Na
segunda década do século, havia uma espécie de conformismo com a situação
política da Vila. Ninguém se interessava por qualquer melhoramento, não se
reivindicavam melhores condições de vida. O ensino público não existia. A
presença de desordeiros e de criminosos na região e na rua, nos dias de feira e
festas, trazia a intranquilidade para a população. Não havia uma autoridade
graduada, para dar combate a esses desordeiros, que encontravam refúgio seguro
naquele sovaco de serra. A administração
municipal não atuava nem para recolher os impostos. Totonho Cícero
comprava os tributos da prefeitura de Ouricuri e recebia dos contribuintes,
arcando com grande prejuízo. Qualquer
caso de polícia, havia de ser resolvido em Ouricuri, para onde se devia se
dirigir o interessado. Não havia um
representante de São Gonçalo no Conselho Municipal, o que importava ficarem
os são gonçalenses ausentes das decisões sobre os problemas locais.
Essa situação perdurou até a chegada de
Chico Cícero, que lançou o movimento para a emancipação política da Vila. Teve
apoio de Joaquim Modesto, do Major Quincó, de Severo Cordeiro dos Santos, do
Cel. Antônio Modesto, de seu irmão Totonho Cícero. Pe.
Luiz arejara a mentalidade dos chefes locais e todos se engajaram na campanha
emancipacionista. O idealismo de Chico Cícero e sua experiência política em
Ouricuri, a visão alargada de Pe. Luiz e a decisão dos demais sãogonçalenses,
demandaram as transformações econômicas, política e social de São Gonçalo.
Foram lançadas as bases para a conquista da autonomia da Vila.
DE VILA À CIDADE
O Município de Ouricuri compunha-se dos distritos de Barra de São Pedro, São Gonçalo, São Félix, Santa Cruz e Serra Branca, além da sede. Nos anos vinte, surgiu o movimento de emancipação política dos distritos de São Gonçalo e Barra de São Pedro. Os chefes políticos de Ouricuri não aceitavam essa ideia, que para eles era uma grande perda. Na verdade, eram contra. Rodrigo Castor, sob cuja liderança atuava Chico Cícero em Ouricuri, ainda aceitava o desmembramento de São Gonçalo, sob o argumento de que a Vila era muita distante da Sede e, por se limitar com os Estados do Piauí e Ceará, havia grande evasão de rendas municipais.
Chico
Cícero teve conhecimento de que Estácio Coimbra colocara em sua
plataforma de governo a criação de alguns municípios no Estado. Era a vez de
São Gonçalo se tornar independente, o que vinha ao encontro dos anseios da
população e de suas lideranças políticas.
É CHICO CÍCERO QUEM CONTA:
“Juiz de Direito. Ouricuri. Fineza avisa
Francisco Muniz preciso falar assunto interesse Vila São Gonçalo pt Saudações.
Samuel Adams. Secretário Agricultura”.
Como não
tivesse um filho da terra que se dispusesse a ir a Recife tratar do assunto,
ele mesmo foi. Viajou de burro até
Petrolina e, em Juazeiro, pegou o trem para Salvador. De lá, tomou um paquete e
rumou para Recife. Foi levado ao Palácio pelo Dr. Samuel e pelo Dr. Caminha,
onde conversou com o Governador Estácio Coimbra.
Foi muito bem recebido e o Governador lhe garantiu a criação do Município de
São Gonçalo. Na volta, viajou de trem
até Rio Branco (Arcoverde), fazendo o resto da
viagem a cavalo. Gastou oito dias. Quando chegou em São Gonçalo, fez uma
reunião com Joaquim Modesto e Pe. Luiz, Quincó, Antônio Modesto, expondo
o que tratara com o Governador e transmitindo a palavra deste. Essa notícia
deixou o povo muito alegre. “Foi tudo
por minha conta”, arremata.
Passou-se
ainda mais de um ano, para que Chico Cícero recebesse outro telegrama do Dr.
Adams, transmitindo a notícia de que o Governador sancionara a lei, criando o
Município de São Gonçalo. Saiu Chico Cícero de casa em casa da agora CIDADE,
mostrando e lendo o telegrama. O sonho de todos se transformara em realidade.
“Aí que o povo ficou alegre”, diz ele do alto dos seus noventa anos, com uma ponta de nostalgia.
Do livro: Araripina, História, Fatos & Reminiscências - De Francisco Muniz Arraes



