Credores
têm perfis diversificados; calotes nos processos judiciais contrastam com vida
que a empresária expõe nas redes sociais
Por Guilherme
Balza, Reynaldo Turollo Jr, GloboNews e g1 — Brasília
Roberta Luchsinger — Foto: Reprodução
Apontada
pela Polícia Federal (PF) como lobista, a empresária Roberta Luchsinger tem
uma ficha extensa de processos na Justiça por conta de dívidas que não
foram pagas.
A
lista de credores inclui tapeceiro, escola da filha, loja de roupas,
inquilinos, agência de marketing eleitoral, babá, empregada doméstica, além da
União e da Prefeitura de São Paulo. As duas empresas de Roberta deixaram
de pagar mais de R$ 1 milhão em impostos.
As
dívidas e o histórico na Justiça contrastam com a vida exposta por ela nas
redes sociais, com uma rotina de viagens frequentes, em hotéis de luxo
e jantares em restaurantes regados a vinhos com rótulos prestigiados.
A
reportagem analisou nove processos contra Roberta nas Justiças de São Paulo e
de Minas Gerais. A análise dos documentos mostra que a empresária, além de não
pagar seus compromissos, descumpriu sucessivamente acordos para quitar os
débitos.
Em
vários casos, a Justiça não conseguiu localizá-la nos endereços ligados a ela e
também não encontrou dinheiro nas contas, nem bens associados à
empresária. Em dois processos, Roberta chegou a alegar pobreza para não
arcar com as custas processuais.
Dívida
de R$ 1 milhão em impostos
A
empresária é proprietária da RL Consultoria e Intermediações S.A e da produtora
Elephant 2 Produções Ltda. Segundo informações da Procuradoria-Geral da Fazenda
Nacional, a empresa de consultoria possui uma dívida de R$ 821.090,57
em impostos federais que não foram pagos ao longo dos anos.
A
empresa também deve R$ 199.713,99 de Imposto Sobre Serviços (ISS).
A Prefeitura de São Paulo moveu um processo contra a empresa para cobrar o
valor. A RL Consultoria e Intermediações não paga o ISS ao município há cerca
de cinco anos.
Já a
Elephant 2 tem uma dívida de R$ 54.746,42 com a União e de R$ 27.857,68
com a Prefeitura de São Paulo também por falta de pagamento de ISS.
Somadas, as dívidas com impostos das duas empresas de Roberta é de R$ 1,1
milhão.
Ligação
com o 'Careca do INSS'
De
acordo com as investigações, ela recebeu R$ 1,5 milhão para trabalhar como
lobista de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, que
está preso preventivamente desde o ano passado por suspeita de envolvimento no
esquema de fraudes na previdência.
Segundo
a PF, Roberta se aproveitou da relação com figuras do governo federal para
tentar viabilizar contratos com a administração pública.
A PF
também apura se Roberta pagou vantagens indevidas a Fábio Luís da Silva, o
Lulinha, de quem é amigo. A empresária, Marcola e Lulinha negam as acusações.
O ex-chefe de gabinete diz que apenas pegou um empréstimo com Roberta e que já quitou a dívida. A defesa de Lulinha afirma que ele tinha relação de amizade com a empresária e nunca recebeu dinheiro dela ou do Careca do Inss para facilitar o acesso deles ao governo.
O
filme que nunca saiu do papel
Em
2016, Roberta e uma sócia na empresa procuraram o aposentado Lauro Escobosa
Vallejo para convencê-lo a ajudar a encontrar investidores para um filme sobre
o designer de carros de luxo Horácio Pagani.
De
acordo com aposentado, elas se apresentaram como produtoras de prestígio, com
lastro financeiro familiar, para bancar a obra. Lauro foi procurado por ter
construído carreira no sistema financeiro.
Para viabilizar o filme, Roberta e a sócia abriram uma empresa nos Estados Unidos junto com um produtor americano. O dinheiro para bancar o filme viria de um investimento de US$ 4 milhões de um suposto fundo do Bahrein. Até que o valor fosse liberado, houve a necessidade de fazer um “empréstimo-ponte” para dar início à produção do filme.
