QUEREM
ACABAR COM PELÉ / JUIZ TAMBÉM GANHA COPA
Ken
Aston e Stanley Rous: eles sabem como ajeitar as coisas.
Os trinta juízes que a FIFA escolheu para apitar no México poderão, como sempre, decidir o título mundial. Tudo depende do grau de honestidade e de interesse que possam ter.
A
distribuição dos trinta nos quatro grupos já foi planejada: os juízes latinos
não poderão sequer ser bandeirinhas nos jogos entre seleções sul-americanas;
União Soviética e Tchecoslováquia terão juízes ingleses ou latinos e
bandeirinhas asiáticos; nos jogos da Alemanha e Inglaterra haverá juízes dos
países comunistas, auxiliados por latinos, ou vice-versa.
Na
Copa de 58, o Brasil teve seus momentos de cobaia, que podem se repetir, para
provar a força dos homens de preto. Foi no jogo com a França, quando os juízes
B. M. Griffiths (País de Gales), Paulo Wyling (Suíça) e R. J. Leaf (Inglaterra)
só não conseguiram nos derrotar porque nosso talento foi maior. Eles anularam
um gol legítimo de Garrincha — feito de fora da área, depois de driblar dois
franceses —, sob a alegação de impedimento. Um chute de Zagalo, que bateu no
travessão e penetrou mais de 20 centímetros dentro do gol, não foi considerado
pelo bandeirinha inglês. No segundo tempo, quando Pelé marcou o terceiro gol do
Brasil, o mesmo bandeirinha levantou o braço, querendo impedimento.
Mas
o Brasil também já foi beneficiado pelos juízes. Na Copa de 62, o chileno
Sergio Bustamante errou ao marcar fora da área uma falta de Nílton Santos num
atacante espanhol. O Brasil estava perdendo por 1 a 0 e o pênalti existiu.
Às vezes,
os juízes não são culpados. Na Copa de 66, K. Ko (Malásia), Pedro Escartín
(Espanha) e Latischev (URSS) estavam no dia 20 de julho nas cidades de
Sunderland, Sheffield e Manchester, respectivamente. Eles não tinham
possibilidade de chegar a Londres no dia seguinte, e tanto Sir Stanley Rous
como Mr. Ken Aston sabiam disso. Mesmo assim marcaram a reunião que escalaria
os juízes das quartas de final para a manhã seguinte, às 9 horas. Como nenhum
dos três compareceu, Rous e Aston foram os únicos responsáveis pela escalação
dos juízes.
Ken
Aston, presidente do Comitê de Arbitragens da FIFA, e Stanley Rous, presidente
da FIFA, são capazes até de pressionar juízes para favorecerem a vitória de
qualquer seleção. Ou então orientá-los para que apenas não prejudiquem
determinada seleção.
Um
exemplo: em 62, quando a chefia da nossa delegação soube que seria escalado o
russo Latischev para a final contra a Tchecoslováquia (ele teria revelado certa
prevenção contra o Brasil), recorreu imediatamente ao brasileiro Luís Murgel,
membro do Comitê Executivo da Copa. Murgel usou de seu prestígio junto a
Stanley Rous e, depois de amáveis e demoradas conversas, recebeu a promessa:
— Eu
me responsabilizo e respondo pessoalmente por qualquer atitude do juiz
Latischev.
Consequência:
no segundo tempo, quando estava 1 a 1 e os tchecos reagiam violentamente,
Latischev considerou involuntário um toque de Djalma Santos dentro da área,
apesar do protesto de quase todos os jogadores da Tchecoslováquia.
Cada
Copa pode ser considerada também como um jogo político: a FIFA atingiu o
recorde de filiados (137 países), que superam inclusive o número de países
integrantes da ONU. Para o Mundial do México, a FIFA recebeu inscrição de
setenta países para disputar as catorze vagas (a Inglaterra, como campeã, e o
México, como país sede, estavam automaticamente classificados). Foi preciso
muito trabalho para resolver a guerra entre Honduras e El Salvador. A FIFA,
tradicionalmente, procura não magoar ninguém.
Não
é preciso que, para beneficiar uma seleção, seja escalado um juiz do respectivo
país. Em 66, na chave de Brasil, Portugal, Hungria e Bulgária, havia sete
juízes ingleses entre os doze designados. A Copa do México será a primeira em
que um número tão insignificante de juízes locais (três) é escolhido para
apitar.
Quando
Ken Aston distribuir os juízes desta Copa, provavelmente receberá muitas
críticas. Foi assim em 66: depois da nossa desclassificação, o jornal France-Football
afirmou em manchete: "Está havendo um complô contra os
sul-americanos". Pode ser até que o jornal francês tivesse razão. Os
motivos:
- os bandeirinhas do jogo
Brasil-Portugal (os ingleses McCabe e Taylor) deram nove impedimentos
contra o Brasil — seis receberam reclamações — e nenhum contra a Bulgária;
- os três juízes do jogo
contra Portugal (McCabe, Callaghan e Dagnall, todos ingleses) deixaram que
fosse realizada uma verdadeira "caça" de Morais, Simões e
Batista a Pelé. No dia seguinte, os jornais ingleses iriam elogiar a nossa
valentia e honrar a nossa derrota. Já estava afastado do páreo o favorito
da Copa.
ARMANDO:
OS JUÍZES NOVOS SÃO UM GRANDE RISCO
A
experiência com juízes novos é arriscada e ninguém, nem mesmo Sir Stanley Rous
ou Mr. Aston, pode prever o que acontecerá no México, durante a Copa. Afirmo
que os melhores juízes do mundo ficaram fora do quadro atual, por força da nova
política adotada pela FIFA.
Mr.
Aston é um grande teórico, e há um ditado que diz: são maus práticos os grandes
teóricos. Este é seu caso específico. Ele foi um mestre-escola (hoje é diretor
de um colégio), daí a sua facilidade de comunicação. Também foi comandante de
artilharia de grupo, durante a guerra — por isso tem uma boa psicologia de
mando.
Agora
mesmo ele apregoou que, a seu ver, os quatro principais juízes do mundo são
Finney, Lo Bello, Zsolt e eu. Mas aqui pra nós: acho que em cada país por onde
passa ele cita esses três primeiros juízes e um local, para fazer média.
É
isso ó que acontece. Sir Stanley Rous e Mr. Kenneth Aston são políticos e as
soluções que encontram para os problemas de arbitragens são, antes de tudo,
políticas. A política é mesmo parte integrante da sociedade — a dona de casa,
às vezes, tem que engolir sapos para não perder sua cozinheira. Aí está uma
posição política.
Vejam: Lo Bello (Itália), Finney (Inglaterra), Conesana (Argentina), Masaro (Chile), Zsolt (Hungria), Aschkenasi (Israel), Loow (Suécia), Gaee Callaghan (Gales) e Aidet (Irlanda), entre outros, ficaram fora do quadro que apitará a Copa do Mundo. Por quê?








































