos EUA sem o ônus de uma ocupação ou de um governo provisório frágil.



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