Roberta
encontrou um investidor que topou repassar US$ 300 mil para o filme, mas exigiu
garantias. A empresária, então, convenceu Lauro a ser avalista do empréstimo. O
aposentado colocou o seu bem mais valioso como garantia da operação: uma
fazenda, com uma pousada, em São Tomé das Letras (MG), avaliada em R$ 8
milhões.
“Acabei aceitando. Me prometeram uma participação na bilheteria do filme. Enfim, iriam me pagar uma comissão. Acho que na época eram R$ 40 mil”, afirmou.
O
dinheiro do Bahrein nunca apareceu. Já os US$ 300 mil do empréstimo-ponte
sumiram, e o investidor exigiu a fazenda como garantia. O prejuízo ficou
todo com o aposentado. Ele tentou reverter a situação na Justiça, mas sofreu
sucessivas derrotas. Os juízes concluíram que Lauro assumiu o risco ao assinar
o contrato que colocou a fazenda como garantia.
“Tudo que eu tinha, estava lá. Inclusive, não é a questão da propriedade em si, é o sonho. Não é fácil”, afirmou o aposentado.
A
Elephant 2 não tem registro na Ancine (Agência Nacional de Cinema), nem possui
no histórico qualquer produção audiovisual conhecida. O contrato assinado com o
fundo do Bahrein não tinha a assinatura de nenhum representante do fundo.
Procurada
pela reportagem, Roberta afirmou que também foi vítima de um golpe e que Lauro
sabia dos riscos ao participar da operação.
Falsa
herdeira do banqueiro suíço
Roberta
Luchsinger estabeleceu relações com o mundo da política a partir de 2011,
quando se casou com o então deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB), que se
tornou conhecido anos antes por chefiar a Operação Satiagraha. Eles se
separaram em 2014, ano que terminou o mandato de Protógenes.
Em
2017, Roberta passou a usar como cartão de visitas uma informação
falsa: de que era herdeira de um banqueiro suíço, fundador do Credit Suísse.
Na
época, chegou a dar entrevistas como herdeira, dizendo que doaria bolsas,
roupas e outros itens de luxo para arrecadar R$ 500 mil e transferir a Lula,
que naquele momento estava com os bens bloqueados em função da Operação
Lava-Jato.
Segundo
integrantes do PT, o destaque temporário que ela recebeu na época permitiu que
ela passasse a transitar em setores do partido, ainda que o dinheiro prometido
nunca tivesse sido doado. Em 2018, ela foi candidata a deputada estadual pelo
partido, mas não se elegeu.
O registro de casamento do avô da empresária, Pedro Paulo Arnaldo Luchsinger, mostra que ele não era suíço, nem banqueiro. Ele nasceu no Rio de Janeiro em 1927 e era comerciante, dono de uma lavanderia.
Procurada,
Roberta reafirmou que o avô nasceu na Suíça, mas admitiu não ter documentos
para comprovar essa informação.
Dívida
paga com quadros falsos de Portinari
Alguns
dos imóveis que aparecem nas fotos de Roberta nas reportagens de 2017 foram
reformados pelo tapeceiro Nilton Cezar Pires, dono de um pequeno comércio no
bairro Guarapiranga, extremo sul da capital paulista.
Em
2011, a empresária contratou os serviços dele por R$ 61 mil. Ele levou três
meses para finalizar o serviço, que mobilizou vários funcionários. “Fiz a casa
dela inteira. De sofá, cama, forração de parede, tudo”.
Roberta
deu um sinal de R$ 25 mil reais e não pagou mais nada. Ela foi condenada na
primeira e segunda instâncias e até pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça),
mas descumpriu dois acordos para pagar o que devia.
Ao
longo do processo, a empresária chegou a culpar uma decoradora pelo calote.
Também acusou o tapeceiro de ter furtado tecidos importados dela.
A
Justiça refutou todas essas acusações e determinou a penhora de bens dela para
que a dívida fosse quitada. Um carro de luxo de Roberta, que estava na lista da
penhora, desapareceu.
