- Author,Vitor Tavares
- Role,Da BBC News Brasil em
São Paulo
A
Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou nesta quinta-feira (21/5) a Marinha
brasileira por ataques à memória de João Cândido, conhecido como o "Almirante
Negro" e líder da Revolta da Chibata, em 1910.
A
liderança de Cândido no motim que combateu as punições físicas como o uso de
chibatas contra marinheiros — em sua maioria, negros — o fez se tornar um ícone
das mobilizações antirracistas no Brasil após a abolição da escravidão.
A
Ação Civil Pública foi movida pelo Ministério Público Federal (MPF)
contra a União após o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen,
utilizar termos como "abjetos" e "reprovável" para
descrever os líderes da revolta em uma carta à Câmara dos Deputados, em 2024,
em um debate sobre a inclusão de Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas
da Pátria.
Para
o juiz Mario Victor de Souza, o uso das palavras extrapolou o debate técnico
para atingir a honra dos anistiados e reproduz um "racismo
institucional", já que foi dirigido a um grupo de homens negros que
lutavam contra a tortura física nas Forças Armadas.
A
decisão estabeleceu uma indenização de R$ 200 mil, a serem destinados a
projetos que preservem a memória de Cândido. O valor é bem abaixo dos R$ 5
milhões pedido pelo MPF.
Segundo
Julio Araújo, procurador regional dos Direitos do Cidadão, o órgão deve
recorrer da sentença em busca de maior indenização.
"Mas é uma decisão muito importante, porque ela demarca um limite muito claro no respeito à memória desses personagens e na impossibilidade de sua trajetória ser difamada como vem sendo difamada historicamente", celebrou Araújo em entrevista à BBC News Brasil.
"Ainda mais pelo fato de ser um personagem negro que lutou contra uma prática racista que eram as chibatadas."
A decisão
também marca a primeira vitória de João Cândido contra a Marinha na Justiça,
mais de 115 anos após a Revolta da Chibata, segundo o historiador Álvaro
Nascimento, especialista na história do marinheiro e professor na Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
João
Cândido morreu em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos.
Segundo
Nascimento, o único processo em que João Cândido esteve de frente com a Marinha
foi justamente o que o expulsou da Força, em 1912. Após o motim e antes de ser
expulso, Cândido foi preso, internado como louco e sofreu tentativa de
assassinato.
Após
ser absolvido, ele nunca entrou com ação contra a Marinha solicitando algum
tipo de reparo moral ou financeiro.
Em
2008, uma lei aprovada no Congresso concedeu anistia post mortem a
João Cândido e aos demais marinheiros que participaram da revolta de 1910,
reconhecendo a injustiça das punições sofridas na época e a legitimidade da
causa.
Paralelo
a esse caso, a família de João Cândido entrou em 2026 com uma outra ação na
Justiça Federal pedindo R$ 4 milhões de indenização contra a União. O motivo é
a permanência de registros e narrativas institucionais que, segundo os
familiares, desqualificam a figura histórica de João Cândido. Ainda não houve
decisões a respeito desta nova ação.
O
caso julgado: 'racismo institucional'
Crédito,ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Legenda
da foto,'Quando morreu, em 1969, João Cândido ainda inspirava medo nas autoridades',
afirma o jornalista Fernando Granato
Em
abril de 2024, o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, enviou uma carta
à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados com críticas ao projeto de lei
que incluía João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
A proposta segue em tramitação.
Na
carta, Olsen disse que, para a Marinha, a Revolta da Chibata foi uma
"deplorável página da história nacional" em que "abjetos
marinheiros" desrespeitaram a hierarquia e a disciplina e usaram
equipamentos militares para "chantagear a nação". A conduta de
João Cândido foi chamada de um "reprovável exemplo".
Na
ação, o MPF classificou a linguagem como "estigmatizante e
pejorativa" e argumentou que a Marinha tem emitido manifestações
institucionais públicas que atacam diretamente a memória de João Cândido.
O
MPF também sustentou que esse tipo de discurso ignora a lei de anistia post
mortem de 2008.
Em
defesa da Marinha, a Advocacia-Geral da União (AGU) argumentou que o envio da
carta à Câmara era um exercício regular do diálogo interinstitucional e que a
lei de anistia não impõe ao Estado um "dever de louvação histórica".
A Marinha afirmou ter o direito de preservar suas próprias perspectivas sobre a
história.
Na
decisão, o juiz Mario Victor de Souza considerou que houve abuso no exercício
da liberdade de expressão institucional, da violação da lei de anistia e da
perpetuação de racismo institucional.
Segundo
Souza, a linguagem adotada pela Marinha não constitui exercício
historiográfico, mas uma perpetuação de uma narrativa de inferiorização e de
negação de humanidade. "Uma manifestação de racismo institucional em
sua dimensão social", disse na sentença.
Para
o procurador Julio Araújo, fica claro que, apesar de a Marinha poder ter sua
posição contra a Revolta da Chibata, "ela jamais pode atacar a memória
desse personagem [João Cândido] e do símbolo que ele representa para a
população negra e para a sociedade brasileira como um todo".
