Novos
casos ampliam preocupação com a expansão regional da doença a partir do leste
da República Democrática do Congo (RDC), onde a atual epidemia apresenta risco
“muito elevado” para a saúde pública.
Por
RFI
Cartaz com os números de contato de emergência para o Ebola está afixado em uma tenda na passagem de fronteira de Busunga, entre Uganda e a República Democrática do Congo, em Bundibugyo, em 18 de maio de 2026 — Foto: BADRU KATUMBA / AFP
Três
novos casos de ebola foram confirmados neste sábado (23) em Uganda,
elevando para cinco o total de infecções no país desde 15 de maio. A doença,
ligada à epidemia no leste da República Democrática do Congo, preocupa a OMS
pelo risco “muito elevado” de expansão. Sem vacina específica para
a cepa atual, autoridades reforçam o monitoramento de contatos enquanto
cientistas aceleram estudos para tratamentos e respostas à crise sanitária.
Três
novos casos de ebola foram confirmados neste sábado (23) em Uganda,
ampliando a preocupação com a expansão regional da doença a partir do leste da
República Democrática do Congo (RDC), onde a atual epidemia apresenta
risco “muito elevado” para a saúde pública, segundo a Organização Mundial da
Saúde (OMS).
O
Ministério da Saúde de Uganda informou que o total de
infecções no país chegou a cinco desde a confirmação oficial da presença do
vírus em 15 de maio. Na ocasião, dois casos haviam sido detectados, incluindo
uma morte.
As
autoridades detalharam que os novos pacientes são um motorista ugandense que
havia transportado o primeiro caso confirmado no país e uma profissional de
saúde contaminada durante o atendimento prestado a esse paciente. Ambos estão
atualmente em tratamento.
O
terceiro caso recém-confirmado envolve uma mulher congolesa que chegou ao país
por via aérea, o que reforça o papel da mobilidade na disseminação da doença em
uma região com intensa circulação transfronteiriça.
De
acordo com o governo ugandense, todas as pessoas que tiveram contato com os
infectados foram identificadas e estão sob monitoramento contínuo, com o
objetivo de interromper cadeias de transmissão.
A OMS mantém uma mobilização internacional diante do avanço da epidemia, que se concentra principalmente no leste da RDC, área marcada por desafios históricos de infraestrutura de saúde e segurança.
Interrupção
de transporte e vigilância ampliada Como medida preventiva, Uganda suspendeu
na quinta-feira (21) todos os transportes públicos com destino à RDC, buscando
conter a entrada de novos casos importados. A decisão reflete a preocupação com
a rapidez da propagação do vírus em países com fronteiras extensas e de difícil
controle.
Na
RDC, onde vivem cerca de 100 milhões de pessoas, há quase 750 casos
suspeitos e 177 mortes também suspeitas associadas ao ebola, segundo dados
divulgados na sexta-feira (22) pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom
Ghebreyesus.
Segundo
o dirigente, a doença “se propaga rapidamente”, o que eleva a urgência de
respostas coordenadas entre autoridades nacionais, organismos internacionais e
organizações humanitárias.
A atual epidemia é causada por uma variante do vírus conhecida como cepa Bundibugyo, menos comum do que a variante Zaire, historicamente responsável pelos surtos mais letais.
A
ausência de vacina específica e de tratamento plenamente aprovado para essa
cepa limita as ferramentas disponíveis para conter o avanço da doença, tornando
medidas básicas de saúde pública ainda mais essenciais (isolamento de casos,
rastreamento rigoroso de contatos e adoção de protocolos de proteção por
profissionais de saúde e pela população em áreas afetadas).
Comunidade
científica acelera busca por tratamentos Diante do agravamento do cenário, a
mobilização não ocorre apenas no campo sanitário, mas também na pesquisa
científica internacional. Na sexta-feira (22), o Consórcio de Pesquisa sobre
Filovírus organizou uma reunião global de emergência em formato virtual, com
apoio da OMS.
O
encontro reuniu mais de 1.300 participantes e teve como objetivo fazer um
levantamento das ferramentas disponíveis e definir prioridades para o
desenvolvimento de respostas médicas mais eficazes.
Entre
as necessidades mais urgentes está a criação de tratamentos específicos
para pacientes que deverão ser internados em centros especializados de
atendimento ao ebola, cuja implantação está em andamento no leste da RDC.
Especialistas
apontam duas linhas principais de investigação. A primeira envolve anticorpos
monoclonais, incluindo um desenvolvido por um laboratório norte-americano com
financiamento do governo dos Estados Unidos.
A segunda linha considera antivirais de amplo espectro, como o remdesivir, já aprovado para o tratamento da Covid-19 e produzido pela farmacêutica Gilead.
Segundo
Julien Potet, responsável por vacinas na organização Médicos Sem Fronteiras
(MSF), ainda serão necessárias semanas de coordenação antes da definição
de protocolos clínicos rigorosos e amplamente aceitos para testar essas
alternativas.
Desafios
logísticos e acesso a tratamentos Embora o avanço da pesquisa seja considerado
fundamental, especialistas alertam para a necessidade de não perder de vista os
desafios práticos enfrentados nas áreas afetadas pela epidemia.
Para
organizações humanitárias como a MSF, a eficácia da resposta dependerá não
apenas da descoberta de tratamentos e vacinas, mas também da capacidade de
disponibilizá-los em condições reais de uso nos países atingidos.
Isso
inclui a definição de modelos de financiamento e produção que garantam acesso
em larga escala, com preços compatíveis com a realidade econômica da região.
O histórico de epidemias anteriores demonstra que a disponibilidade de medicamentos e vacinas pode ser limitada por fatores como custo, logística de distribuição e capacidade dos sistemas de saúde locais.
Nesse
contexto, especialistas defendem que o planejamento econômico e operacional
seja iniciado paralelamente à pesquisa científica, para evitar atrasos na
resposta.
A preocupação central é assegurar que, uma vez comprovada a eficácia de novas ferramentas médicas, elas possam ser rapidamente implementadas no combate à doença em áreas vulneráveis.

