REVISTA PLACAR 1970 - EU COMPREI MEIO TIME DO SANTOS


O repórter de Placar Georges Bourdokan conseguiu comprar Carlos Alberto, Joel, Rildo, Lima e Coutinho por 600 000 dólares, e ainda recebeu prioridade para a compra de Djalma Dias e Picolé. Para isso, bastou Georges se apresentar como emissário de um clube marroquino e conversar dois dias com o General Osman Ribeiro, vice-presidente do Santos.

EU COMPREI MEIO [TIME DO SANTOS]

Santos, quarta-feira, 1.º de abril, 8h30 da manhã. É a última acelerada que dou no carro, estacionado em frente aos portões do estádio do Santos, na Rua Princesa Isabel, Vila Belmiro. Desligo o motor. Estou muito preocupado, ao contrário do meu acompanhante, um jovem libanês de passagem pelo Brasil — agora êle já deve estar na Europa. Êle sorria para tudo e para todos. Na verdade, meu acompanhante não sabia o que eu queria, a não ser superficialmente. Minha intenção era comprar a defesa do Santos. Comprar Carlos Alberto, Joel e Rildo.

Eu sabia que as coisas não seriam fáceis. Por dois motivos: os dirigentes do Santos sempre desmentiram que pretendessem vender algum jogador, principalmente jogador de seleção. E finalmente pelos comentários que ouvi ao atravessar o portão do estádio: a entrevista que Pelé tinha me dado na semana passada (êle disse que queria sair do Santos) tinha sido desmentida pelo próprio Pelé. E todos achavam que não passava de sensacionalismo criado pelo Ramondini. Mas, desmentindo a entrevista, Pelé passou a ser o mentiroso. A entrevista é verdadeira, êle me deu na sexta-feira, um dia depois do jogo contra o Chile. Conversei com êle na agência de publicidade Proeme, onde Pelé ficou quase duas horas posando para um anúncio da Monark.

O libanês, sempre a meu lado, continuava sorrindo para todos. Quando entramos no campo, êle passou a ser Abdul Amir Hassan Karam, um marroquino diretor do Marraquesh Football Club.

O time estava treinando e o técnico Antoninho, só de calção, berrava instruções para alguns jogadores. Depois de alguns comentários sôbre a atual situação do Santos, Antoninho perguntou quem era meu companheiro.

— É um marroquino. — É olheiro? — É sim. Êle já estêve no Rio assistindo aos jogos da Seleção. Está muito interessado em comprar algum jogador famoso. É a única forma que os dirigentes de lá encontraram para levar mais público aos estádios.

O rapaz não sabia falar português e eu expliquei isso a Antoninho, ao mesmo tempo que me prontificava a servir de tradutor. Antoninho queria saber qual jogador interessava ao rapaz. Fiz-lhe a pergunta e, como êle não entendia nada de futebol, eu respondi por êle:

— Êle está interessado em Coutinho, que é muito famoso no Marrocos.

Antoninho deu um "Ah" de satisfação e eu completei, depressa:

— Mas êle também está interessado em outros.

— Ótimo, ótimo — respondeu Antoninho. Mas não vamos conversar aqui. Espere um pouco. Vou vestir a camisa para a gente ir falar com o General Osman.

Subimos ràpidamente as escadarias (eu nunca imaginei que Antoninho, com tôda aquela barriga, pudesse ser tão rápido em subir escadas). Na sala do General Osman, vice-presidente do Santos — homem alto e magro, de óculos —, havia muitos jornalistas. Todos queriam saber o que o general achava da entrevista de Pelé a Placar. O general mandou que nós entrássemos e encarregou Antoninho de desmentir tudo.

A sala do General Osman fica no segundo andar (o prédio tem cinco); é pequena, com uma mesa, um armário e um diploma uruguaio pela conquista do bicampeonato mundial interclubes pendurado na parede.

Êle recebeu-nos com muita alegria, apesar de até aquêle momento só saber que o "marroquino" estava interessado em contratar alguns jogadores, inclusive Coutinho.

