Município
da Chapada Diamantina abriga ponto mais alto da região nordestina. Setores
econômicos se beneficiam com as características do solo e a altitude elevada.
Por Rafaela
Paixão, g1 BA
Cidade de Piatã, na Chapada Diamantina — Foto: Guia Chapada Diamantina
Enquanto
grande parte das cidades do Nordeste são conhecidas pelo clima quente durante
quase todo o ano, uma cidade da Chapada Diamantina, na Bahia,
desafia esse estereótipo e faz do frio um dos seus diferenciais.
Localizada a mais de 1.200 metros de altitude, Piatã é
considerada por especialistas a cidade mais fria da região nordestina e voltou
a registrar temperaturas próximas de 12°C nos últimos dias.
Segundo
o secretário municipal de Turismo, Ricardo Xavier, a cidade já chegou a marcar
1,2°C na década de 1980.
O
município abriga o Pico do Barbado — ponto mais alto do Nordeste — e combina
clima ameno, paisagens montanhosas e cachoeiras. Outro destaque é a produção
de cafés especiais, reconhecida nacional e internacionalmente.
O
resultado é um destino que atrai turistas durante todo o ano, especialmente
entre maio e agosto, quando os termômetros costumam registrar as menores
temperaturas.
De
acordo com Henrique Mendonça, meteorologista da Coordenação de Estudos de Clima
e Projetos Especiais (Cocep) do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos
(Inema), a recente queda nas temperaturas está associada à atuação de ventos
vindos do sul do país.
Segundo
ele, o mesmo sistema que provocou chuvas volumosas em diversas regiões da Bahia
também favoreceu a entrada de ar mais frio, contribuindo para os registros
entre 12°C e 14°C observados nos últimos dias.
O
especialista explica que o cenário é relativamente comum nesta época do ano.
Embora o inverno só comece oficialmente em 21 de junho, as características
climáticas da estação já começam a ser sentidas em algumas áreas do estado.
"É comum que ocorra essas quedas de temperatura, esses registros de temperaturas baixas principalmente agora dentro do nosso período chuvoso".
Imagem da cidade de Piatã, na Chapada Diamantina — Foto: Guia Chapada Diamantina
Além
da influência dos ventos, a altitude e o relevo desempenham papel fundamental.
Segundo o meteorologista, as áreas mais elevadas favorecem a perda de calor
durante a noite e ajudam a manter temperaturas mais baixas ao longo do dia.
Henrique
Mendonça destacou que os registros atuais estão dentro do comportamento
histórico do município. A previsão é que a temperatura siga baixa nas próximas
semanas, especialmente durante os meses de junho e julho e na primeira quinzena
de agosto.
O
frio e a rotina dos moradores
Piatã, na Chapada Diamantina, oferece lindas paisagens entre serras e temperaturas baixas — Foto: Reprodução / Sabores do Nordeste
Há
um ano e dois meses morando em Piatã, a psicóloga Vitória Carvalho disse
ao g1 que
precisou adaptar hábitos e até o guarda-roupa para enfrentar a friaca da
cidade.
Ela
contou que quem visita o município pela primeira vez costuma se surpreender com
a intensidade do frio, que pode ser sentido mesmo durante o dia.
"Eu digo que é bom, principalmente se for nesse período de São João, entre final de maio, junho, julho e agosto, vir com bastante roupa de formas finas, que são básicas; roupas mais grossas, mais grosseiras mesmo, por conta do frio. Aqui a gente tem um período de sol, mas é um sol com vento frio, então durante o dia você sente frio também".
Vitória
lembrou que os dias mais frios que viveu na cidade ocorreram justamente neste
período do ano. Segundo ela, a sensação térmica pode ser ainda menor por causa
dos ventos constantes. Na semana passada, por exemplo, precisou recorrer a uma
medida que nunca havia imaginado tomar quando decidiu morar em Piatã: comprar
um aquecedor portátil.
A
psicóloga também já enfrentou dias em que o frio era intenso a ponto de causar
desconforto físico.
"Eu lembro de ter dias bem desafiadores, que o corpo chegava a doer de tanto frio".
Segundo
Vitória, até os animais de estimação demonstram sentir as mudanças na
temperatura. Os gatos dela ficam agitados e costumam procurar os locais mais
quentes para se aquecer.
Uma
história recente ajuda a ilustrar como as baixas temperaturas podem surpreender
até quem já conhece a região. Durante uma visita ao Alto da Chapada, um dos
atrativos turísticos do município, ela ouviu dos proprietários do local o
relato de um motociclista que desistiu de voltar para casa pilotando: o homem
teria deixado a moto estacionada no espaço e retornado de carro com amigos
porque não conseguiria enfrentar o frio da noite sobre duas rodas.
Experiência
para turistas
Termômetro registra 10°C em Piatã — Foto: Achei Sudoeste
Para
quem visita a cidade, a intensidade do frio costuma ser uma das primeiras
surpresas. Segundo a guia de turismo Amanda Pedreira, muitos turistas chegam
esperando temperaturas mais quentes.
"O que mais surpreende é a combinação entre altitude, paisagens e clima. Muitas pessoas não imaginam encontrar temperaturas tão baixas no Nordeste".
Mas,
segundo ela, o frio é justamente o que transforma a experiência dos visitantes,
que encaram caminhadas pelas montanhas, contemplando as paisagens e observando
fenômenos comuns da região, como a neblina que frequentemente cobre as serras
nas primeiras horas da manhã.
Café,
cachoeiras e montanhas
Pico do Barbado, na Chapada Diamantina — Foto: Dimitri de Igatu
De
modo geral, as baixas temperaturas favorecem diversos setores da economia
local, a exemplo dos produtores de café. Beneficiados pela altitude
elevada e pelas características do solo, os grãos produzidos na região
conquistaram reconhecimento dentro e fora do Brasil.
Moradores
e profissionais do turismo ressaltam que as fazendas e propriedades rurais
ligadas à cafeicultura recebem visitantes interessados em conhecer o processo
de produção e degustar cafés premiados.
Além
do café, o município reúne uma série de atrativos naturais. Entre eles estão
cachoeiras, mirantes naturais, pinturas rupestres e importantes nascentes da
Chapada Diamantina.
A
guia de turismo Amanda destacou entre os principais atrativos a região dos
Gerais, o Vale dos Três Morros e a Serra da Tromba, onde está localizada uma
das nascentes do Rio de Contas.
Os
visitantes também costumam incluir no roteiro o Pico do Barbado, ponto
culminante do Nordeste brasileiro, cuja vista panorâmica é considerada uma das
mais impressionantes da Chapada Diamantina.
Município da Chapada Diamantina abriga ponto mais alto da região nordestina. — Foto: Arte g1






