EXCLUSIVO
Pela
primeira vez desde a queda de João Saldanha, Iustrich, técnico do Flamengo,
fala da Seleção. Este depoimento a Placar tem a sua marca: a franqueza.
ZAGALO
NÃO É O HOMEM
Zagalo
ainda não tem a experiência de vida de um técnico. Uma coisa é ser jogador de
futebol — mesmo um grande jogador, como Zagalo foi —, outra coisa é ser técnico
de futebol. A experiência de um e de outro é diferente. Antes de tudo, o
técnico precisa fazer um curso na Escola de Educação Física, para aprender
aquilo que a teoria nos dá para o exercício da profissão. Depois, é preciso
vivência, e a do jogador é diferente da do técnico.
Por
tudo isso, acho que Zagalo se arriscou muito cedo, arriscou até mesmo seu
prestígio, em formação, ao aceitar o encargo de técnico da Seleção. Sei que este
é um assunto desagradável, mas a verdade é que Zagalo se atirou a uma aventura
prematura para a sua carreira de técnico. Um homem com dois ou três anos de
túnel, de técnico, não tem maturidade para dirigir uma seleção nacional, embora
tenha sido um grande craque.
Eu
considero o Zagalo um rapaz muito inteligente, sóbrio, com uma tendência
excepcional para dirigir. Mas seleção é diferente de clube. Vejam o meu caso:
eu talvez possa dirigir um clube e não possa dirigir a Seleção. Se eu fosse
Zagalo, deixaria isso mais para a frente, quando tivesse a experiência que virá
com mais alguns anos de futebol.
O
técnico da Seleção Brasileira deveria ser Flávio Costa. Veterano, hoje
equilibrado, Flávio Costa já passou por provas duríssimas, foi vice-campeão
mundial, tem uma folha de serviços enorme. Ele seria o homem ideal, possui uma
experiência que ninguém tem. Será que ele não tem direito de voltar só porque
não foi campeão em 1950? Flávio Costa reúne todos os requisitos para o cargo,
mas ninguém se lembrou do seu nome. Na verdade, Flávio é um dos grandes
injustificados do futebol brasileiro.
A
Seleção Brasileira ainda não tem sistema de jogo definido. Vi a de João
Saldanha e a de Zagalo, e acho que as modificações feitas pelo novo técnico
beneficiaram a equipe em muito pouco. Uma de suas vantagens foi a entrada de
Dario, que deu agressividade ao time. Mas Dario entrou por uma circunstância
especial, em face da suspensão de Roberto, que era considerado titular.
Dario
é importante para a Seleção, embora não seja um jogador clássico. Suas
características de homem impetuoso, meio estabanado até, são consequência de
uma grande vontade de vencer. Ele foi trabalhado pelo Gradim e posteriormente
por mim. É um jogador que depende da preparação de seus companheiros para
produzir. E só foi convocado porque a Seleção, com seu futebol muito artístico,
muito clássico, clássico demais, precisava de um jogador como ele.
Sou
suspeito para falar de Dario. Vocês não conhecem a vida dele como eu conheci,
no Atlético Mineiro, desde o dia em que o encontrei lá: rapaz modesto, sem
nenhuma possibilidade de jogar, mesmo no Atlético. Dario estava numa relação de
jogadores que iam ser emprestados ao Vila Nova e ao Democrata de Sete Lagoas,
mas os clubes nem se mostraram interessados em seu concurso. Aos poucos, a
contusão de Vaguinho, seguida de sua convocação para o Exército juntamente com
Loła, obrigou-me a buscar em Dario o homem que desempenharia um papel
importante em minha equipe. Ele foi submetido a um treinamento intenso — e até
chorava, discutia, esbravejava. Finalmente, conseguiu fazer aquilo que eu
desejava dele, conseguiu assimilar três ou quatro jogadas, aquelas que ele sabe
fazer, com as quais se transformou no grande goleador do país. Sua convocação
foi justa.
Na
Seleção de Zagalo eu não vejo sistema, e sim a habilidade e a qualidade
excepcional dos jogadores. Eles mesmos resolvem a parada lá dentro do campo —
ou pelo menos procuram resolver, como ocorreu no jogo com a Argentina, quando
Pelé, mesmo cercado por três jogadores, fez o gol da vitória, um gol
excepcional, com aquela qualidade do insuperável Pelé.
