Divulgado
pelo MEC nesta quarta-feira (5), 'termômetro' considera: desempenho dos alunos
em uma prova padronizada (Saeb) e fluxo de aprovação. Rio de Janeiro, por
exemplo, retrocedeu em português e em matemática, mas aumentou 0,4 ponto no
Ideb às custas de regra mais flexível de reprovações.
Por Luiza
Tenente, Ana Clara Alves, g1
Sala de aula no Rio de Janeiro — Foto: Prefeitura de Uberaba/Divulgação
O
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, divulgado nesta
quarta-feira (5), avançou em todas as etapas escolares em relação à última
edição, de 2023.
Mas,
ao examinar os detalhamentos regionais e as “manobras” usadas para inflar os
números em alguns casos, há evidências preocupantes nos índices de aprendizagem
dos alunos.
Nesta
reportagem, veja o panorama do ensino médio da rede pública. O Ideb
de cada estado está mais abaixo, em um infográfico.
Ideb nacional: apenas o ciclo dos anos iniciais (1º ao 5º ano do ensino fundamental) bateu meta — Foto: Arte/g1
✏️No
ensino médio público, o Brasil teve um aumento discreto de 4,1 para 4,3. Com
isso, atingiu o maior índice desde 2005, mas continuou distante da meta
de 5,2, que deveria ter sido batida em 2021 (e que ainda não foi renovada).
“O avanço nesta etapa é menos expressivo. A matemática entra como um esforço importante de trabalho [nos próximos anos]”, afirma Leonardo Barchini, ministro da Educação.
Por
um lado, estados como Paraná (líder do ranking), Piauí (destaque em
matemática), Goiás (salto significativo na última década) e Espírito Santo
(evolução constante desde 2019) conseguiram manter um ritmo de melhora.
Por
outro, é preciso ficar atento a um elemento que pode ter inflado
artificialmente o Ideb de algumas redes estaduais. A implementação
recente de regras muito mais flexíveis para aprovar alunos, como o ocorrido no
Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte, “disfarça” o desempenho acadêmico
insatisfatório dos adolescentes nesses locais. Entenda mais abaixo.
Gráfico mostra o desempenho de cada rede estadual — Foto: Arte/g1
O
que compõe o Ideb?
O
índice cruza duas informações e apresenta resultados em uma escala que vai de 1
a 10:
- 👉taxa de aprovação/fluxo
escolar (a porcentagem de alunos que não repetiram de ano);
- 👉notas do Saeb, uma
prova de português e de matemática feita por alunos do 2º, 5º e 9º ano do
ensino fundamental e por estudantes do 3º ano do ensino médio.
Especialistas
brasileiros e internacionais defendem que a reprovação, quando ocorre de
maneira indiscriminada, aumenta consideravelmente o risco de o adolescente
abandonar a escola. É mais efetivo, por exemplo, implementar sistemas de
recuperação de aprendizagem, para que o jovem possa progredir sem lacunas nos
conhecimentos. Em resumo, não basta passar o aluno de ano: é preciso
garantir que ele esteja aprendendo.
➡️Entra
aqui, no entanto, um viés político do Ideb, ainda mais em ano eleitoral — uma
taxa de aprovação mais alta, mesmo que não venha acompanhada de melhoria
acadêmica, eleva artificialmente o índice.
A
rede estadual do Rio Grande do Norte, por exemplo, registrou um aumento de 0,7
no Ideb do ensino médio em um intervalo de apenas dois anos: de 3,2 (2023) para
3,9 (2025). Mas os dados do Saeb mostram que as notas ficaram praticamente
estagnadas principalmente em matemática.
O
Ideb subiu provavelmente por causa do outro fator: o 1º ano do ensino médio,
que tinha 67,9% de aprovação em 2023, disparou para 87,9% em 2025 (um aumento
de 20 pontos percentuais). No 2º ano, a taxa subiu de 79,1% para 95,8% nesse
mesmo intervalo. Essa mudança abrupta no fluxo é um forte indicativo de
que a melhora no Ideb foi impulsionada por novas políticas de aprovação.
