Levantamento
do Fantástico identificou 107 acidentes em 20 anos, que deixaram pelo menos 61
mortos e 34 feridos; 91% das vítimas tinham até 12 anos. Não há uma norma
nacional obrigatória para a fixação de traves.
Por
Fantástico
Heloise, de 3 anos, vítima fatal da queda de uma trave sem fixação em Imbaú (PR). — Foto: Reprodução/Fantástico
A morte
de Heloise, de 3 anos, após uma trave de futebol cair sobre ela durante uma
festa de Dia das Crianças em Imbaú, no Paraná, expõe um problema que se repete
em diferentes regiões do Brasil: acidentes envolvendo estruturas esportivas que
poderiam ser evitados com medidas de segurança.
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Um levantamento do Fantástico, da TV Globo, identificou pelo menos 107
acidentes com traves nos últimos 20 anos.
Ao
todo, 61 pessoas morreram e outras 34 ficaram feridas. Mais de 90% das vítimas
tinham até 12 anos.
Heloise
estava em uma festa organizada pela comunidade quando a trave caiu sobre seu
abdômen. A mãe, Casturina da Silva, conta que estava de mãos dadas com a menina
quando tentou levá-la até o carro para guardar um brinquedo e um doce.
“Eu até tentei, colocar a mão e tentar pegar ela, mas quando vi já era tarde demais”, relata.
A
menina não resistiu. Uma semana depois, o pai, Helgrid Leandro, voltou ao campo
pela primeira vez. A família ainda tenta entender como a estrutura caiu.
Casturina
diz que outras crianças continuam brincando no local e teme que uma nova
tragédia aconteça.
“Sempre me deparo com crianças brincando lá. Acho que é uma coisa perigosa que pode acontecer de novo. Se não derem um jeito”, afirma.
Acidentes
se repetem no país
Outras
duas famílias do Paraná passaram por situações semelhantes. Em fevereiro, um
menino de 7 anos morreu após uma trave cair sobre sua cabeça em Marquinho. Dois
meses depois, Sofia Aparecida morreu em Prudentópolis, também após a queda de
uma estrutura em uma quadra.
Em
outro caso, Victor Hugo tinha 12 anos quando foi atingido por uma trave
enquanto brincava de goleiro em uma praça de Peruíbe, no litoral de São Paulo.
Após um chute forte, a estrutura caiu sobre ele. O menino sofreu sete
convulsões, precisou ser intubado e ficou em coma induzido. Quando acordou, não
reconheceu a mãe.
“Até
hoje ainda cuido dele porque ele ficou com problema no braço, ficou com
sequela, passa pela psicóloga”, conta Joice Fernandes.
A
mãe precisou deixar o emprego para cuidar do filho. A família venceu
definitivamente um processo contra a Prefeitura por negligência, mas, cinco
anos após o acidente, ainda aguarda o pagamento da indenização, que está na
fila de precatórios do município.
A
advogada Selma Santos afirma que a queda poderia ter sido evitada caso a
estrutura estivesse corretamente instalada.
“Mesmo que ele tivesse pendurado na trave, como eles alegaram na defesa, não seria motivo, porque se ela tivesse bem fixada, de acordo com a necessidade mesmo de fixação para evitar acidente, a trave não teria caído com uma simples batida de bola, que foi o que aconteceu”, diz.
Traves em capos de futebol — Foto: Reprodução/Fantástico
Não
há norma nacional obrigatória
Apesar
da repetição dos acidentes, o Brasil não tem uma norma nacional obrigatória
específica para a fixação de traves.
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Segundo levantamento apresentado pelo Fantástico, as regras variam entre os
estados.
Santa
Catarina não tem projeto de lei sobre o tema, enquanto, no Paraná, a
discussão está parada.
No Rio
Grande do Sul, uma lei estadual determina que balizas instaladas em espaços
públicos e privados tenham pelo menos dois pontos de fixação e passem por
vistorias periódicas.
A
Lei Marina Fallavena recebeu esse nome em homenagem a uma menina de 11 anos que
morreu após a queda de uma trave mal fixada.
A
legislação prevê multas para os infratores e, em caso de reincidência, a perda
da autorização para o funcionamento de atividades econômicas.
Parques,
clubes, condomínios, praças, escolas e escolinhas de futebol tiveram um ano e
meio para se adequar. A fiscalização exige laudo técnico que comprove a
segurança da instalação.
Segundo
Luana Frasson, diretora da Secretaria de Obras do Rio Grande do Sul, o sistema
de fixação depende das características do local e do solo. O custo, porém, é
baixo.
“Independente do tipo de fixação escolhido, a gente não passa de 500 reais, é um valor bastante baixo, né?”, afirma.
A falta de fixação em traves transforma áreas de lazer em risco fatal: a ancoragem adequada é simples, de baixo custo e evita tragédias. — Foto: Reprodução/Fantástico
Crianças
penduradas nas traves também são um risco previsível
Para
Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), o comportamento das crianças precisa ser considerado
na avaliação da segurança dos equipamentos. Segundo ele, pendurar-se ou
balançar-se nas traves é uma atitude previsível, mesmo que não seja a
finalidade da estrutura.
“Pendurar-se nas traves é quase irresistível. Balançar-se pra frente... Pendurar-se pelo joelho de cabeça para baixo é fabuloso”, afirma o especialista. Ele explica que o peso e a força de crianças de até 12 anos não deveriam representar um problema para uma trave corretamente fixada.
Moacyr
também explica que o formato da estrutura influencia a dinâmica da queda.
Quando uma trave ultrapassa a inclinação de 45 graus, a aceleração aumenta e o
impacto pode ser ainda mais violento.
A
falta de manutenção também compromete a segurança. Na praça onde Victor se
acidentou, em Peruíbe, os equipamentos apresentam corrosão provocada pela
maresia, pelo uso e pelo vandalismo. Já em Imbaú, a trave que matou Heloise
foi reerguida e instalada diretamente na terra, que pode amolecer com a chuva.
Para
o especialista, a prevenção depende de avaliar o material, o posicionamento
e as condições de uso dos equipamentos, além de realizar inspeções periódicas.
O custo de uma fixação adequada, segundo a Secretaria de Obras gaúcha, não
passa de R$ 500, enquanto uma indenização por acidente pode chegar a R$ 200
mil.
Em
Imbaú, Casturina ainda não consegue entender como a trave caiu.
“E eu fico pensando como que o negócio caiu, se ela não tava mexendo, não tinha ninguém mexendo, sabe?”, questiona.
Enquanto
a família tenta lidar com a perda, o campo onde Heloise morreu continua sendo
frequentado por crianças.
Responsáveis
pelos locais e proposta de lei
O
dono do campo onde Heloise morreu não quis conceder entrevista gravada, mas
conversou por telefone com a produção.
Ele
afirmou que a festa é realizada no local há três anos e atribuiu a queda da
trave à chuva forte e aos ventos, que teriam provocado o desprendimento dos
grampos responsáveis por prender a estrutura ao solo.
No
caso de Victor Hugo, a Prefeitura de Peruíbe informou que substituiu a trave
enferrujada envolvida no acidente.
Diante da repetição de episódios como esses, o deputado federal Danrlei (PSD-RS), ex-goleiro do Grêmio, apresentou, na semana passada, um projeto de lei nacional para regulamentar a fixação de traves em espaços públicos e privados. A proposta busca estabelecer critérios de segurança para a instalação desses equipamentos e prevenir novos acidentes.



