ARARIPINA 98 ANOS: A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA E A CHEGADA DE PADRE LUIZ GONZAGA KEHRLE


Depois de ter feito a reforma na capela, com a ajuda e a colaboração de Joaquim Modesto, Francisco Pedro da Silva e outros. Chico Cícero deu início a outro passo, para a normalização da vida religiosa da Vila. Era a criação da Paróquia. Conta Chico Cícero que, no ano de 1921, D. José Lopes fez sua primeira visita pastoral a São Gonçalo. Com ele veio o Mons. Rolim (Frutuoso Rolim de Albuquerque), então Vigário Geral da Diocese de Pesqueira. Chico Cícero pediu informações ao Mons. Rolim sobre o que era preciso para a criação da paróquia, um desejo geral da população de muitas almas que viviam desassistidas dos ofícios religiosos, e insistiu junto ao Monsenhor para que patrocinasse a causa junto ao bispado.


Chico Cícero mandou comprar em Recife, com o seu dinheiro, três paramentos, um branco, um vermelho e um preto, uma âmbula e um sacrário (objetos litúrgicos). Adquiriu de Severo Cordeiro dos Santos uma casa, pagando a quantia de um conto e quinhentos mil réis, para servir de moradia ao padre. Telegrafou então ao Mons. Rolim, dando-lhe ciência de que havia adquirido os bens necessários à criação da Paróquia. No dia 22 de julho de 1922, D. José Lopes de Oliveira editou o decreto episcopal, criando a Paróquia de São Gonçalo, com a invocação de Nossa Senhora da Penha (que, aliás, não pegou).



O PADRE LUIZ GONZAGA KEHRLE


Fora dado o primeiro e grande passo para a organização dos serviços religiosos de São Gonçalo. O seguinte seria conseguir o padre residente, tarefa bem mais difícil, devido à distância do lugar, suas precárias condições e, sobretudo, à escassez de padres na Diocese. Chico Cícero não desanimava. Sua obstinada vontade de lutar por São Gonçalo não via fronteiras e nem conhecia obstáculos. Usava de todas as armas ao seu alcance. Conhecia o Capitão da Guarda Nacional Francisco Ramos Nogueira, Capitão Chico Ramos, morador na fazenda Boqueirão (do Distrito de Bom Nome, município de São José do Belmonte). O Cap. Chico Ramos tinha uma loja de tecidos em São Gonçalo, aos cuidados de seus cunhados Francisco Carlos Muniz e José Carlos Muniz e tencionava vir morar definitivamente em São Gonçalo. Era um trunfo que Chico Cícero não podia desprezar, para conseguir um padre para São Gonçalo. E disso cuidou logo.

Nos meados de maio de 1923, o Cap. Chico Ramos dá por telegrama essa alvissareira notícia: Francisco Muniz. São Gonçalo. Ouricuri. Cumprindo promessa vg mande sete conduções Vila Bela biponto cinco encangalhadas vg uma com sela homem vg um sela mulher pt Consegui ida de padre Luiz Kehrle pt saudações Francisco Ramos”, telegrama que Chico Cícero guarda de cor, com todos os vegês e petês. De imediato, Chico Cícero alugou sete burros a Senhor de Sauhén e mandou os animais devidamente aparelhados, conforme havia sido pedido, para Vila Bela, pelo ponteiro João Francisco de Alencar. Ficou cuidando dos preparativos para a recepção do padre. Gestou com os enfeites de rua e com fogos a importância de oitocentos mil réis.

No dia 14 de junho de 1923, por volta das três horas da tarde, Padre Luiz era recebido festivamente em São Gonçalo. À boca da noite, foi oferecido um jantar na casa de Severo Cordeiro dos Santos, contando com a presença das mais expressivas figuras da sociedade local. Após o jantar, Chico Cícero mandou a garota Maria Ramos, filha do Cap. Chico Ramos, entregar ao Padre a importância de quinhentos mil réis para as suas despesas. O Padre foi instalar-se em sua residência, a casa paroquial, localizada no centro da Vila, na atual Rua Severo Cordeiro dos Santos, na qual morou depois muitos anos, Totoinho Granja.


No dia 17 desse mês, perante o delegado do Bispo diocesano de Pesqueira, Pe. Luiz toma posse solene como Vigário de São Gonçalo
. Assinaram também o termo de posse o Capitão Francisco Ramos e Francisco da Rosa Muniz.

