EU
COMPREI MEIO [TIME DO SANTOS]
Santos,
quarta-feira, 1.º de abril, 8h30 da manhã. É a última acelerada que dou no
carro, estacionado em frente aos portões do estádio do Santos, na Rua Princesa
Isabel, Vila Belmiro. Desligo o motor. Estou muito preocupado, ao contrário do
meu acompanhante, um jovem libanês de passagem pelo Brasil — agora êle já deve
estar na Europa. Êle sorria para tudo e para todos. Na verdade, meu
acompanhante não sabia o que eu queria, a não ser superficialmente. Minha
intenção era comprar a defesa do Santos. Comprar Carlos Alberto, Joel e Rildo.
Eu
sabia que as coisas não seriam fáceis. Por dois motivos: os dirigentes do
Santos sempre desmentiram que pretendessem vender algum jogador, principalmente
jogador de seleção. E finalmente pelos comentários que ouvi ao atravessar o
portão do estádio: a entrevista que Pelé tinha me dado na semana passada (êle
disse que queria sair do Santos) tinha sido desmentida pelo próprio Pelé. E
todos achavam que não passava de sensacionalismo criado pelo Ramondini. Mas,
desmentindo a entrevista, Pelé passou a ser o mentiroso. A entrevista é
verdadeira, êle me deu na sexta-feira, um dia depois do jogo contra o Chile.
Conversei com êle na agência de publicidade Proeme, onde Pelé ficou quase duas
horas posando para um anúncio da Monark.
O
libanês, sempre a meu lado, continuava sorrindo para todos. Quando entramos no
campo, êle passou a ser Abdul Amir Hassan Karam, um marroquino diretor do
Marraquesh Football Club.
O
time estava treinando e o técnico Antoninho, só de calção, berrava instruções
para alguns jogadores. Depois de alguns comentários sôbre a atual situação do
Santos, Antoninho perguntou quem era meu companheiro.
— É
um marroquino. — É olheiro? — É sim. Êle já estêve no Rio assistindo aos jogos
da Seleção. Está muito interessado em comprar algum jogador famoso. É a única
forma que os dirigentes de lá encontraram para levar mais público aos estádios.
O
rapaz não sabia falar português e eu expliquei isso a Antoninho, ao mesmo tempo
que me prontificava a servir de tradutor. Antoninho queria saber qual jogador
interessava ao rapaz. Fiz-lhe a pergunta e, como êle não entendia nada de
futebol, eu respondi por êle:
—
Êle está interessado em Coutinho, que é muito famoso no Marrocos.
Antoninho
deu um "Ah" de satisfação e eu completei, depressa:
—
Mas êle também está interessado em outros.
—
Ótimo, ótimo — respondeu Antoninho. Mas não vamos conversar aqui. Espere um
pouco. Vou vestir a camisa para a gente ir falar com o General Osman.
Subimos
ràpidamente as escadarias (eu nunca imaginei que Antoninho, com tôda aquela
barriga, pudesse ser tão rápido em subir escadas). Na sala do General Osman,
vice-presidente do Santos — homem alto e magro, de óculos —, havia muitos
jornalistas. Todos queriam saber o que o general achava da entrevista de Pelé a
Placar. O general mandou que nós entrássemos e encarregou Antoninho de
desmentir tudo.
A
sala do General Osman fica no segundo andar (o prédio tem cinco); é pequena,
com uma mesa, um armário e um diploma uruguaio pela conquista do bicampeonato
mundial interclubes pendurado na parede.
Êle
recebeu-nos com muita alegria, apesar de até aquêle momento só saber que o
"marroquino" estava interessado em contratar alguns jogadores,
inclusive Coutinho.
Depois
de cumprimentar o "diretor do Marraquesh" virou-se para mim e disse:
—
Disseram que o senhor é jornalista e trabalha para um jornal de São Paulo.
— Eu
não sei quem lhe disse isso, mas achei a idéia muito boa. Aceitei-a. Êle
continuou: — Pergunte ao cavalheiro que jogadores lhe interessam.
Perguntei.