Depois de cumprimentar o "diretor do Marraquesh" virou-se para mim e disse:

— Disseram que o senhor é jornalista e trabalha para um jornal de São Paulo.

— Eu não sei quem lhe disse isso, mas achei a idéia muito boa. Aceitei-a. Êle continuou: — Pergunte ao cavalheiro que jogadores lhe interessam.

Perguntei. Êle naturalmente não sabia, mas o general, em compensação, também não sabia árabe. Eu respondi.

— Coutinho, Joel e Carlos Alberto.

O general ficou um instante sem responder. Passou a mão na testa, depois nos óculos, depois na mesa, e falou:

— Não tem problema. Há mais algum?

— Há sim. Êle quer mais um jogador de defesa e outro de ataque. O senhor teria mais alguém?

O general repetiu os mesmos gestos anteriores.

— Tenho. Dorval está aqui. Êle é um bom atacante e jogador famoso. Na defesa temos outro de seleção: Rildo.

Antoninho, já vestido, entrou na sala e deu um palpite:

— Que tal um jogador de meio-campo?

— Quem?

— Lima.

O general anotou todos os nomes. Antoninho saiu. O general continuou:

— Temos aqui seis nomes. Puxa, vocês estão comprando quase todo o time do Santos.

— General, gostaria agora que o senhor estipulasse o preço de cada jogador.

— Pergunte ao cavalheiro quanto êle pode pagar.

Depois de perguntar ao "marroquino" se êle estava cansado, eu respondi:

— Êle quer saber quanto o senhor pretende cobrar.

— Bem, Carlos Alberto, Joel e Rildo são jogadores de seleção. Por isso são mais caros.

E começou a rabiscar o nome de cada jogador, com o respectivo preço: Joel, NCr$ 720 000; Carlos Alberto, 720 000; Rildo, 600 000; Lima, 480 000; Coutinho, 480 000; e Dorval, 400 000.

Quando o general me deu o papel, expliquei que o rapaz queria o preço em dólar e também a idade de cada jogador. Depois disso faria a contraproposta.

O cálculo foi feito com o dólar a NCr$ 4,00 (seu valor real é de 4,49). Assim, o preço de cada um ficou sendo êste: Joel, 25 anos, US$ 180 000; Carlos Alberto, 25 anos, 180 000; Rildo, 27 anos, 150 000; Lima, 27 anos, 120 000; Coutinho, 26 anos, 120 000; e Dorval, 31 anos, 100 000. Quando peguei a lista para apresentá-la ao "marroquino", o general me puxou pelo braço e falou baixinho:

— A sua comissão está garantida. Pode ficar tranqüilo.

O "marroquino" olhou a lista, perguntou-me o que era aquilo e, quando soube que era o dinheiro que teria de pagar pelos seis jogadores, bateu com as mãos na mesa e iniciou uma risada. Tirei depressa a lista de suas mãos e disse ao general que o gesto do rapaz significava que êle queria pagar a vista e por isso pedia um desconto.

O general abriu e fechou os olhos umas cinco vêzes, pensativo. Concordou em fazer o desconto. Combinamos então que o rapaz telefonaria à noite para o Marrocos e no dia seguinte, quinta-feira, dia 2, daria uma resposta definitiva.

Na despedida, o general tornou a agarrar no meu braço:

— Sigilo, meu caro. O máximo de sigilo possível.

Já estava para entrar no elevador, quando o general nos chamou:

— Esqueci de dizer: Antoninho vai preparar Dorval e Coutinho para treinarem amanhã. Acredito que o nosso amigo do Marrocos vai gostar de vê-los em campo. E você não se esqueça: sua comissão está garantida.

Não deu nem para dormir direito. Dois problemas muito sérios evitavam que eu pegasse no sono. Primeiro foi a viagem repentina do libanês para a Europa (êle viajou na noite do mesmo dia); e, segundo, o telefonema que dei às 7 horas da noite para a casa do general (o número do telefone êle mesmo me deu) dizendo que Dorval não interessava porque tinha mais de 31 anos.