No dia 23 de junho, Pe. Luiz fazia o primeiro batizado, como Vigário de São Gonçalo, da criança Elvira, nascida no dia 09.06.1923, filha de Francisco Veríssimo da Silva e Maria Josefa da Conceição. No dia 30 desse mês, era realizado o primeiro casamento celebrado por Pe. Luiz na sua nova paróquia. Casaram-se Antônio Joaquim do Nascimento e Ana Maria Conceição, ambos viúvos.

Com a chegada de Pe. Luiz, os ofícios religiosos na capela de São Gonçalo passaram a ser realizados com regularidade: missa pela manhã, nos dias de semana, e, aos domingos, a missa das 7 e das 9; à noite, o terço, diariamente e as novenas dos santos mais festejados.

Pe. Luiz era alemão e veio ao Brasil no começo deste século, trazido por seu irmão Pe. José Kehrle, do clero da diocese de Pesqueira. Fez os seus estudos eclesiásticos em Pesqueira e Olinda, ordenando-se sacerdote, no dia 07 de dezembro de 1919. Foi designado vigário cooperador de seu irmão, na paróquia de Floresta dos Navios. Em princípios de 1923, o Pe. José Kehrle sofreu uma ofensa em Floresta. Alguém, insatisfeito ou desgostoso com o trabalho do Padre, soltou uma bomba caseira em seus pés. Pe. José mudou-se então para Vila Bela, levando também o seu irmão.

Quando Pe. Luiz chegou a São Gonçalo, trazia em sua companhia uma empregada de nome Maria. Acompanhou-o também o jovem Décio Rodrigues da Silva, que servia como sacristão, mister que desempenhou até o ano de 1944. Conta-se que a empregada fazia a arrumação da casa pegou em um rato morto, adquirindo a peste bubônica. Adoeceu e morreu logo depois.

Pe. Luiz, jovem, inteligente, determinado, dinâmico e operoso, logo conquistou a simpatia e a confiança de seus paroquianos. Integrou-se na comunidade e passou a exercer liderança. Sem perder a postura sacerdotal, não desprezou o sentido social de sua missão evangélica e fez um trabalho apostólico exemplar. Melhorou a pequena matriz, aparelhando-a com as alfaias e os vasos sagrados, necessários às celebrações dos atos religiosos. No ano de 1924, fez sua primeira viagem à Alemanha, onde conseguiu recursos para a execução de seu plano de trabalho, a construção de uma nova matriz e da casa paroquial. Em 25 de agosto, com grande festividade, na presença de várias autoridades, entre elas o Pe. Miguel Tavares, de Araripe (CE), que foi orador oficial da solenidade, lançou a pedra fundamental da nova matriz. No dia 30 de novembro desse ano, deu início à construção da casa paroquial, que estava pronta no fim de dezembro.

O plano de construção da matriz teve de ser adiado. É que, em 1926, chegou a São Gonçalo uma comitiva de autoridades de Ouricuri, à frente o Dr. Joaquim José de Caldas Rocha, Juiz de Direito, para traçar com os representantes locais a demarcação da antiga Fazenda São Gonçalo e dos valados da Serra do Araripe. Pe. Luiz ainda resistiu à medida, ponderando sua inoportunidade, em face da situação de pobreza dos são gonçalenses. Os representantes de Ouricuri não se sensibilizaram e procedeu-se então a demarcação. Coube ao patrimônio de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de fato da Paróquia, toda área onde está situada a Cidade, num total de 1.267.490 km2, com os títulos no valor de vinte e nove contos e oitocentos mil réis. Alguns moradores tiveram de vender seus bens, para pagamento das custas da demarcação. Pe. Luiz para não sacrificar mais ainda a população, adiou o seu plano de construção da matriz.

Em 1950, Pe. Luiz foi afetado por uma doença nas cordas vocais e ficou parcialmente privado da fala. Não podendo mais fazer seus sermões, com aquela voz forte e vigorosa de antigamente, deixou a Paróquia que dirigiu por quase 30 anos e retirou-se para a Ordem da Sagrada Família. Faleceu com a idade de 89 anos, na cidade de Patu (RN), em dezembro de 1984. 





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