Em
nota, a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer do Rio Grande
do Norte afirma que o resultado do Ideb é reflexo de um conjunto de políticas
públicas voltadas à permanência dos estudantes na escola e que o "Regime
de Aprovação em Progressão Parcial (RAPP) não representa aprovação
automática".
"Os estudantes continuam sendo avaliados ao longo do processo de ensino e aprendizagem e, quando não atingem o desempenho esperado em determinados componentes curriculares, permanecem em regime de progressão parcial, com acompanhamento pedagógico e estratégias específicas para a recuperação das aprendizagens", diz.
Uma
portaria de julho de 2025 definiu que no Ensino Médio (1ª e 2ª séries), o aluno
pode avançar para a série seguinte mesmo reprovado em até 6 componentes
curriculares. O estudante cursa as disciplinas pendentes em regime de
dependência no ano seguinte (ou semestre), com plano de estudos individualizado
elaborado pela escola (professor + equipe pedagógica), acompanhamento por tutor
e avaliações.
Não
é exigida frequência mínima de 75% nas atividades específicas da dependência.
Outro
exemplo de aumento do Ideb apenas pelo fluxo de aprovação, sem avanços no
desempenho dos alunos, é o Rio de Janeiro:
- A rede estadual apresentou
retrocesso em ambas as áreas, com a nota de Português descendo de 258,09
para 254,76 e a de Matemática de 252,19 para 251,53.
- Em 2023, o índice de
aprovação no 1º ano do ensino médio foi de 74,3%; em 2025, saltou para
88,8%. No 2º ano desta etapa, a taxa foi de 81,2% para 92,6%.
- Por decisão da secretaria
estadual de educação do Rio, em 2025, os alunos do 1º e do 2º ano
puderam avançar para a série seguinte mesmo tendo sido reprovados em até 6
componentes curriculares. Bastaria cumprir um “plano individual
de estudos”.
Ricardo
Madeira, gerente de Desenvolvimento da Gestão em Educação do Instituto Unibanco
e professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que esse
recurso de "inflar" o Ideb a partir de mudanças nas regras de
aprovação tem "data de validade".
"O desafio para essas redes é que agora elas já estão com níveis de fluxo muito alto, então, essa margem de ganho acabou. Se as redes quiserem continuar progredindo no Ideb, mantendo esse nível de fluxo alto, vão ter de melhorar a aprendizagem", diz.
Em
nota, a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro afirma que o avanço registrado
no Ideb reflete medidas adotadas pela rede estadual, "como a ampliação da
carga horária dos professores, o acompanhamento pedagógico contínuo das
escolas, a busca ativa de alunos com baixa frequência e iniciativas de
enfrentamento à evasão escolar".
"A Progressão Parcial integra essas estratégias, com foco na recomposição das aprendizagens e na permanência dos estudantes na escola", diz a secretaria.
Melhores
evoluções
Veja os maiores saltos no Saeb, em pontos percentuais, de 2023 a 2025 — Foto: Arte/g1
Por
outro lado, há casos de redes que mostraram um avanço real: o Rio Grande
do Sul, que saltou de 3,9 para 4,7 no Ideb, apesar de também ter mudado as
regras de aprovação, registrou ganhos consistentes na proficiência dos alunos
em matemática (de 273,70 para 282,88) e em português (de 281,07 para 291,94).
O
mesmo ocorreu com o Piauí, onde o crescimento no Saeb foi um dos mais
significativos, suficiente para elevar o estado ao segundo maior Ideb do país
nesta etapa.
- Matemática: de 266,60 para
286,60 (+20 pontos).
- Português: de 266,42 para
279,43 (+13 pontos).
As
redes de Alagoas e de Minas Gerais também se destacaram por uma recuperação
mais consistente tanto no fluxo quanto nas notas do Saeb.
