Conheça a história de ‘Capim Guiné’, música de Wilson Aragão imortalizada por Raul Seixas

Raul Seixas conheceu a música quando estava em Piritiba, em 1980

Enigmas do Rock|Fabricio Mazocco


Kika Seixas, Raul, Beto Sodré e Wilson Aragão
Site do Wilson Aragão

O cantor e compositor Wilson Aragão morreu aos 75 anos em 2025. Ele é o autor de Capim Guiné, um dos maiores sucessos gravados por Raul Seixas.

A história começa em 1980. Raul havia passado por uma cirurgia no pâncreas e estava em Salvador, na casa dos pais, no bairro da Graça. No mesmo edifício morava Beto Sodré. Como estava de repouso, Beto apareceu com um filme do Elvis para eles assistirem. A partir daí a amizade cresceu.

Beto falava muito de sua cidade natal, Piritiba, na região da Chapada Diamantina, no interior baiano, a cerca de 300 km da capital. De tanto ouvir, Raul quis conhecer. E, então, foram Beto, Raul e Kika Seixas, na época grávida de Vivi.

Chegando lá, a cidade parou: afinal um astro do rock visitava Piritiba. Raul ganhou presentes, a prefeitura fechou, o comércio também. Todo mundo queria tomar “uma” com Raul.


Wilson Aragão, autor de Capim Guiné, sucesso gravado por Raul Seixas

Aragão a escreveu em 1979. O seu pai era proprietário da Fazenda Folha Branca, no Morro do Chapéu, a cerca de 70 quilômetros de Piritiba. Como o pai era opositor do governo, grileiros receberam “aval” para invadir as terras. O personagem da canção é seu pai, revoltado com essa situação (“Com muita raça fiz tudo aqui sozinho. Nem um pé de passarinho veio a terra semeá”).

Também estão na canção o gerente do banco que não emprestou dinheiro para que seu Aragão fizesse a cerca, os deputados e o delegado que não estavam nem aí para a invasão (a suçuarana, a dona raposa, o pardal, entre outros personagens).

Foi Beto quem sugeriu a Raul gravar a canção, mas no início ele não concordou, mesmo afirmando ao amigo que era uma música que ele gostaria de ter feito.


Disco de Raul que tem a música Capim Guiné

Quando estava preparando o disco homônimo, lançado em 1983, ele decidiu incluir. Falou com o Beto e depois ligou para o Aragão, que não estava na cidade quando Raul esteve naquela visita de 1980.

Raul fez algumas mudanças na letra e queria a autorização de Aragão. No início, ele já queria homenagear a cidade. No lugar de “Comprei um sítio, plantei um pé de jabuticaba”, da letra original, Raul propôs: “Plantei um sítio no sertão de Piritiba”.

O compositor questionou: “E vão ser dois pés do que para rimar com Piritiba?”. E Raul já tinha a solução e rima: “guataíba”, fruta que não existe — uma junção de guabiraba da letra original com a gíria de “pindaíbas” que tomava.

Aragão concordou com as mudanças e assinou os documentos para a gravadora, sem nem mesmo ter ouvido a canção pronta. Além de Aragão, Raul queria incluir também nos créditos o amigo Beto Sodré por o levar até Piritiba, onde conheceu a canção. Porém, ele não aceitou.

Fonte: Raul Seixas: por trás das canções. Carlos Minuano. Rio de Janeiro: Beste Seller, 2019.

Crítica social e ironia em "Capim Guiné" de Raul Seixas

"Capim Guiné", de Raul Seixas, utiliza animais do sertão como símbolos para criticar figuras de poder e denunciar a exploração dos pequenos agricultores durante a ditadura militar. Quando Raul canta “Num planto capim-guiné pra boi abaná rabo”, ele deixa claro que não vai mais trabalhar duro apenas para beneficiar os poderosos, jogando na cara dos exploradores sua recusa em ser usado. O contexto da música ganha ainda mais força ao se inspirar na história real do pai de Wilson Aragão, que teve suas terras invadidas por grileiros, reforçando o tom de revolta e ironia presente na letra.

As metáforas são diretas e cheias de malícia: a “suçuarana” representa a polícia repressiva, sempre pronta para agir com violência; a “raposa” simboliza políticos e banqueiros oportunistas; o “pardal” é aquele que desaparece quando surgem problemas. Outros animais, como o sagüi e a sariguê, mostram que todos querem tirar proveito do trabalho alheio. O narrador, cansado, critica até o amigo que só observa, “com cara de viado que viu caxinguelê”, expressão bem-humorada para quem apenas assiste sem agir. No fim, a música é um protesto irônico e indignado contra a injustiça e a exploração, usando o sertão e seus bichos como cenário para uma crítica social afiada.

Composição: Wilson Aragao, Raul Seixas.

Fonte: Letras de Músicas

  

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