Êle naturalmente não sabia, mas o general, em compensação, também não sabia
árabe. Eu respondi.
—
Coutinho, Joel e Carlos Alberto.
O
general ficou um instante sem responder. Passou a mão na testa, depois nos
óculos, depois na mesa, e falou:
—
Não tem problema. Há mais algum?
— Há
sim. Êle quer mais um jogador de defesa e outro de ataque. O senhor teria mais
alguém?
O
general repetiu os mesmos gestos anteriores.
—
Tenho. Dorval está aqui. Êle é um bom atacante e jogador famoso. Na defesa
temos outro de seleção: Rildo.
Antoninho,
já vestido, entrou na sala e deu um palpite:
—
Que tal um jogador de meio-campo?
—
Quem?
—
Lima.
O
general anotou todos os nomes. Antoninho saiu. O general continuou:
—
Temos aqui seis nomes. Puxa, vocês estão comprando quase todo o time do Santos.
—
General, gostaria agora que o senhor estipulasse o preço de cada jogador.
—
Pergunte ao cavalheiro quanto êle pode pagar.
Depois
de perguntar ao "marroquino" se êle estava cansado, eu respondi:
—
Êle quer saber quanto o senhor pretende cobrar.
—
Bem, Carlos Alberto, Joel e Rildo são jogadores de seleção. Por isso são mais
caros.
E
começou a rabiscar o nome de cada jogador, com o respectivo preço: Joel, NCr$
720 000; Carlos Alberto, 720 000; Rildo, 600 000; Lima, 480 000; Coutinho, 480
000; e Dorval, 400 000.
Quando
o general me deu o papel, expliquei que o rapaz queria o preço em dólar e
também a idade de cada jogador. Depois disso faria a contraproposta.
O
cálculo foi feito com o dólar a NCr$ 4,00 (seu valor real é de 4,49). Assim, o
preço de cada um ficou sendo êste: Joel, 25 anos, US$ 180 000; Carlos Alberto,
25 anos, 180 000; Rildo, 27 anos, 150 000; Lima, 27 anos, 120 000; Coutinho, 26
anos, 120 000; e Dorval, 31 anos, 100 000. Quando peguei a lista para
apresentá-la ao "marroquino", o general me puxou pelo braço e falou
baixinho:
— A
sua comissão está garantida. Pode ficar tranqüilo.
O
"marroquino" olhou a lista, perguntou-me o que era aquilo e, quando
soube que era o dinheiro que teria de pagar pelos seis jogadores, bateu com as
mãos na mesa e iniciou uma risada. Tirei depressa a lista de suas mãos e disse
ao general que o gesto do rapaz significava que êle queria pagar a vista e por
isso pedia um desconto.
O
general abriu e fechou os olhos umas cinco vêzes, pensativo. Concordou em fazer
o desconto. Combinamos então que o rapaz telefonaria à noite para o Marrocos e
no dia seguinte, quinta-feira, dia 2, daria uma resposta definitiva.
Na
despedida, o general tornou a agarrar no meu braço:
—
Sigilo, meu caro. O máximo de sigilo possível.
Já
estava para entrar no elevador, quando o general nos chamou:
—
Esqueci de dizer: Antoninho vai preparar Dorval e Coutinho para treinarem
amanhã. Acredito que o nosso amigo do Marrocos vai gostar de vê-los em campo. E
você não se esqueça: sua comissão está garantida.
Não
deu nem para dormir direito. Dois problemas muito sérios evitavam que eu
pegasse no sono. Primeiro foi a viagem repentina do libanês para a Europa (êle
viajou na noite do mesmo dia); e, segundo, o telefonema que dei às 7 horas da
noite para a casa do general (o número do telefone êle mesmo me deu) dizendo
que Dorval não interessava porque tinha mais de 31 anos.
O
general não sabia meu nome e muito menos o nome do rapaz que me acompanhou.
Comecei a imaginar coisas: e se êle telefonar para a Embaixada do Marrocos
perguntando pelo Marraquesh Football Club? Até hoje não sei se existe algum
time com êste nome. Mas o pior mesmo seria se de repente alguém resolvesse
pedir os meus documentos.