O
Paraná, que já apresentava bons números em 2023, continua como líder nacional,
reforça a ONG Todos Pela Educação.
"O estado do Paraná é um grande destaque por conseguir o maior Ideb entre as redes públicas de todas as etapas. Observando apenas o indicador de aprendizagem [Saeb], o estado também tem o melhor resultado", afirma a análise da instituição.
Estados
com maiores retrocessos no Saeb
Alguns
estados (além do DF) registraram queda em suas médias no Saeb, com destaque
para reduções em Língua Portuguesa:
- Amapá: Teve o
recuo mais acentuado na média geral, caindo de 254,36 para 253,39 em
matemática e de 264,77 para 261,24 em português.
- Rio de Janeiro: Apresentou
retrocesso em ambas as áreas, com a nota de português descendo de 258,09
para 254,76 e a de matemática de 252,19 para 251,53, como já mencionado
acima.
- Distrito Federal: Registrou
queda em matemática (de 262,61 para 260,63) e em português (de 268,94 para
268,17). Foi o único ente federativo com redução no Ideb (- 0,1).
- Rondônia: Também
apresentou declínio, com matemática passando de 264,91 para 263,64 e
português de 268,64 para 268,23.
O
que os alunos sabem ou não sabem fazer?
A
maior parte das redes estaduais no ensino médio encaixa-se no nível 2 da escala
do Saeb (ela vai do 1 ao 10; quanto mais alto, melhor):
Língua
Portuguesa: dificuldade em reconhecer o tema de um texto
Nível das redes estaduais no Saeb - português — Foto: Arte/g1
Nível
2: Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Rondônia,
Paraíba, Sergipe, Alagoas, Amazonas, Amapá, Tocantins, Ceará, Rio Grande do
Norte, Pará, Maranhão, Roraima, Rio de Janeiro e Bahia.
Os
alunos provavelmente não conseguem:
- Localizar informações
explícitas em gêneros mais complexos, como artigos de opinião.
- Identificar a finalidade de
documentos técnicos, como relatórios científicos.
- Reconhecer o tema central
de textos literários como a crônica.
- Identificar opiniões
divergentes sobre o mesmo tema ao comparar diferentes textos.
Os
demais estão no nível 3: Paraná (293,30), Rio Grande do Sul (291,94), Goiás
(286,95), Espírito Santo (283,47), Santa Catarina (281,67), Minas Gerais
(279,99), Piauí (279,43), Pernambuco (279,29) e São Paulo (276,24).
Eles
são capazes de reconhecer o tema de uma crônica e de identificar opiniões
divergentes em um texto, mas não sabem:
- localizar informações em
infográficos que misturam linguagem verbal e visual de forma técnica;
- identificar argumentos
específicos dentro de contos;
- diferenciar o que é fato do
que é opinião em contos, artigos e reportagens;
- diferenciar a tese (ideia
principal defendida) dos argumentos em entrevistas ou crônicas;
- reconhecer ironia e humor
em gêneros como crônicas e entrevistas.
Matemática:
dificuldade em resolver
Distribuição
de estados nos níveis do Saeb - matemática — Foto: Arte/g1
Nível
2: Minas Gerais, Santa Catarina, Ceará, Roraima, São Paulo, Mato
Grosso do Sul, Acre, Pará, Rondônia, Tocantins, Paraíba, Mato Grosso, Sergipe,
Alagoas, Distrito Federal, Amazonas, Rio Grande do Norte, Amapá, Bahia,
Maranhão e Rio de Janeiro.
Alunos
reconhecem coordenadas no 1º quadrante e resolvem funções básicas, mas não
sabem:
- analisar funções
quadráticas (2º grau) para reconhecer o valor máximo ou o intervalo de
valor máximo em um gráfico;
- resolver problemas de
proporcionalidade direta para encontrar um quarto valor a partir de três
dados em situações do cotidiano;
- calcular valores
reajustados (aumentos ou descontos) a partir de um valor inicial e um
percentual de reajuste.