"Ele
foi um herói, como se reivindica, principalmente pela sua capacidade de mostrar
como atos formais de libertação, como foi a abolição da escravatura, são
insuficientes diante da perpetuação do racismo e de práticas racistas",
diz o procurador.
Apesar
de condenar a União a pagar R$ 200 mil, o juiz julgou improcedente o pedido do
MPF que buscava proibir a Marinha de se manifestar contra a inclusão de João
Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Também
preservou expressamente o direito da Marinha de manter seu posicionamento
crítico sobre a quebra de hierarquia e disciplina.
Em
nota, a AGU informou que ainda não foi intimada da decisão. A BBC News Brasil
também entrou em contato Marinha, mas não obteve resposta até a publicação
desta reportagem.
A
Revolta da Chibata e a perseguição a João Cândido
Crédito,ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Legenda
da foto,Os marinheiros assumiram o comando de quatro navios
Em
21 de novembro de 1910, por um motivo até hoje incerto, o marinheiro Marcelino
Rodrigues foi punido com 250 chibatadas no Rio de Janeiro.
Naquela
época, faltas leves eram punidas pelos oficiais da Marinha com
a prisão em solitária, a pão e água, por um período de três a seis
dias.
Já
as ofensas mais graves, como desrespeito à hierarquia, recebiam como castigo 25
chibatadas na frente de toda a tripulação e ao som do rufar de tambores.
O
fato é que a sentença imposta a Marcelino revoltou um grupo de marinheiros
negros que, cansado de sofrer castigos físicos de seus oficiais brancos,
resolveu organizar um motim.
Sob
a liderança de João Cândido, 2.379 marinheiros — em sua maioria, pretos e
pardos — assumiram o comando de quatro navios de guerra — Minas Gerais, São
Paulo, Bahia e Deodoro —, que estavam ancorados na Baía de Guanabara.
Aos
gritos de "Viva a liberdade!" e "Abaixo a
chibata!", a marujada içou bandeiras vermelhas de insurreição, apontou
80 canhões na direção do Rio de Janeiro e ameaçou bombardear a então
capital da República, caso suas exigências não fossem cumpridas: melhores
salários, anistia aos revoltosos e, principalmente, o fim dos castigos.
Por
essa razão, o motim, que durou apenas cinco dias, de 22 a 27 de novembro,
entrou para a História como a Revolta da Chibata.
"Não
podíamos admitir que, na Marinha do Brasil, um homem ainda tirasse a camisa
para ser chibatado por outro homem", declarou João Cândido, em
depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em março de 1968.
Um
tiro de canhão, de advertência, chegou a ser disparado. Atingiu um cortiço e
matou duas crianças. Enquanto parte da população fugia apavorada, a outra
parte, curiosa, corria para o cais, para assistir ao vaivém dos navios.
Pressionado
por políticos da oposição, o recém-empossado presidente da República, o marechal
Hermes da Fonseca, aceitou as condições e pôs fim à rebelião.
A
trégua, porém, durou pouco. Já no dia seguinte, logo que os rebelados começaram
a desembarcar, Hermes da Fonseca voltou atrás. E, por decreto, começou a
perseguir todos os que participaram do levante.
Dos
2.379 marujos revoltosos, 1.216 foram expulsos da Marinha. Outros 600 foram
presos e 105 obrigados a embarcar nos porões do navio Satélite, rumo à
Amazônia, para trabalhos forçados na produção da borracha. Catorze deles nunca
chegaram ao destino. Foram fuzilados durante a viagem e tiveram seus corpos
jogados ao mar.
João
Cândido foi preso, interrogado e, às vésperas do Natal de 1910, levado para a
Fortaleza de São José, na Ilha das Cobras (RJ), onde ficava o Batalhão Naval.
Em
um calabouço onde só cabiam seis prisioneiros, dividiu a solitária com 17
companheiros. Ali, os marujos ficaram por três dias, sem ter o que comer ou
beber e debaixo de um sol escaldante.
Sob
o pretexto de desinfetar a cela, imunda de fezes e urina, os carcereiros
jogaram cal lá dentro. Apenas dois dos 18 encarcerados sobreviveram: João
Cândido e João Avelino Lira, de 26 anos. Os demais morreram de fome ou de
asfixia.
A
odisseia de João Cândido não terminou ali. Em abril de 1911, foi mandado para o
Hospício Nacional dos Alienados, onde permaneceu por dois meses.
Logo,
o diretor da instituição, Juliano Moreira, atestou que, de louco, João não
tinha nada. Liberado, voltou à prisão, onde sobreviveu a uma tentativa de
assassinato.
Um
ano e meio depois, no dia 29 de novembro de 1912, foi levado a julgamento.
Apesar
de absolvido das acusações, foi expulso da Marinha.
Ao
sair da prisão, em 30 de dezembro de 1912, João Cândido passou a fazer biscates
e a vender peixes para sobreviver.
Ele
se casou três vezes, com Marieta, Maria Dolores e Ana, e teve 11 filhos. Viveu
seus últimos anos de vida em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, numa
rua sem asfalto, luz elétrica ou água encanada.
Com
reportagem de André Bernardo, para a BBC News Brasil no Rio de Janeiro