A
empresária, então, entregou ao oficial de Justiça uma coleção com 14 gravuras,
dizendo que eram obras originais de Cândido Portinari, avaliadas em R$ 70 mil.
As obras foram entregues ao tapeceiro, e o processo foi encerrado em 2019.
Nilton
não conseguiu contratar um perito para avaliar as obras. A reportagem, no
entanto, procurou o Projeto Portinari, fundado pelo filho do pintor, que
informou que as obras não são verdadeiras.
“Tratam-se
de meras reproduções de obras de Portinari. Uma delas, o ‘Menino Morto’, está
no momento exposta no Museu Nacional da China.”
Quinze
anos depois, o calote ainda perturba o tapeceiro. “A gente tem um baque, né?
Porque a gente tem funcionário pra pagar, um aluguel de um ponto. Chegamos a
vender um carro [para pagar os funcionários].
“A
gente fica desesperado, fica triste. Ver uma pessoa devendo e só viajando,
postando viagem, é triste.”
Calote
na boutique, escola, campanha eleitoral e babá
Em
2017, Roberta matriculou a filha em uma escola no Jardim América, área nobre de
São Paulo, mas ficou praticamente o ano todo sem pagar as mensalidades. A
dívida de R$ 91 mil reais, em valores não corrigidos, nunca foi paga.
No mesmo ano, a empresária gastou R$ 6.124 numa loja de grife e nunca pagou a duplicata que viabilizou a compra. A Justiça mandou penhorar os bens, mas não encontrou dinheiro nas contas de Roberta e nenhum outro item de valor relacionado à empresária Em 2023, última atualização da dívida, o valor era de mais de R$ 21 mil.
Neste
processo, Roberta chegou a oferecer para a penhora um quadro intitulado
“Manerva’, da artista plástica Leslie Amaral. A empresária declarou à Justiça
que a obra valia R$ 100 mil reais. O quadro foi penhorado, mas sumiu antes de
ir a leilão.
Os
donos eram um casal de idosos, que usavam o dinheiro da locação como
complemento da aposentadoria. O homem morreu durante o processo, sem nunca ter
recebido o dinheiro.
Roberta
Luchsinger foi alvo de uma ação de despejo por não pagar aluguel, condomínio e
IPTU de um apartamento em Higienópolis, outra área nobre da capital paulista.
O
apartamento foi alugado em 2019. Como Roberta não pagava as despesas, os
proprietários moveram uma ação de despejo em outubro de 2020. A empresária
deixou o apartamento em março de 2023, depois de quebrar vários acordos de
pagamento.
A
dívida, que chegou a quase meio milhão de reais, foi paga de uma vez só em maio
de 2024, quando, segundo as investigações da Polícia Federal, Roberta já atuava
como lobista em Brasília.
O
quadro citado no processo da boutique, que havia desaparecido, também foi
mencionado neste processo de despejo. Só que, dessa vez, um perito fez uma
avaliação e concluiu que a obra valia R$ 5 mil, e não R$ 100 mil, como a
empresária havia declarado.
Em
2022, Roberta foi pré-candidata a deputada federal e não pagou a agência de
publicidade que contratou para a pré-campanha. A empresa tirou fotos, fez
vídeos e produziu material para a pré-campanha. Dos R$ 42 mil do serviço, só
pagou R$ 4.200. A empresária acabou desistindo de se candidatar.
Em
2016, Roberta contratou uma babá e uma empregada doméstica. As duas foram
demitidas sem receber verbas rescisórias e outros direitos trabalhistas. O FGTS
(Fundo de Garantia sobre Tempo de Serviço) também não foi recolhido. A Justiça
tentou penhorar bens, mas não encontrou nada no nome de Roberta para pagar a
dívida.
Os
dois processos prescreveram sem que as funcionárias recebessem o dinheiro.
Somadas, as dívidas trabalhistas que restaram ultrapassavam R$ 50 mil.
Outro
lado
A empresária foi questionada sobre todos os processos citados na reportagem, mas não quis se posicionar. Limitou-se a encaminhar uma lista com o status de cada processo e os valores das dívidas.

