REVISTA PLACAR 1970 - JUÍZES DA COPA A FAVOR DA VIOLÊNCIA

QUEREM ACABAR COM PELÉ / JUIZ TAMBÉM GANHA COPA

Ken Aston e Stanley Rous: eles sabem como ajeitar as coisas.


Os trinta juízes que a FIFA escolheu para apitar no México poderão, como sempre, decidir o título mundial. Tudo depende do grau de honestidade e de interesse que possam ter.

A distribuição dos trinta nos quatro grupos já foi planejada: os juízes latinos não poderão sequer ser bandeirinhas nos jogos entre seleções sul-americanas; União Soviética e Tchecoslováquia terão juízes ingleses ou latinos e bandeirinhas asiáticos; nos jogos da Alemanha e Inglaterra haverá juízes dos países comunistas, auxiliados por latinos, ou vice-versa.

Na Copa de 58, o Brasil teve seus momentos de cobaia, que podem se repetir, para provar a força dos homens de preto. Foi no jogo com a França, quando os juízes B. M. Griffiths (País de Gales), Paulo Wyling (Suíça) e R. J. Leaf (Inglaterra) só não conseguiram nos derrotar porque nosso talento foi maior. Eles anularam um gol legítimo de Garrincha — feito de fora da área, depois de driblar dois franceses —, sob a alegação de impedimento. Um chute de Zagalo, que bateu no travessão e penetrou mais de 20 centímetros dentro do gol, não foi considerado pelo bandeirinha inglês. No segundo tempo, quando Pelé marcou o terceiro gol do Brasil, o mesmo bandeirinha levantou o braço, querendo impedimento.

Mas o Brasil também já foi beneficiado pelos juízes. Na Copa de 62, o chileno Sergio Bustamante errou ao marcar fora da área uma falta de Nílton Santos num atacante espanhol. O Brasil estava perdendo por 1 a 0 e o pênalti existiu.

Às vezes, os juízes não são culpados. Na Copa de 66, K. Ko (Malásia), Pedro Escartín (Espanha) e Latischev (URSS) estavam no dia 20 de julho nas cidades de Sunderland, Sheffield e Manchester, respectivamente. Eles não tinham possibilidade de chegar a Londres no dia seguinte, e tanto Sir Stanley Rous como Mr. Ken Aston sabiam disso. Mesmo assim marcaram a reunião que escalaria os juízes das quartas de final para a manhã seguinte, às 9 horas. Como nenhum dos três compareceu, Rous e Aston foram os únicos responsáveis pela escalação dos juízes.

Ken Aston, presidente do Comitê de Arbitragens da FIFA, e Stanley Rous, presidente da FIFA, são capazes até de pressionar juízes para favorecerem a vitória de qualquer seleção. Ou então orientá-los para que apenas não prejudiquem determinada seleção.

Um exemplo: em 62, quando a chefia da nossa delegação soube que seria escalado o russo Latischev para a final contra a Tchecoslováquia (ele teria revelado certa prevenção contra o Brasil), recorreu imediatamente ao brasileiro Luís Murgel, membro do Comitê Executivo da Copa. Murgel usou de seu prestígio junto a Stanley Rous e, depois de amáveis e demoradas conversas, recebeu a promessa:

— Eu me responsabilizo e respondo pessoalmente por qualquer atitude do juiz Latischev.

Consequência: no segundo tempo, quando estava 1 a 1 e os tchecos reagiam violentamente, Latischev considerou involuntário um toque de Djalma Santos dentro da área, apesar do protesto de quase todos os jogadores da Tchecoslováquia.

Cada Copa pode ser considerada também como um jogo político: a FIFA atingiu o recorde de filiados (137 países), que superam inclusive o número de países integrantes da ONU. Para o Mundial do México, a FIFA recebeu inscrição de setenta países para disputar as catorze vagas (a Inglaterra, como campeã, e o México, como país sede, estavam automaticamente classificados). Foi preciso muito trabalho para resolver a guerra entre Honduras e El Salvador. A FIFA, tradicionalmente, procura não magoar ninguém.

Não é preciso que, para beneficiar uma seleção, seja escalado um juiz do respectivo país. Em 66, na chave de Brasil, Portugal, Hungria e Bulgária, havia sete juízes ingleses entre os doze designados. A Copa do México será a primeira em que um número tão insignificante de juízes locais (três) é escolhido para apitar.

Quando Ken Aston distribuir os juízes desta Copa, provavelmente receberá muitas críticas. Foi assim em 66: depois da nossa desclassificação, o jornal France-Football afirmou em manchete: "Está havendo um complô contra os sul-americanos". Pode ser até que o jornal francês tivesse razão. Os motivos:

  1. os bandeirinhas do jogo Brasil-Portugal (os ingleses McCabe e Taylor) deram nove impedimentos contra o Brasil — seis receberam reclamações — e nenhum contra a Bulgária;
  2. os três juízes do jogo contra Portugal (McCabe, Callaghan e Dagnall, todos ingleses) deixaram que fosse realizada uma verdadeira "caça" de Morais, Simões e Batista a Pelé. No dia seguinte, os jornais ingleses iriam elogiar a nossa valentia e honrar a nossa derrota. Já estava afastado do páreo o favorito da Copa.

ARMANDO: OS JUÍZES NOVOS SÃO UM GRANDE RISCO

A experiência com juízes novos é arriscada e ninguém, nem mesmo Sir Stanley Rous ou Mr. Aston, pode prever o que acontecerá no México, durante a Copa. Afirmo que os melhores juízes do mundo ficaram fora do quadro atual, por força da nova política adotada pela FIFA.

Mr. Aston é um grande teórico, e há um ditado que diz: são maus práticos os grandes teóricos. Este é seu caso específico. Ele foi um mestre-escola (hoje é diretor de um colégio), daí a sua facilidade de comunicação. Também foi comandante de artilharia de grupo, durante a guerra — por isso tem uma boa psicologia de mando.

Agora mesmo ele apregoou que, a seu ver, os quatro principais juízes do mundo são Finney, Lo Bello, Zsolt e eu. Mas aqui pra nós: acho que em cada país por onde passa ele cita esses três primeiros juízes e um local, para fazer média.

É isso ó que acontece. Sir Stanley Rous e Mr. Kenneth Aston são políticos e as soluções que encontram para os problemas de arbitragens são, antes de tudo, políticas. A política é mesmo parte integrante da sociedade — a dona de casa, às vezes, tem que engolir sapos para não perder sua cozinheira. Aí está uma posição política.

Vejam: Lo Bello (Itália), Finney (Inglaterra), Conesana (Argentina), Masaro (Chile), Zsolt (Hungria), Aschkenasi (Israel), Loow (Suécia), Gaee Callaghan (Gales) e Aidet (Irlanda), entre outros, ficaram fora do quadro que apitará a Copa do Mundo. Por quê? 








































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