Quase
aconteceu isto. Quando telefonei para a casa do general (foi êle mesmo que me
deu seu telefone particular), expliquei que o rapaz partiria no dia seguinte
para o Marrocos, porque fôra informado de que sua família estava no avião que
tinha caído naquele dia, com 82 pessoas, perto do Aeroporto de Novasseur. E que
o rapaz tinha me pedido para pegar um documento do Santos provando que êle
estivera tratando da compra de jogadores. No documento teriam de constar ainda
o histórico de cada jogador, o valor em dólares do seu passe e o preço total.
Ainda
na conversa pelo telefone ficou certo que, sem Dorival, o suposto Marraquesh
Football Club compraria todos os jogadores por 600 000 dólares.
Mas
o pior aconteceu no dia seguinte, pouco depois das 8 horas da manhã, quando
cheguei ao estádio do Santos: o administrador Teixeira, de mais ou menos
cinqüenta anos, magro, cabelo grisalho, o tipo do homem cansado, me pediu um
documento. Foi o administrador Teixeira quem bateu tôdas as cartas.
Tinha
encontrado Teixeira no elevador. Êle perguntou pelo "marroquino", eu
repeti tudo o que tinha dito ao general. Teixeira lamentou a má sorte da
família e soltou a pergunta: — O senhor trouxe algum documento de identidade?
Preciso de um. — Trouxe, mas estão no carro.
Estavam
mesmo. Eu já imaginava que isto iria acontecer e fiquei prevenido. Mas não
imaginava que seria logo na entrada. Já tinha planejado: subo para pegar as
cartas do Santos e se o general pedir um documento eu desço para pegá-los e não
volto mais. Afinal, eu já tinha o nome, a idade e o preço dos jogadores, uma
prova de que o Santos está em péssima situação financeira e para melhorar
estava disposto a vender seus principais jogadores.
Mas
eu resolvi continuar e disse para o Teixeira que meus documentos estavam comigo
mesmo e que poderíamos subir.
Subimos.
Na sala da administração (fica ao lado da sala do General Osman) há quatro
mesas, tôdas com máquinas de escrever. A comunicação com a sala do general é
feita por uma porta, ao lado da mesa do Teixeira.
Em
cima da mesa havia uma carta do general com uma série de recomendações. A
primeira: "Peça ao rapaz para mostrar documentos. Afinal, nós não o
conhecemos". Para evitar que o Teixeira me pedisse o documento de nôvo,
comecei a falar sem parar. Só bobagens, frases sôltas. E só parei quando êle
sentou para escrever as cartas. Disse-lhe qual era o meu nome (fictício,
naturalmente) e até mencionei o número de minha carteira de identidade (também
fictício). Teixeira anotou tudo e, meia hora depois, as cartas estavam prontas.
Faltava apenas o general assinar. Mas o general não estava. Fomos até sua casa,
êle tinha saído. Voltamos à Vila Belmiro e, ao mesmo tempo que chegávamos, o
general estacionava o seu Opala azul-turquesa. Eu continuava bastante
preocupado.
Mas
o general não teve tempo de me pedir documento ou qualquer coisa porque até êle
assinar as cartas só eu falei. Com tudo já dentro do envelope, fiquei mais
sossegado e começamos a conversar. Aí o general pôde falar, e suas primeiras
palavras foram um apêlo: — Por favor. Mantenha tudo isso no máximo sigilo
possível. Você nem faz idéia do ambiente que existe aqui. Está pior do que uma
casa de marimbondos. Eu tenho muitos inimigos e se êles ficam sabendo dêste
nosso negócio eu estou perdido.
Tranquilizei
o general, mas êle insistiu no apêlo: — Não deixe ninguém saber. Se o pessoal
fica sabendo, é o fim.
Êle
só ficou mais calmo quando lhe perguntei quanto eu iria ganhar. — Quanto você
quer? — O mesmo que o senhor paga a outros intermediários.
Se
alguém souber será o fim
—
Mas seu caso é especial. Pode pedir. Se fôr muito, eu falo.