A
verdade é que na Seleção os jogadores fazem o mesmo que em seus clubes. Eles se
aglutinam de forma a montar uma equipe, já que todos são craques e todos se
orientam. Mas eu não vejo sistema na Seleção, nem jogadas ensaiadas. Não vejo a
preparação e a criação de jogadas pelo poder de treinamento.
Por
exemplo: a Seleção não tem extremas. Zagalo convocou Arílson, mas acho que
isso foi sobretudo um gesto político. No Flamengo, Arílson era uma das peças de
seu poderio ofensivo, e a equipe do Flamengo vinha numa ascensão tremenda,
disputava partidas internacionais com grande êxito. Por isso Arílson foi
lembrado. Mas para jogar como? Como o Paulo César? Dessa forma Arílson não tem
condições de jogar, e Zagalo nunca lhe daria esta chance. A prova é que lá no
Amazonas ele jogou como meia-esquerda, como apoiador. Ora, tirar um jogador do
Flamengo, um ponta-esquerda de verdade, para botar na meia-esquerda, tenham
paciência! Isso é até um desprestígio para o jogador.
Eu
vi Arílson jogar no Flamengo e o vi na Seleção. No Flamengo, ele é um ponta
rápido, veloz, que leva a bola até à linha de fundo. Na Seleção, vi o Arílson
arrumando um joguinho no meio-campo, fazendo lançamentos.
Por
que isso? Porque o futebol brasileiro está sofrendo uma deformação, a de jogar
sem extremas, ignorando que times sem pontas são times ineficientes. Nós
ganhamos duas Copas do Mundo com Zagalo recuado, mas tínhamos uma compensação:
Garrincha e seu futebol fantástico. De onde vieram nossos gols em 1958 e 1962?
Da direita, em bolas lançadas da linha de fundo. Pergunto: e esses cruzamentos
não podem ser feitos da linha de fundo pela direita e também pela esquerda? Não
podemos armar nosso jogo ofensivo pelos dois lados? Esta é que é, hoje, a
questão crucial do nosso futebol.
Não
falo estas coisas por ambição. Nunca fiz campanha para ser técnico da Seleção,
embora tal função seja o coroamento da carreira de qualquer técnico. Por quê?
Porque eu tenho um estilo próprio, gosto de dirigir com comando único. Neste
ponto, sou um escravo da lei. A lei que regula as condições de trabalho de
“Félix é o ideal para o gol.”
um
técnico diplomado dá-lhe prerrogativas especiais, entre elas a liberdade total.
Por isso só admito trabalhar com liberdade total, como estabelece a lei. É
assim no Flamengo, foi assim quando dirigi o Atlético Mineiro e o Futebol Clube
do Pôrto, de Portugal. Essa lei é ignorada, pouca gente a conhece. Mas o
Conselho Nacional de Desportos a conhece, o Sr. João Havelange também.
Ainda
há pouco, em resposta a uma revista, o Sr. João Havelange disse que Zagalo não
é o técnico da Seleção, e sim o Admildo Chirol. O que me admira é que um homem
da envergadura desse moço — que eu não conheço mas de quem fazem as melhores
referências — sirva para dar nome a uma função que ele, na realidade, não
exerce.
Após
este parêntese, volto à Seleção. No momento, considero que ela tem três ou
quatro jogadores insubstituíveis. O Félix, por exemplo, é o goleiro ideal. Tem
boa estatura, é um homem já maduro, com trinta anos. Só depois dos 24 anos o
goleiro tem tranquilidade, reações mais controladas e coordenadas, reflexos
mais rápidos. Para jogar numa seleção nacional, o goleiro deve ter uma
qualidade imprescindível: a maturidade.
“Pelé?
Ele é insubstituível.”
Mas
a Seleção ainda não definiu quem é o goleiro, e esta divisão de
responsabilidade é prejudicial. Tem-se ou não se tem o goleiro. Se se vai
dividir a posição, o jogador jamais terá preparo psicológico básico para
desempenhar sua função. Sabendo que é o titular, ele não ficará abalado numa
jogada má, num gol que possa levar, porque isto é uma consequência da posição
de goleiro.
Outro
jogador insubstituível é Pelé. Ele continua a ser o mago do futebol brasileiro.
