Chico Cícero mandou comprar em Recife, com o seu dinheiro, três paramentos, um branco, um vermelho e um preto, uma âmbula e um sacrário (objetos litúrgicos). Adquiriu de Severo Cordeiro dos Santos uma casa, pagando a quantia de um conto e quinhentos mil réis, para servir de moradia ao padre. Telegrafou então ao Mons. Rolim, dando-lhe ciência de que havia adquirido os bens necessários à criação da Paróquia. No dia 22 de julho de 1922, D. José Lopes de Oliveira editou o decreto episcopal, criando a Paróquia de São Gonçalo, com a invocação de Nossa Senhora da Penha (que, aliás, não pegou).
O PADRE LUIZ GONZAGA KEHRLE
Nos
meados de maio de 1923, o Cap. Chico Ramos dá por telegrama essa alvissareira
notícia: Francisco Muniz. São Gonçalo. Ouricuri. Cumprindo promessa vg mande
sete conduções Vila Bela biponto cinco encangalhadas vg uma com sela homem vg
um sela mulher pt Consegui ida de padre Luiz Kehrle pt saudações Francisco
Ramos”, telegrama que Chico Cícero
guarda de cor, com todos os vegês e petês. De imediato, Chico Cícero alugou sete burros a Senhor de Sauhén e mandou os animais
devidamente aparelhados, conforme havia sido pedido, para Vila Bela, pelo
ponteiro João Francisco de Alencar. Ficou cuidando dos preparativos para a
recepção do padre. Gestou com os enfeites de rua e com fogos a importância de
oitocentos mil réis.
No dia
14 de junho de 1923, por volta das três
horas da tarde, Padre Luiz era recebido festivamente em São Gonçalo. À boca da
noite, foi oferecido um jantar na casa de Severo Cordeiro dos Santos,
contando com a presença das mais expressivas figuras da sociedade local. Após o jantar, Chico Cícero mandou a garota
Maria Ramos, filha do Cap. Chico
Ramos, entregar ao Padre a importância de quinhentos mil réis para as suas
despesas. O Padre foi instalar-se em sua residência, a casa paroquial,
localizada no centro da Vila, na atual Rua Severo Cordeiro dos Santos,
na qual morou depois muitos anos, Totoinho
Granja.
No dia 17 desse mês, perante o delegado do Bispo diocesano de Pesqueira, Pe. Luiz toma posse solene como Vigário de São Gonçalo. Assinaram também o termo de posse o Capitão Francisco Ramos e Francisco da Rosa Muniz.
No dia 23 de junho, Pe. Luiz fazia o
primeiro batizado, como Vigário de São Gonçalo, da criança Elvira, nascida no
dia 09.06.1923, filha de Francisco
Veríssimo da Silva e Maria Josefa da Conceição. No dia 30 desse mês, era realizado o primeiro casamento celebrado por
Pe. Luiz na sua nova paróquia. Casaram-se Antônio Joaquim do Nascimento e Ana
Maria Conceição, ambos viúvos.
Com a
chegada de Pe. Luiz, os ofícios religiosos na capela de São Gonçalo passaram a
ser realizados com regularidade: missa pela manhã, nos dias de semana, e, aos
domingos, a missa das 7 e das 9; à noite, o terço, diariamente e as novenas dos
santos mais festejados.
Pe. Luiz era alemão e veio ao Brasil no
começo deste século, trazido por seu irmão Pe.
José Kehrle, do clero da diocese de Pesqueira. Fez os seus estudos
eclesiásticos em Pesqueira e Olinda, ordenando-se sacerdote, no dia 07 de
dezembro de 1919. Foi designado vigário cooperador de seu irmão, na paróquia de
Floresta dos Navios. Em princípios de 1923, o Pe. José Kehrle sofreu uma
ofensa em Floresta. Alguém, insatisfeito ou desgostoso com o trabalho do
Padre, soltou uma bomba caseira em seus pés. Pe. José mudou-se então para Vila
Bela, levando também o seu irmão.
Quando
Pe. Luiz chegou a São Gonçalo, trazia em sua companhia uma empregada de nome
Maria. Acompanhou-o também o jovem Décio
Rodrigues da Silva, que servia como sacristão, mister que desempenhou até o
ano de 1944. Conta-se que a empregada fazia a arrumação da casa pegou em um
rato morto, adquirindo a peste bubônica. Adoeceu e morreu logo depois.
Pe.
Luiz, jovem, inteligente, determinado, dinâmico e operoso, logo conquistou a
simpatia e a confiança de seus paroquianos. Integrou-se na comunidade e passou
a exercer liderança. Sem perder a postura sacerdotal, não desprezou o sentido
social de sua missão evangélica e fez um trabalho apostólico exemplar. Melhorou
a pequena matriz, aparelhando-a com as alfaias e os vasos sagrados, necessários
às celebrações dos atos religiosos. No
ano de 1924, fez sua primeira viagem à Alemanha, onde conseguiu recursos para a
execução de seu plano de trabalho, a construção de uma nova matriz e da casa
paroquial. Em 25 de agosto, com grande festividade, na presença de várias
autoridades, entre elas o Pe. Miguel Tavares, de Araripe (CE), que foi
orador oficial da solenidade, lançou a pedra fundamental da nova matriz. No dia 30 de novembro desse ano, deu início
à construção da casa paroquial, que estava pronta no fim de dezembro.
O
plano de construção da matriz teve de ser adiado. É que, em 1926, chegou a São
Gonçalo uma comitiva de autoridades de Ouricuri, à frente o Dr. Joaquim José de
Caldas Rocha, Juiz de Direito, para traçar com os representantes locais a demarcação da antiga Fazenda São Gonçalo
e dos valados da Serra do Araripe. Pe. Luiz ainda resistiu à medida,
ponderando sua inoportunidade, em face da situação de pobreza dos são
gonçalenses. Os representantes de Ouricuri não se sensibilizaram e procedeu-se
então a demarcação. Coube ao patrimônio
de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de fato da Paróquia, toda área onde
está situada a Cidade, num total de 1.267.490 km2, com os títulos no
valor de vinte e nove contos e oitocentos mil réis. Alguns moradores
tiveram de vender seus bens, para pagamento das custas da demarcação. Pe. Luiz
para não sacrificar mais ainda a população, adiou o seu plano de construção da
matriz.
Em 1950, Pe. Luiz foi afetado por uma doença nas cordas vocais e ficou parcialmente privado da fala. Não podendo mais fazer seus sermões, com aquela voz forte e vigorosa de antigamente, deixou a Paróquia que dirigiu por quase 30 anos e retirou-se para a Ordem da Sagrada Família. Faleceu com a idade de 89 anos, na cidade de Patu (RN), em dezembro de 1984.





.png)