O general não sabia meu nome e muito menos o nome do rapaz que me acompanhou. Comecei a imaginar coisas: e se êle telefonar para a Embaixada do Marrocos perguntando pelo Marraquesh Football Club? Até hoje não sei se existe algum time com êste nome. Mas o pior mesmo seria se de repente alguém resolvesse pedir os meus documentos.

Quase aconteceu isto. Quando telefonei para a casa do general (foi êle mesmo que me deu seu telefone particular), expliquei que o rapaz partiria no dia seguinte para o Marrocos, porque fôra informado de que sua família estava no avião que tinha caído naquele dia, com 82 pessoas, perto do Aeroporto de Novasseur. E que o rapaz tinha me pedido para pegar um documento do Santos provando que êle estivera tratando da compra de jogadores. No documento teriam de constar ainda o histórico de cada jogador, o valor em dólares do seu passe e o preço total.

Ainda na conversa pelo telefone ficou certo que, sem Dorival, o suposto Marraquesh Football Club compraria todos os jogadores por 600 000 dólares.

Mas o pior aconteceu no dia seguinte, pouco depois das 8 horas da manhã, quando cheguei ao estádio do Santos: o administrador Teixeira, de mais ou menos cinqüenta anos, magro, cabelo grisalho, o tipo do homem cansado, me pediu um documento. Foi o administrador Teixeira quem bateu tôdas as cartas.

Tinha encontrado Teixeira no elevador. Êle perguntou pelo "marroquino", eu repeti tudo o que tinha dito ao general. Teixeira lamentou a má sorte da família e soltou a pergunta: — O senhor trouxe algum documento de identidade? Preciso de um. — Trouxe, mas estão no carro.

Estavam mesmo. Eu já imaginava que isto iria acontecer e fiquei prevenido. Mas não imaginava que seria logo na entrada. Já tinha planejado: subo para pegar as cartas do Santos e se o general pedir um documento eu desço para pegá-los e não volto mais. Afinal, eu já tinha o nome, a idade e o preço dos jogadores, uma prova de que o Santos está em péssima situação financeira e para melhorar estava disposto a vender seus principais jogadores.

Mas eu resolvi continuar e disse para o Teixeira que meus documentos estavam comigo mesmo e que poderíamos subir.

Subimos. Na sala da administração (fica ao lado da sala do General Osman) há quatro mesas, tôdas com máquinas de escrever. A comunicação com a sala do general é feita por uma porta, ao lado da mesa do Teixeira.

Em cima da mesa havia uma carta do general com uma série de recomendações. A primeira: "Peça ao rapaz para mostrar documentos. Afinal, nós não o conhecemos". Para evitar que o Teixeira me pedisse o documento de nôvo, comecei a falar sem parar. Só bobagens, frases sôltas. E só parei quando êle sentou para escrever as cartas. Disse-lhe qual era o meu nome (fictício, naturalmente) e até mencionei o número de minha carteira de identidade (também fictício). Teixeira anotou tudo e, meia hora depois, as cartas estavam prontas. Faltava apenas o general assinar. Mas o general não estava. Fomos até sua casa, êle tinha saído. Voltamos à Vila Belmiro e, ao mesmo tempo que chegávamos, o general estacionava o seu Opala azul-turquesa. Eu continuava bastante preocupado.

Mas o general não teve tempo de me pedir documento ou qualquer coisa porque até êle assinar as cartas só eu falei. Com tudo já dentro do envelope, fiquei mais sossegado e começamos a conversar. Aí o general pôde falar, e suas primeiras palavras foram um apêlo: — Por favor. Mantenha tudo isso no máximo sigilo possível. Você nem faz idéia do ambiente que existe aqui. Está pior do que uma casa de marimbondos. Eu tenho muitos inimigos e se êles ficam sabendo dêste nosso negócio eu estou perdido.

Tranquilizei o general, mas êle insistiu no apêlo: — Não deixe ninguém saber. Se o pessoal fica sabendo, é o fim.

Êle só ficou mais calmo quando lhe perguntei quanto eu iria ganhar. — Quanto você quer? — O mesmo que o senhor paga a outros intermediários.

