Território,
localizado na cidade de Camocim, litoral do Ceará, foi soterrado entre as
décadas de 1970 e 1980 e sua população formou um distrito alvo de disputas
econômicas e que faz parte da Rota das Emoções.
Por Gabriela
Feitosa, Mateus Ferreira, g1 CE, TV Verdes Mares
À esquerda, igreja na vila que foi soterrada. À direita, imagens atuais do distrito — Foto: Reprodução e Reprodução/Prefeitura de Camocim
Opção
turística no litoral oeste do Ceará, a praia de Tatajuba, na cidade
de Camocim, esconde um passado pouco conhecido. Sob a areia, estão
vestígios de dezenas de casas de pescadores e agricultores de uma
comunidade tradicional, que foi soterrada por dunas móveis entre os anos de
1970 e 1980.
A
região está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), determinada pela
Lei Municipal Nº. 559/94 e que foi redefinida em abril deste ano. Marcada por
dunas, lagoas e próxima ao mar, ela também faz parte da Rota das Emoções,
famoso destino turístico que também inclui Jericoacoara e o Delta do Parnaíba.
🏝️
Entenda: a vila de Tatajuba foi soterrada paulatinamente na
década de 70 , porque foi construída no meio do trajeto de dunas móveis, comuns
no Ceará. O movimento das areias é algo natural, acontece por causa do vento e
da falta de vegetação. Ele forçou a população a migrar para áreas vizinhas
(entenda mais abaixo.)
Moradores
relatam que a igreja foi uma das primeiras construções a ser engolida. Em
seguida, a escola, o posto de saúde e dezenas de casas também desapareceram, em
uma das ocorrências naturais mais notórias da história do Ceará.
Quem
ajuda a contar essa história é João Batista dos Santos, pescador conhecido como
Tita. A mãe de João morava na vila e precisou deixar sua casa ainda grávida.
Não há dados oficiais de quantos moradores foram atingidos, mas o pescador
relembra o que ouvia da mulher:
“Já era uma vila muito grande na época. Era maior do que o antigo Serrote, que hoje é Jericoacoara, muito famosa internacionalmente. Naquela época já existia igreja, posto policial, colégio, as pessoas estudavam. Os festejos de lá eram os maiores dessa região. Era uma vila muito grande, que se não tivesse soterrada, hoje era quase uma cidade”.
Após
a antiga vila desaparecer sob a areia, os moradores buscaram abrigo em
comunidades vizinhas, formando o que hoje intitula-se como distrito de
Tatajuba, reconhecido em 12 de novembro de 2025, por meio da lei Lei
Municipal nº 1716/2025.
O território com mais de cinco mil hectares é composto por quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco.
Apesar
de estar sob proteção ambiental, o território absorve parte do público e do
ritmo da Vila de Jericoacoara, conhecida internacionalmente pelas belezas
naturais, rede hoteleira, bares e restaurantes. De acordo com a prefeitura de
Camocim, a cidade recebeu 892.251 turistas em 2025.
Moradores
temem, no entanto, os efeitos negativos desse ‘hype’ de Tatajuba, em especial
sobre o meio ambiente, a pesca artesanal e a agricultura.
➡️
Nesta reportagem, entenda o que levou uma vila inteira a ser soterrada e como
está hoje a região de Tatajuba, local com características naturais singulares,
alvo de especulação imobiliária e turismo desenfreado.
Infográfico - Ceará tem vila soterrada por areia das dunas — Foto: Arte/g1
'Não
deu para salvar nada'
Não
há um consenso sobre em qual ano a vila de Tatajuba começou a ser povoada.
Porém, moradores mais antigos relatam que no início do século XX já era
possível ver os primeiros núcleos familiares.
O
pescador João Batista de Paula, conhecido como João ‘Errado’ na região, vive há
78 anos no distrito e acompanhou o início desse processo. Ele morava ao lado da
antiga vila e lembra do desespero dos vizinhos:
“Lá tinha uma vila de pescadores, a duna foi cobrindo e o pessoal saiu e fizeram essa que se chama Vila Nova. A duna foi cobrindo tudo (...), não deu para salvar nada".
Na
época, a região era mais conhecida como Cabaceiras. O nome Tatajuba veio
depois, em homenagem a um tipo de árvore muito comum na região. A
partir de 1970, a vila passou a ser atingida com mais força pelas dunas móveis
- acúmulos de areia que se deslocam a partir da ação dos ventos. Esta
não foi, no entanto, a maior transformação que João acompanhou:
“Aqui não tinha preocupação com coisa nenhuma, com ninguém, com gente de fora. Hoje não é do mesmo jeito. Parte dos nativos daqui venderam suas terras para empresários (...) A pesca aqui é muito pouca hoje, porque o camarada trabalha nas barracas, nas pousadas. Eles trabalham nessas coisas, mas eu não. Ano passado eu pesquei, este ano vou pescar de novo”, contou.