Por sua habilidade, pelo seu poder de contagiar os companheiros de confiança,
pelo impacto psicológico que causa no time adversário, é um jogador
imprescindível. Dario, como o próprio Roberto, é de grande utilidade, mas entre
os dois prefiro Dario. Além desses três jogadores, há outro que não pode ficar
de fora do time: Clodoaldo. Esse rapaz é por demais necessário à Seleção, por
sua mobilidade, por seu fôlego de gato. Os demais jogadores poderão entrar e
sair de acordo com as necessidades do jogo. Estes quatro, porém, eu considero
como insubstituíveis.
Muito
se tem falado sobre a questão do líbero, e acho que está havendo muito equívoco
em torno disso. Toda defesa que marca em cima, corretamente, tem sempre um
homem livre, o homem da cobertura. Exemplo: se a jogada vem pelo lado esquerdo,
o homem livre é o lateral contrário, que faz a cobertura dos companheiros. Não
compreendo por que temos de perder um homem de ataque da Seleção para ficar
cercando um ou outro adversário que possa entrar na nossa área através de um
lançamento ou depois de ter driblado o primeiro dos encarregados do combate.
“É
assim que fazem na Europa”, dizem uns.
Ora,
o líbero é usado na Europa porque lá os títulos são decididos por gol average,
e às vezes isto é muito importante: a derrota pela diferença de um ou dois gols
pode ser decisiva para a luta pelo título. Quando eu era técnico do Pôrto, fui
campeão português com dois gols de vantagem sobre o Benfica.
“Isto
é o futebol moderno”, repetem outros.
Nada
disso. No futebol não há nada de moderno. Há vinte anos as equipes que eu
dirigia já jogavam atacando com todos e defendendo com todos. Foi assim com o
Atlético Mineiro, é assim com o Flamengo. O que se tem de conseguir — e isto é
mesmo difícil — é fazer o time ocupar o máximo de espaço e, em consequência,
dar o mínimo ao adversário. Perseguir a bola onde ela estiver. A equipe do
Flamengo joga assim, ou tenta jogar assim o tempo todo. Na verdade, é preciso
pulmão para fazer isso durante 90 minutos.
Mas
a Seleção não faz isso. Ela é a imagem do futebol brasileiro, e sobretudo do
futebol carioca. Joga em câmara lenta, à base do toque de bola. Qualquer
adversário que pega a bola pode dar quatro, seis ou dez toques, sem ninguém
incomodá-lo. Isso é que não é possível: quando o adversário está com a bola,
deve ser combatido por pelo menos dois jogadores nossos.
Acho
que em lugar de ficarmos com essa história de líbero deveríamos resolver o
problema do nosso meio-campo, que este sim é vital. Dentro do esquema que dizem
ser o adotado pela Seleção (eu não vi esquema algum), o homem que deveria jogar
mais plantado, Clodoaldo, é o que anda mais. Os outros não andam, ficam
parados, lançando, fazendo lançamentos longos que nem sempre produzem
resultados. Quantos gols fez a Seleção com lançamentos do meio-campo? Poucos.
É na
organização do meio-campo que gira todo o jogo. Como definir o nosso
meio-campo? Pelo toque de bola, pela simplicidade de na maneira de jogar, pela
humildade dos homens. Para o nosso meio-campo eu escolheria os jogadores mais
simples possíveis,
“Clodoaldo tem sete fôlegos.”
já
que todos eles são hábeis — Gérson, Rivelino, Clodoaldo, Tostão.
Como
conheço bem o Tostão, entendo que, por suas grandes qualidades, ele seria um
ótimo jogador de meio-campo. Ele sabe penetrar, chegar na hora de fazer o gol,
e é um homem que defende, que toca a bola com alegria de jogar, sem a
preocupação de se tornar vedete.
Na
minha opinião, o meio-campo da Seleção tem sido mal posto, com os jogadores mal
colocados no terreno de jogo. Não quero dizer que, se fosse o técnico, eu teria
condições de colocá-los no lugar certo, porque às vezes não consigo fazer isso
nem no meu time. Mas acho importante dizer isto, embora não tenha condições de
apontar soluções.
