Lipo de papada e rinoplastia: veja procedimentos feitos por dentista presa suspeita de deformar pacientes em Goiânia

Valéria Ribeiro não tinha autorização de realizar os procedimentos, segundo a polícia. Clínica foi fechada.

Por Rodrigo Melo, g1 Goiás


Dentista Valéria Ribeiro foi presa suspeita de deformar sete pacientes, em Goiânia — Foto: Reprodução / TV Anhanguera e Instagram Valéria Ribeiro

Lipo de papada, rinoplastia e bichectomia são alguns dos procedimentos estéticos que eram realizados sem autorização pela dentista Valéria Ribeiro, de acordo com a Polícia Civil (PC). Ela foi presa nesta quinta-feira (28), em Goiânia, por suspeita de causar lesões graves em sete pacientes que ficaram deformadas.

Em nota, a defesa da dentista, representada pela advogada Caroline Bittar, informou que, até o presente momento, não teve acesso “a integralidade dos documentos que embasaram a operação”, e, por isso, não poderá dar uma resposta técnica completa (veja a nota completa no final da reportagem).

O Conselho Regional de Odontologia de Goiás (CROGO) informou que a profissional possui registro ativo e que o conselho acompanha com atenção os desdobramentos do caso. Acrescentou que os procedimentos estéticos e cirúrgicos no rosto, como lipoaspiração de papada, rinoplastia, otoplastia e blefaroplastia, só podem ser realizados pelo cirurgião-dentista que for comprovadamente especialista na área (veja a nota completa no final).

A lipoaspiração de papada é a remoção do excesso de gordura localizada logo abaixo do queixo e na região do pescoço. A rinoplastia é a cirurgia plástica que remodela o nariz, manipulando a estrutura óssea e as cartilagens, podendo aumentar, diminuir, projetar a ponta, afinar as asas, entre outros. Por fim, a bichectomia é uma intervenção cirúrgica para a retirada das bolsas de gordura localizadas na parte interna das bochechas.

Investigação

A polícia começou a investigar o caso em 2024 e certificou que havia relatos de vítimas desde 2023. As pacientes apresentaram infecções, deformidades, fibroses, necroses, cicatrizes permanentes e outras sequelas graves, segundo a PC.

O delegado Wladimir Freire, responsável pelo caso, afirmou que apesar de atualmente o Conselho de Odontologia permitir algumas cirurgias invasivas mediante comprovação de especialidade, Valéria não tinha na época qualquer autorização para realizar esses procedimentos.

Além disso, as vítimas relataram à polícia que alguns procedimentos eram prolongados, com duração superior a 12 horas, ocorridos em sala odontológica comum. Conforme o depoimento, o local não tinha condições sanitárias adequadas, havia falhas na esterilização de materiais e insuficiência de acompanhamento anestésico.


Dentista que atuava em clínica no Setor Bueno, em Goiânia, foi presa por realizar procedimentos estéticos para os quais não tinha habilitação — Foto: Divulgação/ Polícia Civil de Goiás

Uma dessas pacientes quase precisou ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após um procedimento, segundo o investigador.

“Teve uma que quase foi [para a UTI]. Ela levou para a casa dela para tratar lá”, afirmou o delegado à repórter Letícia Fiuza

A operação, realizada com o apoio da Vigilância Sanitária, fechou a clínica no Setor Bueno. Uma funcionária foi presa em flagrante por tentar esconder alguns produtos ou objetos da investigação, segundo o delegado. Por não ter o nome divulgado, o g1 não conseguiu localizar a defesa dela para se posicionar.

A PC levantou indícios de exercício ilegal da medicina, funcionamento irregular do estabelecimento e possível utilização de técnicas vedadas pelas normas de fiscalização profissional, de acordo com a PC. A dentista foi presa preventivamente.

Operação

Durante o cumprimento de mandados judiciais, foram realizadas buscas na clínica e em endereços residenciais vinculados à investigada para apreender documentos, aparelhos eletrônicos, contratos, prontuários, equipamentos e outros materiais de interesse das investigações. Além da prisão, a operação cumpre dois mandados de busca e apreensão e sequestro de R$ 600 mil, além de bens patrimoniais.

Segundo a polícia, a operação apura a prática de procedimentos estéticos e cirúrgicos, supostamente realizados de forma irregular, que causaram graves danos físicos e psicológicos nas vítimas.

Nota da defesa

A defesa da cirurgiã-dentista Valéria Ribeiro, representada pela advogada Caroline Bittar, vem a público esclarecer que, até o presente momento, não teve acesso à integralidade dos documentos que embasaram a operação policial deflagrada nesta quinta-feira (28) pela Polícia Civil de Goiás.

A ausência de acesso integral aos autos impossibilita, por ora, uma resposta técnica e jurídica completa aos fatos noticiados.

Tão logo tenha acesso irrestrito à documentação, a defesa se manifestará de forma detalhada e fundamentada.

Nota do CRO-GO

O Conselho Regional de Odontologia de Goiás (CROGO) informa que tomou conhecimento, por meio de notícias veiculadas pela imprensa, da operação deflagrada pela Polícia Civil de Goiás, nesta quinta-feira (28/05). A profissional em questão possui registro ativo no CROGO.

O CROGO acompanha com atenção os desdobramentos do caso e ressalta que eventuais infrações éticas estão sendo devidamente apuradas no âmbito administrativo, respeitando-se o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, conforme estabelece a legislação vigente. As apurações neste Conselho correm sob sigilo.

O CROGO esclarece que, em regra, os procedimentos estéticos minimamente invasivos de Harmonização Orofacial, como aplicação de botox e preenchimento com ácido hialurônico, podem ser realizados por profissionais da Odontologia, nos termos da Resolução CFO 198/2019.

Por outro lado, os procedimentos estéticos e cirúrgicos na face (ex.: lipoaspiração de papada, rinoplastia, otoplastia, blefaroplastia etc.) só podem ser realizados pelo cirurgião-dentista que for comprovadamente especialista em Cirurgia Estética Orofacial (CEOF), conforme exige a Resolução CFO 286/2026, sob pena de responsabilização.

O CROGO reforça seu compromisso com a fiscalização do exercício ético e legal da Odontologia, com a segurança da população e com a valorização dos profissionais que atuam dentro dos limites técnicos e científicos estabelecidos pelas normas da profissão.

Conselho Regional de Odontologia de Goiás – CROGO 


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