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ANIMAÇÃO ARARIPINA

"Professor não será substituído", reforçam especialistas sobre uso da IA na educação básica

De acordo com o MEC, há um acompanhamento das redes de ensino na revisão curricular para implementação da educação digital e midiática

Por Mirella Araújo / JC


Alunos utilizam ferramentas de IA durante atividade em sala de aula - Divulgação/Colégio Salesiano Recife

A integração de ferramentas de inteligência artificial ao ambiente escolar, de forma responsável, vem ganhando força nos debates, inclusive com orientações recentes do Ministério da Educação (MEC), que destacam a importância de um uso ético, crítico e consciente da tecnologia desde a educação básica.

Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, 37% dos alunos usuários de internet afirmaram utilizar plataformas de IA generativa em pesquisas e atividades escolares. Entre os estudantes do ensino médio, essa proporção chega a 70%.

Do lado docente, 43% dos professores do ensino fundamental e médio relataram utilizar ferramentas de IA generativa na preparação de conteúdos didáticos, com maior incidência no ensino médio e em escolas urbanas e privadas, indicando que a tecnologia também se difunde como suporte ao trabalho pedagógico.

Apesar disso, os dados apontam baixa institucionalização e pouca orientação pedagógica: apenas 19% dos alunos disseram ter conversado com professores sobre como usar IA generativa em atividades escolares, e 33% relataram ter recebido orientações sobre como identificar conteúdos incorretos, falsos ou preconceituosos produzidos por IA.

De acordo com o MEC, há um acompanhamento das redes de ensino na revisão curricular para implementação da educação digital e midiática, concebida como um campo integrado e orientado, principalmente, pelas habilidades de computação previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e pelas Diretrizes Operacionais estabelecidas na Resolução CNE/CEB nº 2/2025.

Nesse contexto, redes estaduais começam a estruturar iniciativas a partir de três frentes: criação de currículos com competências e disciplinas específicas sobre IA; elaboração de guias para uso da tecnologia nas escolas ; e formação docente.

Diretrizes nacionais

No documento orientador “Inteligência Artificial na Educação Básica”, lançado no dia 8 de abril, o Ministério da Educação apresenta sete diretrizes nacionais. Elas reforçam que todo ensino com IA deve ser acompanhado do ensino sobre IA. A proposta garante que o uso — ou não — dessas ferramentas seja uma decisão das comunidades escolares, ao mesmo tempo em que assegura, de forma obrigatória, a aprendizagem intencional sobre esses sistemas nos currículos.

As orientações também indicam que decisões pedagógicas envolvendo IA devem priorizar o desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, evitando a dependência tecnológica e promovendo o bem-estar de crianças e jovens. Nesse contexto, o letramento em IA deve ser integrado aos letramentos digital, midiático e computacional, com foco em problemas reais da sociedade e nas necessidades das comunidades locais.

Outro ponto central é o compromisso com a redução das desigualdades educacionais, a promoção da sustentabilidade e a garantia de direitos no ambiente digital, incluindo a proteção de dados e o combate a violências. As diretrizes ainda destacam a importância da valorização docente, com formação continuada e protagonismo dos professores no uso pedagógico da tecnologia.

“A inteligência artificial já é uma realidade, não é mais uma escolha. Então, nós da educação básica, nessa frente de diretrizes e políticas, precisamos estar ao lado das redes educacionais e das escolas, apoiando cada vez mais o fortalecimento do uso dessa ferramenta por professoras e professores e, também, por parte dos nossos estudantes. Não vamos ter medo, vamos aprender a usar”, afirmou a secretária de Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt, durante o webinário “IA na educação básica: caminhos para o currículo e a prática docente”.

Nesse contexto, as redes precisam estar atentas ao desenvolvimento de competências como pensamento crítico, autonomia digital, responsabilidade no uso de dados e capacidade de reconhecer limites e riscos das ferramentas.

Desempenho nas avaliações

Kátia destacou ainda que o Brasil ainda apresenta desempenho abaixo da média dos países da OCDE no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e que, a partir das próximas edições, o exame passará a avaliar também competências relacionadas ao uso da inteligência artificial.

Segundo ela, diagnósticos recentes da OCDE com professores de diferentes países já apontam alguns consensos. “A inteligência artificial não garante, sozinha, qualidade na aprendizagem. Isso já era algo que intuíamos, mas agora temos dados que confirmam”, afirmou. “Nem o estudante sozinho, usando trilhas com inteligência artificial, nem o professor que utiliza a tecnologia apenas para corrigir atividades garantem uma aprendizagem melhor. É preciso haver sinergia”, completou.

De acordo com a secretária, a IA pode apoiar professores na elaboração de planos de aula e no uso de materiais didáticos, mas não substitui o papel docente. “O professor jamais será substituído se quisermos garantir aprendizagem de qualidade”, concluiu.

Implementação no cotidiano escolar

Para Joselma Silva, coordenadora de Tecnologia Educacional do Colégio Salesiano Recife, a IA já começa a ser incorporada ao currículo escolar. Na unidade de ensino, por exemplo, iniciativas vêm sendo aplicadas com foco na cidadania digital, buscando preparar os estudantes para compreender, questionar e utilizar a tecnologia de forma responsável no cotidiano.

“O trabalho acontece de forma interdisciplinar, conectando diferentes áreas do conhecimento e promovendo reflexões sobre o uso das ferramentas digitais. A ideia é ampliar o olhar dos alunos, especialmente no que diz respeito à cidadania digital e ao pensamento crítico”, explicou.

“Sempre que surge a oportunidade, trabalhamos esses temas em sala. Explicamos o que é IA, como utilizá-la de forma consciente e ética, além dos cuidados e limites necessários. É um processo gradual, mas essencial para formar estudantes preparados para lidar com as transformações digitais”, completou.

A equipe pedagógica também participa de formações sobre o tema, especialmente após o ECA Digital — iniciativa que amplia o Estatuto da Criança e do Adolescente para o contexto das tecnologias, abordando segurança online, uso responsável da internet e proteção de dados. “Ou seja, a tecnologia deve servir como apoio, e não substituir o papel do professor ou o desenvolvimento integral dos estudantes”, declarou a especialista.

Curso sobre IA é ofertado a professores

O MEC disponibiliza o curso gratuito “IA na prática docente: uso ético, criativo e pedagógico”, voltado a professores do ensino médio. A formação está disponível na Plataforma Mais Professores e integra a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec).

O curso está estruturado em cinco módulos que combinam fundamentos conceituais, aspectos técnicos, implicações éticas e aplicações pedagógicas da inteligência artificial. Ao longo da formação, os professores desenvolvem competências para compreender, analisar criticamente e integrar a IA às práticas educacionais de forma contextualizada e responsável.

A carga horária total é de 80 horas, com prazo mínimo de 20 dias para conclusão e emissão de certificado gratuito.

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