Nível
3: Paraná, Goiás, Piauí, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e
Pernambuco.
Cumprem
as tarefas acima, mas, em geral, não aprenderam a:
- determinar áreas de regiões
complexas compostas por múltiplos retângulos;
- resolver sistemas de duas
equações lineares;
- calcular a probabilidade de
ocorrência de eventos simples;
- resolver problemas de
contagem utilizando o princípio multiplicativo.
Nota
da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro
A
Secretaria de Estado de Educação destaca que a rede estadual do Rio de Janeiro
registrou crescimento no Ideb em relação à edição anterior e segue trabalhando
para melhorar os resultados educacionais. De acordo com os dados divulgados
pelo Ministério da Educação (MEC), a rede estadual alcançou índice de 3,7 no
Ensino Médio, acima dos 3,3 registrados na edição anterior, e de 4,3 nos Anos
Finais do Ensino Fundamental, acima dos 3,8 registrados anteriormente.
O
avanço registrado no Ideb reflete medidas adotadas pela rede estadual, como a
ampliação da carga horária dos professores, o acompanhamento pedagógico
contínuo das escolas, a busca ativa de alunos com baixa frequência e
iniciativas de enfrentamento à evasão escolar. A Progressão Parcial integra
essas estratégias, com foco na recomposição das aprendizagens e na permanência
dos estudantes na escola.
O
Estado reforçou o compromisso de ampliar os investimentos em educação, como
área estratégica no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos
Estados (Propag).
Nota
da Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Norte
A
Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer (SEEC) informa que o
resultado do IDEB 2025 é reflexo de um conjunto de políticas públicas voltadas
à permanência dos estudantes na escola, à melhoria da aprendizagem e ao
fortalecimento da qualidade da educação na rede estadual.
O
Regime de Aprovação em Progressão Parcial (RAPP) não representa aprovação
automática. Os estudantes continuam sendo avaliados ao longo do processo de
ensino e aprendizagem e, quando não atingem o desempenho esperado em
determinados componentes curriculares, permanecem em regime de progressão
parcial, com acompanhamento pedagógico e estratégias específicas para a
recuperação das aprendizagens.A Secretaria de Estado de Educação destaca que a
rede estadual do Rio de Janeiro registrou crescimento no Ideb em relação à
edição anterior e segue trabalhando para melhorar os resultados educacionais.
De acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), a rede
estadual alcançou índice de 3,7 no Ensino Médio, acima dos 3,3 registrados na
edição anterior, e de 4,3 nos Anos Finais do Ensino Fundamental, acima dos 3,8
registrados anteriormente.
O
avanço registrado no Ideb reflete medidas adotadas pela rede estadual, como a
ampliação da carga horária dos professores, o acompanhamento pedagógico
contínuo das escolas, a busca ativa de alunos com baixa frequência e
iniciativas de enfrentamento à evasão escolar. A Progressão Parcial integra
essas estratégias, com foco na recomposição das aprendizagens e na permanência
dos estudantes na escola.
O
Estado reforçou o compromisso de ampliar os investimentos em educação, como
área estratégica no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos
Estados (Propag).
Paralelamente,
a rede estadual vem ampliando ações de recomposição das aprendizagens,
investindo na formação continuada de professores, expandindo em mais de 200% a
oferta da educação em tempo integral e em mais de 250% a educação profissional,
além de realizar investimentos em infraestrutura, conectividade e tecnologia
educacional.
A SEEC entende que a melhoria da aprendizagem é um processo contínuo e de médio prazo. Os avanços observados no IDEB 2025 dão continuidade aos resultados já evidenciados na edição de 2023 e reforçam o compromisso da rede estadual com o aperfeiçoamento das políticas educacionais, a elevação do desempenho dos estudantes e a garantia do direito à educação pública de qualidade.