A igreja da vila de Tatajuba foi uma das construções a ser engolida por dunas móveis. — Foto: Arquivo pessoal
Quem
concorda com ele é o xará João Batista, conhecido como ‘Tita’. Ele conta que a
família reconstruiu a vida a cerca de um quilômetro do antigo local.
Atualmente, além de pescar, Tita desenvolve um trabalho comunitário na
Associação de Moradores de Tatajuba, presidida por Angelaine Alves, sua
companheira.
"Em 1978, saíram as últimas famílias e vieram para Vila Nova. Lá tinha igreja, casas, comércios. Com a chegada das dunas, ficou tudo debaixo das areias. Teve um tempo que os vestígios da antiga igreja [vieram à tona]. Hoje tem várias pessoas morando lá. Depois do soterramento, começou outra formação de vila, que se chama São Francisco", relembra Angelaine.
Especialistas
explicam o soterramento
As
dunas móveis podem ser encontradas em boa parte da costa semiárida brasileira,
especialmente em locais desprovidos de vegetação ou pouco cobertos por plantas.
Elas são um tipo bastante dinâmico de ecossistema, já que os ventos
movem as dunas, fazendo com que mudem de posição ao longo dos anos.
Estas
informações aparecem no Atlas do Assentamento Estadual e Reserva de
Desenvolvimento Sustentável da Planície Costeira de Tatajuba, um estudo
desenvolvido pelo professor Jeovah Meireles, do Departamento de Geografia da
Universidade Federal do Ceará (UFC).
O
documento também detalha que, em Tatajuba, as dunas se destacam como um
dos elementos paisagísticos mais notórios, apresentando tamanhos e formas
diferentes - como formato de lua crescente ou de "C".
Nesse
cenário, uma duna móvel se destaca: a Duna Encantada, que tem cerca
de 30 metros de altura e área de 120.000 m². “Este gigante arenoso acumula
aproximadamente 140.000.000 m³ de areia”, descreve o Atlas. Veja
abaixo:
Esta é a 'Duna Encantada', duna em Tatajuba com mais de 30 metros de altura. — Foto: Reprodução/Governo do Ceará
Jeovah
explica que o soterramento da vila ocorreu porque a comunidade foi instalada
diretamente na rota natural de migração das dunas, em uma região mais alta e
plana, conhecida tecnicamente como "tabuleiro”:
"Ali, as
dunas maiores podem migrar até 12, 15 metros por ano. Mas, as dunas menores
podem migrar até 30 metros por ano. Então, todo o sistema ali é regido por
essas conexões: zona de praia, campos de dunas, canais de marés, sistemas de
fluxos fluviais e as lagoas costeiras", explica Jeovah.
Conforme
o especialista, durante o segundo semestre do ano, os ventos ficam mais fortes
e transportam grandes quantidades de areia da faixa de praia em direção ao
interior do continente. Como a vila foi construída no meio desse trajeto, ela
acabou funcionando como uma "barreira" física.
Ou seja: a areia trazida pelos ventos passava pelas ruas e pelos corredores estreitos entre as residências. Com o tempo, o acúmulo dessa areia gerou um volume gigantesco, suficiente para soterrar não apenas as casas, mas também as pequenas cacimbas, que eram os poços de onde a comunidade tirava água.
Jeovah,
que estuda a região há 26 anos, ainda alerta para o risco de construir na
região, especialmente grandes projetos turísticos não sustentáveis:
“As
comunidades tinham espaço e território para a convivência com os campos de
dunas, em especial até os anos 1980, pois o litoral do Ceará é praticamente um
único campo de dunas. Então, as pequenas comunidades ficavam ali bailando,
vamos dizer assim, de acordo com a regência das dunas".
Para
a professora de História Sheila Abreu, que mora na vila de Tatajuba há cinco
anos, é importante entender que existe, na região, uma natureza mutável e que a
comunidade de Tatajuba já nasceu com esse ‘aspecto transitório’:
“O estilo de vida requer que compreendamos essa mutabilidade, para que a gente não sofra danos e que a gente não cause danos também à natureza. A gente não consegue parar a natureza, a gente pode até tentar, mas a gente não consegue. O que a gente pede para as pessoas é que elas compreendam o modelo de natureza que a gente tem, para que a gente tenha construções e ocupações sustentáveis. Dentro de uma área onde tudo é transitável, a gente não pode ter uma estrutura rígida, sólida".
Regularização
das terras
O
soterramento da vila de Tatajuba é somente um capítulo dessa história. Após a
ocorrência ambiental na década de 80, os moradores se depararam com outra
‘ameaça’. Em 2001, eles descobriram que o terreno onde estão as quatro vilas
foi comprado por uma grande empresa de turismo e, na época, as terras não eram
regularizadas:
“Ela
tinha o projeto de construir um condado ecológico para receber turistas com
cinco campos de golfe. Isso significava que todas as pessoas que moravam nas
quatro vilas, principalmente nas vilas mais próximas da praia, teriam que sair,
ou seriam expulsas. Foi aí que a Associação dos Moradores entrou com dois
processos na Justiça para interditar qualquer tipo de construção de empresas e
anular as matrículas”, explica Angelaine, presidenta da Acomota.