Se alguém souber será o fim

— Mas seu caso é especial. Pode pedir. Se fôr muito, eu falo.

— O senhor sabe, os 15 por cento que pediu para o Marraquesh pagar aos jogadores vão ficar para mim. Como já é um bom dinheiro, eu quero só 5 por cento do senhor.

O general multiplicou 600 000 por 5 e concluiu que eu queria 30 000 dólares. Achou muito.

— Não é que a gente não queira pagar. Nós ainda vamos fazer grandes negócios e portanto não nos interessa que o senhor saía insatisfeito. Mas como vai receber 80 000 dólares. do Marraquesh, podia "quebrar o galho" da gente, reduzindo um pouco êsses 30 000 dólares.

— E quanto o senhor oferece?

— Que tal 25 000 dólares?

— Vinte e sete mil.

— Negócio feito.

O general disse que o melhor seria o pagamento ser feito com 200 000 dólares em dinheiro e 400 000 em cheque visado.

— Em nome de quem deve vir o cheque?

— O general pensou um pouco.

— Pode vir no meu.

Voltei a falar sôbre a minha comissão. Aí foi a vez de o general me tranqüilizar.

— Para que você não tenha problemas, a gente faz o seguinte: o Marraquesh faz um recibo de 175 000 dólares dos 200 000 que vou receber. Os seus 25 000 vêm por fora. E não deixe ninguém saber disso. Você já pensou se êsse documento cai nas mãos de um jornal? Nem é bom pensar nisso.

Já no elevador e cansado de ouvir seus apelos e recomendações, perguntei se poderia fazer outros "negócios" com países da África, e se o general me daria alguma prioridade sôbre um bom jogador de defesa e outro de ataque.

— Djalma Dias e Picolé estão às suas ordens.

Entro no elevador. Antes de as portas se fecharem, o General Osman Ribeiro me faz uma última pergunta:

— Quando terei notícias suas?

— Têrça-feira, general, têrça-feira.

bola no chão

A morte é uma velha amiga do Santos. Um fantasma que êle carrega na alma por todos os campos, em meio aos gols monumentais, aos títulos e às alegrias que dá a todos.

Em 15 anos tentaram muitas vêzes arrancar as suas camisas brancas para colocar as pretas do luto e da morte. Quem sempre matou o Santos foi porque odiava a beleza. E o belo, o quase perfeito, desde há muito agride mais do que uma punhalada.

A revolução que o Santos causou no futebol e no país nunca pode ser perdoada por essa gente: êle fêz o futebol ser mais profissional, pagou bem aos jogadores, criou ídolos, transformou-se em mito.

Por tudo isso, agora, está sendo morto mais uma vez. Só que seus assassinos estão dentro dêle. São gente como o vice-presidente Osman, que morre mas não entende que vice-presidência do Santos é muito mais que um simples cargo de diretor de futebol. Se desde 1955 o Santos disparou na frente, revolucionando tudo, inclusive a mentalidade dos dirigentes, hoje êle está atrasado trinta anos. Se os artistas do Santos foram sempre melhores e os mais bem pagos, hoje Osman quer desfazer-se dêsses artistas porque não entende que um simples crioulo, semi-analfabeto, ganhe mais do que êle.

Senhor Osman, olhe aqui: com franqueza, de homem pra homem, o negócio é que êsses crioulos sabem tudo com uma bola nos pés. Pra mim, em 90 minutos, êles já deram mais alegrias do que tudo o que o senhor possa fazer em tôda uma vida. Não toque nesses crioulos, saia de campo, pois o senhor atrapalha mais do que ajuda.

Entre a vaidade de ser o dirigente do Santos e a modesta posição de torcedor, o senhor deve ficar com a segunda: não será um bom título o de assassino do Santos. Não faça como os outros que até cassino compraram para ajudar a enterrar o Santos.

Êles não entenderam uma coisa simples: o Santos foi, é e sempre será onze camisas brancas, correndo sôltas, adoidadas, pelos estádios do mundo.

Hamilton Almeida 




































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