ARARIPINA 98 ANOS: OS EMANCIPACIONISTAS E A ORDEM DO DIA


Homens que tiveram que assumir o compromisso político de transformar uma vila dependente, sem estrutura nenhuma em um lugar mais atraente, desenvolvido, mas para isso, era preciso que os homens que aqui chegaram para morar, investir em negócios, entendessem que as representações da freguesia de Ouricuri não tinham muito interesse que aqui progredisse. Aí surge a figura de Chico Cícero para levantar e lançar um movimento em prol da emancipação política de São Gonçalo.

Na segunda década do século, havia uma espécie de conformismo com a situação política da Vila. Ninguém se interessava por qualquer melhoramento, não se reivindicavam melhores condições de vida. O ensino público não existia. A presença de desordeiros e de criminosos na região e na rua, nos dias de feira e festas, trazia a intranquilidade para a população. Não havia uma autoridade graduada, para dar combate a esses desordeiros, que encontravam refúgio seguro naquele sovaco de serra. A administração municipal não atuava nem para recolher os impostos. Totonho Cícero comprava os tributos da prefeitura de Ouricuri e recebia dos contribuintes, arcando com grande prejuízo. Qualquer caso de polícia, havia de ser resolvido em Ouricuri, para onde se devia se dirigir o interessado. Não havia um representante de São Gonçalo no Conselho Municipal, o que importava ficarem os são gonçalenses ausentes das decisões sobre os problemas locais.

Essa situação perdurou até a chegada de Chico Cícero, que lançou o movimento para a emancipação política da Vila. Teve apoio de Joaquim Modesto, do Major Quincó, de Severo Cordeiro dos Santos, do Cel. Antônio Modesto, de seu irmão Totonho Cícero. Pe. Luiz arejara a mentalidade dos chefes locais e todos se engajaram na campanha emancipacionista. O idealismo de Chico Cícero e sua experiência política em Ouricuri, a visão alargada de Pe. Luiz e a decisão dos demais sãogonçalenses, demandaram as transformações econômicas, política e social de São Gonçalo. Foram lançadas as bases para a conquista da autonomia da Vila.

DE VILA À CIDADE


O Município de Ouricuri
compunha-se dos distritos de Barra de São Pedro, São Gonçalo, São Félix, Santa Cruz e Serra Branca, além da sede. Nos anos vinte, surgiu o movimento de emancipação política dos distritos de São Gonçalo e Barra de São Pedro. Os chefes políticos de Ouricuri não aceitavam essa ideia, que para eles era uma grande perda. Na verdade, eram contra. Rodrigo Castor, sob cuja liderança atuava Chico Cícero em Ouricuri, ainda aceitava o desmembramento de São Gonçalo, sob o argumento de que a Vila era muita distante da Sede e, por se limitar com os Estados do Piauí e Ceará, havia grande evasão de rendas municipais.

Chico Cícero teve conhecimento de que Estácio Coimbra colocara em sua plataforma de governo a criação de alguns municípios no Estado. Era a vez de São Gonçalo se tornar independente, o que vinha ao encontro dos anseios da população e de suas lideranças políticas.

É CHICO CÍCERO QUEM CONTA:



No começo do ano 1927, esteve em São Gonçalo uma comissão do Governo, chefiada pelo Secretário de Agricultura, Dr. Samuel Adams, de descendência alemã e amigo de Pe. Luiz. Integrava ainda a Comissão o Dr. Armando Caminha, engenheiro, que vinha para “lançar a pedra fundamental (?) das divisas do Valado da Serra do Araripe”. Passando por Ouricuri, O Dr. Samuel convidou o Juiz de Direito, Dr. Joaquim José de Caldas Rocha, para acompanhar a Comissão. Em São Gonçalo, formou-se uma comitiva de mais de 50 cavaleiros e foram para a casa de José Bispo, no pé da Serra. De lá, fizeram todo o percurso do Valado. Foi nessa oportunidade que travou conhecimento com o Dr. Samuel e com o Dr. Caminha, conversando com eles sobre a criação do Município de São Gonçalo e pediu a intervenção dos dois influentes doutores junto ao Governador. A Comissão foi embora e ele deu notícia ao Pe. Luiz e a Joaquim Modesto do que havia conversado e de que os doutores prometeram trabalhar para a criação do Município. Joaquim Modesto ficou encarregado de prestar todas as informações, sobre a situação econômica da Vila, através de relatórios. O Pe. Luiz manteve os contatos por cartas, tanto com o seu amigo Dr. Adams, como com outros políticos estaduais, fazendo ver a viabilidade do projeto e a necessidade da autonomia da Vila. No dia 14 de julho de 1927, o Dr. Adams passou um telegrama para o Juiz de Direito de Ouricuri, dizendo assim:

“Juiz de Direito. Ouricuri. Fineza avisa Francisco Muniz preciso falar assunto interesse Vila São Gonçalo pt Saudações. Samuel Adams. Secretário Agricultura”.

Como não tivesse um filho da terra que se dispusesse a ir a Recife tratar do assunto, ele mesmo foi. Viajou de burro até Petrolina e, em Juazeiro, pegou o trem para Salvador. De lá, tomou um paquete e rumou para Recife. Foi levado ao Palácio pelo Dr. Samuel e pelo Dr. Caminha, onde conversou com o Governador Estácio Coimbra. Foi muito bem recebido e o Governador lhe garantiu a criação do Município de São Gonçalo. Na volta, viajou de trem até Rio Branco (Arcoverde), fazendo o resto da viagem a cavalo. Gastou oito dias. Quando chegou em São Gonçalo, fez uma reunião com Joaquim Modesto e Pe. Luiz, Quincó, Antônio Modesto, expondo o que tratara com o Governador e transmitindo a palavra deste. Essa notícia deixou o povo muito alegre. “Foi tudo por minha conta”, arremata.

Passou-se ainda mais de um ano, para que Chico Cícero recebesse outro telegrama do Dr. Adams, transmitindo a notícia de que o Governador sancionara a lei, criando o Município de São Gonçalo. Saiu Chico Cícero de casa em casa da agora CIDADE, mostrando e lendo o telegrama. O sonho de todos se transformara em realidade.

“Aí que o povo ficou alegre”, diz ele do alto dos seus noventa anos, com uma ponta de nostalgia. 

Do livro: Araripina, História, Fatos & Reminiscências - De Francisco Muniz Arraes

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