Por
que Tostão? Insisto: desde os tempos de juvenil do América mineiro, quando ele
tinha quinze anos e eu o lancei como meia-armador, Tostão não joga na frente: ele
aparece na frente, o que é outra coisa. Ele não é como Dario, que se planta na
frente. Tostão vem para trás, na lateral esquerda, apanha a bola e vai tocando;
de repente, se mete na frente. A forma ideal de Tostão jogar é a de um atacante
que defende. Ele tem tudo para jogar no meio-campo. A meu ver, seria o grande
apoiador do Brasil. Não se pode dar ao homem do meio-campo a obrigação de ser
cerebral, um fenômeno, o construtor absoluto, porque no dia em que isto não
acontece a vaca vai pro brejo.
“Por que não testaram Edu?”
Outro
problema é a ponta esquerda. Paulo César é craque, um jogador extraordinário,
mas o ponta tem que ser como Arílson e Edu. O extrema tem que ser um homem que
ataca e defende, mas para defender não precisa ficar plantado no meio-campo e
abandonar seu setor. Paulo César não é ponta, era ponta-de-lança. E a ponta
esquerda exige um jogador que seja canhoto de nascença.
Haverá
injustiça nos cortes? Fatalmente, porque todos os convocados são craques. Há
outros injustiçados, porque no Brasil podemos selecionar uns sessenta jogadores
do mesmo nível, como o ponta-de-lança Edu, do América, que também merece uma
oportunidade. Ele é muito baixo? Ora, tamanho só é documento para determinadas
posições.
Não se iludam: a Seleção não tem disciplina de jogo nem sistema. E não conta com o soberbo Nilton Santos, o admirável Zito, o imprevisível Garrincha, um elenco excepcional como o de 58 e 62. É certo que os jogadores de hoje não são medíocres, mas eles não têm o toque mágico nem a clarividência dos homens daquela geração.
DENÚNCIA
Compre seu carnê e ajude o Coríntians a
construir um estádio para 120 000 pessoas — Você é um dos milhares de
torcedores que foram enganados por essa frase?
Reportagem de Narciso James / Fotos de
Manoel Motta
CORINTIÃO
ISTO É UMA FARSA
No fim do ano passado, as televisões e
os jornais começaram a apresentar um mosqueteiro sorridente ao lado de um
projeto de estádio igual ao Mineirão. Estava nascendo o Corintião, campanha que
insinua a construção do estádio corintiano mas que na verdade não passa de um
simples sorteio de carros, televisores, máquinas de costura, bicicletas e
rádios.
Hoje o Corintião é também um sorteio ilegal —
a portaria do Ministro Delfim Neto, baixada no dia 9 de abril, é clara: a venda
de valores a prestação, mediante sorteio ou distribuição de prêmios, só é
permitida às organizações especiais, autorizadas pelo Decreto-Lei n.º 7 930,
observadas as disposições do Decreto-Lei n.º 418.
O Corintião já realizou dois sorteios. Agora,
nem mesmo o Sr. Ardi de Oliveira, representante da Teivanir Pinheiro — Editora,
Publicidade e Vendas, responsável pela promoção, sabe como vai ficar essa
campanha:
— Nós impetramos um mandado de segurança, já
que nossa carta-patente foi cassada pelo Ministério da Fazenda. Antes já
tínhamos desfeito o acordo com a Brasavi, empresa que fazia a promoção do
Corintião. Esta semana vamos resolver o que fazer.
Mesmo assim, os carnês continuam a ser
vendidos, repetindo as promessas do mosqueteiro sorridente — cada carnê custa
NCcr$ 8,00 de entrada e oito prestações de NCcr$ 10,00. Os sorteios são mensais
e depois de pagar cada prestação o comprador recebe um fascículo da história
completa do Coríntians.
Todo o dinheiro arrecadado deveria ser usado
para a construção do estádio, pelo menos é o que também promete o encarregado
do posto de vendas do Parque São Jorge:
— Todo corintiano tem que comprar seu carnê
para que o Coríntians construa seu estádio, para mais de 120 000 pessoas.
As informações sobre a quantidade de carnês vendidos ou sobre qualquer dado da campanha são negadas de todos os lados, tanto no Corínthians como na loja da Avenida Ipiranga, 1 272, no centro de São Paulo. Ali trabalha Ardi de Oliveira, representante da Editora — com sede no Rio, na Rua Santa Clara, 33.








