— O
senhor sabe, os 15 por cento que pediu para o Marraquesh pagar aos jogadores
vão ficar para mim. Como já é um bom dinheiro, eu quero só 5 por cento do
senhor.
O
general multiplicou 600 000 por 5 e concluiu que eu queria 30 000 dólares.
Achou muito.
—
Não é que a gente não queira pagar. Nós ainda vamos fazer grandes negócios e
portanto não nos interessa que o senhor saía insatisfeito. Mas como vai receber
80 000 dólares. do Marraquesh, podia "quebrar o galho" da gente,
reduzindo um pouco êsses 30 000 dólares.
— E
quanto o senhor oferece?
—
Que tal 25 000 dólares?
—
Vinte e sete mil.
—
Negócio feito.
O
general disse que o melhor seria o pagamento ser feito com 200 000 dólares em
dinheiro e 400 000 em cheque visado.
— Em
nome de quem deve vir o cheque?
— O
general pensou um pouco.
—
Pode vir no meu.
Voltei
a falar sôbre a minha comissão. Aí foi a vez de o general me tranqüilizar.
—
Para que você não tenha problemas, a gente faz o seguinte: o Marraquesh faz um
recibo de 175 000 dólares dos 200 000 que vou receber. Os seus 25 000 vêm por
fora. E não deixe ninguém saber disso. Você já pensou se êsse documento cai nas
mãos de um jornal? Nem é bom pensar nisso.
Já
no elevador e cansado de ouvir seus apelos e recomendações, perguntei se
poderia fazer outros "negócios" com países da África, e se o general
me daria alguma prioridade sôbre um bom jogador de defesa e outro de ataque.
—
Djalma Dias e Picolé estão às suas ordens.
Entro
no elevador. Antes de as portas se fecharem, o General Osman Ribeiro me faz uma
última pergunta:
—
Quando terei notícias suas?
—
Têrça-feira, general, têrça-feira.
bola
no chão
A
morte é uma velha amiga do Santos. Um fantasma que êle carrega na alma por
todos os campos, em meio aos gols monumentais, aos títulos e às alegrias que dá
a todos.
Em
15 anos tentaram muitas vêzes arrancar as suas camisas brancas para colocar as
pretas do luto e da morte. Quem sempre matou o Santos foi porque odiava a
beleza. E o belo, o quase perfeito, desde há muito agride mais do que uma
punhalada.
A
revolução que o Santos causou no futebol e no país nunca pode ser perdoada por
essa gente: êle fêz o futebol ser mais profissional, pagou bem aos jogadores,
criou ídolos, transformou-se em mito.
Por
tudo isso, agora, está sendo morto mais uma vez. Só que seus assassinos estão
dentro dêle. São gente como o vice-presidente Osman, que morre mas não entende
que vice-presidência do Santos é muito mais que um simples cargo de diretor de
futebol. Se desde 1955 o Santos disparou na frente, revolucionando tudo,
inclusive a mentalidade dos dirigentes, hoje êle está atrasado trinta anos. Se
os artistas do Santos foram sempre melhores e os mais bem pagos, hoje Osman
quer desfazer-se dêsses artistas porque não entende que um simples crioulo,
semi-analfabeto, ganhe mais do que êle.
Senhor
Osman, olhe aqui: com franqueza, de homem pra homem, o negócio é que êsses
crioulos sabem tudo com uma bola nos pés. Pra mim, em 90 minutos, êles já deram
mais alegrias do que tudo o que o senhor possa fazer em tôda uma vida. Não
toque nesses crioulos, saia de campo, pois o senhor atrapalha mais do que
ajuda.
Entre
a vaidade de ser o dirigente do Santos e a modesta posição de torcedor, o
senhor deve ficar com a segunda: não será um bom título o de assassino do
Santos. Não faça como os outros que até cassino compraram para ajudar a
enterrar o Santos.
Êles
não entenderam uma coisa simples: o Santos foi, é e sempre será onze camisas
brancas, correndo sôltas, adoidadas, pelos estádios do mundo.
Hamilton Almeida