Esse
imbróglio durou mais de 20 anos e ainda está em processo de resolução. O
reconhecimento das terras ocorreu em setembro de 2023, quando o Instituto do
Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace) e a Defensoria Pública da União (DPU)
fecharam acordo para que a maior parte da terra pleiteada fosse doada ao Idace.
Com isso, ficou sob a tutela do Estado o perímetro onde as comunidades vivem e
trabalham. A propriedade, agora pertencente ao Estado, tem um total de
2.459.734 hectares.
Imagens da antiga comunidade mostram relação entre a comunidade e as dunas. — Foto: Arquivo pessoal
Mesmo
com uma parte do problema resolvido, a população de Tatajuba reconhece que o
distrito não é mais o mesmo. Com paisagem paradisíaca e localizado próximo de
Jijoca de Jericoacoara, que abriga a famosa Vila de Jeri, Tatajuba teme
o turismo desenfreado e especulação imobiliária.
Dentre
os desafios, estão áreas que viram alvo de invasões e degradação em razão do
trânsito de veículos. Conforme os estudos conduzidos pelo professor Jeovah
Meireles, o crescente interesse de empresários cercando terrenos de forma
irregular ou adquirindo terrenos na região acende um alerta para futuros
conflitos.
Em
fevereiro de 2024, uma operação coordenada entre o Idace, o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a
Superintendência Estadual do Meio Ambiente e a Polícia Militar do Meio Ambiente
(BPMA) derrubou cercas e placas de comercialização de terrenos públicos na área
de Tatajuba. Não há informação de quantas cercas e placas foram retiradas.
Sobre
o tema, Alexandre Maia, procurador-geral de Camocim, explica que a cidade conta
com uma Autarquia de Meio Ambiente atuante, responsável por analisar e barrar
empreendimentos que podem causar impactos na natureza da região.
O
foco atual da gestão municipal, segundo Alexandre, é 'conter um avanço
desordenado' de construções: "Nenhum empreendimento vai ser instalado
em Tatajuba sem licenciamento ambiental. Se estão localizados em áreas de
preservação permanente, não podem ocupar", afirma Maia.
"A Prefeitura não é a favor da ocupação desordenada. Nós queremos disciplinar eventuais empreendimentos que podem passar por um processo de licenciamento e, se localizados em áreas sensíveis, como áreas de preservação permanente, não serão autorizados (...) Nossa intenção é possibilitar empreendimentos sustentáveis, proteger a comunidade tradicional e fazer o ordenamento urbano da cidade", afirma o procurador-geral.
➡️ De
acordo com o Governo federal, o licenciamento ambiental é um procedimento
administrativo obrigatório, instituído pela Política Nacional de Meio Ambiente
(Lei 6.938/81), que autoriza a localização, instalação, ampliação e operação de
empreendimentos que utilizam recursos naturais ou podem causar impactos ao meio
ambiente.
Área
de proteção Ambiental
O
distrito está inserido em uma APA, que foi redefinida em 15 de abril de 2026,
pela lei municipal 1728/ 2026. A região passou a ser denominada de Área de
Proteção Ambiental Municipal Tatajuba-Guriú. O local possui um perímetro de
43,97 km.
A
mudança visou adequação às diretrizes do Sistema Nacional de Unidades de
Conservação da Natureza (SNUC). O objetivo dessa redefinição, segundo a lei, é
"assegurar uso sustentável dos recursos naturais, proteger a diversidade
biológica, ordenar a ocupação humana e promover a melhoria da qualidade
ambiental em seu território".
Com
a atualização na legislação, passa a ser obrigação da Autarquia Municipal de
Meio Ambiente (AMA) da cidade:
- Proteger ecossistemas
frágeis e áreas de relevante interesse ambiental;
- Disciplinar o processo de
ocupação e uso do solo, prevenindo a degradação ambiental;
- Assegurar a conservação dos
recursos hídricos, dunas, restingas e manguezais;
- Compatibilizar atividades
econômicas com a conservação ambiental;
- Promover a educação
ambiental e a participação comunitária na gestão da unidade;
- Fomentar práticas de
turismo sustentável e de baixo impacto.
Tatajuba, em Camocim, é destino de turistas de todo o Brasil. — Foto: Reprodução/Prefeitura de Camocim
Foto aérea mostra Nova Tatajuba, uma das vilas do distrito. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Camocim
Distrito de Tatajuba fica na cidade de Camocim, localizada a cerca de 350 quilômetros de Fortaleza. — Foto: Reprodução/Idace
Foto de Igreja em Nova Tatajuba, uma das vilas do distrito. A Vila Nova recebeu parte dos moradores desabrigados após o soterramento na década de 70. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Camocim









