Perda
de espaço no Senado e no governo estadual desafia grupo político. Especialistas
apontam manutenção de alianças, força do MDB e desempenho do novo governo como
fatores decisivos.
Por
Rebecca Moura Souza, g1 Alagoas
Senador eleito por Alagoas, Renan Filho e o pai, o senador Renan Calheiros — Foto: Reprodução/Instagram
Após
décadas de protagonismo na política de Alagoas, a família Calheiros enfrenta um
novo cenário. Renan Calheiros (MDB) não conseguiu se reeleger
para o Senado nas eleições de domingo (4) e deixará o cargo em fevereiro de
2027, após 32 anos consecutivos na Casa. O filho, Renan Filho (MDB), também
saiu derrotado das urnas na disputa pelo governo do estado.
Renan
Calheiros ficou em terceiro na disputa pelo Senado, com 731.045 votos (22,24%),
atrás dos eleitos Arthur Lira (28,87%) e Marina JHC (28,20%). Já Renan Filho
(MDB) perdeu o governo, em primeiro turno, para JHC (PSDB), por 809.796
votos (47,37%) a 892.484 (52,20%).
As
derrotas colocam em dúvida o futuro político de uma das famílias mais
influentes de Alagoas. Para cientistas políticos ouvidos pelo g1, o
resultado representa uma perda importante de poder, mas ainda é cedo para
afirmar que a influência dos Calheiros chegou ao fim. A manutenção de
aliados, a reorganização do MDB e a capacidade de fazer oposição ao novo
governo serão decisivas para determinar o espaço político do grupo nos próximos
anos.
Derrotas
refletem desgaste político
Para
Leonardo Rodrigues de Morais, doutor em Ciência Política pela Universidade de
Brasília (UnB), o resultado das eleições representa um desgaste que vai
além de Renan e Renan Filho. Segundo ele, o MDB também saiu enfraquecido, mesmo
contando com uma ampla base de apoio no interior de Alagoas.
Nas
eleições municipais de 2024, o MDB de Calheiros ampliou sua presença de 37
para 65 prefeituras em Alagoas, enquanto o PP de Arthur Lira passou
de 29 para 27 municípios.
"Politicamente, o que ocorreu foi uma sequência de três derrotas: a de Renan Calheiros; a de seu sucessor direto, Renan Filho, que perdeu a disputa pelo governo do estado para o ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (JHC); e a da própria máquina mdebista que, apesar de controlar 65 das 102 prefeituras alagoanas, não conseguiu garantir a vitória de seu candidato", afirmou.
Arthur Lira (PP-AL) — Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados via BBC
O
especialista relaciona o resultado a uma mudança no comportamento do eleitorado
brasileiro, marcada pela polarização política e pela perda de espaço de
partidos de centro.
"Renan
Calheiros é uma importante liderança e ocupa posição de destaque no cenário
nacional, mas passou a ser visto por parte do eleitorado como o símbolo do
sistema que ela quer renovar", explicou.
Já o
cientista político Denisson Silva considera que a derrota precisa ser analisada
dentro das disputas entre grupos tradicionais de Alagoas, que costumam formar
novas alianças a cada eleição.
"A
política em Alagoas é pluralista no sentido de que há muitos grupos políticos
que se reorganizam a cada ciclo", afirmou.
Trajetória política dos Calheiros. — Foto: g1
Grupos
adversários saem fortalecidos
Nas
eleições deste ano, quem saiu fortalecido foi o grupo político de JHC (PSDB),
eleito governador de Alagoas, e de Arthur Lira (PP), ex-presidente da Câmara
dos Deputados e eleito senador.
JHC
é filho do ex-deputado federal João Caldas e marido de Marina JHC (PSDB), que
também conquistou uma vaga no Senado. A aliança contou ainda com o apoio de
parte da família Beltrão, que possui influência política no interior do estado.
Para
Denisson, a vitória desses grupos não significa que a configuração política de
Alagoas permanecerá a mesma. Ele acredita que novas alianças poderão surgir nos
próximos anos, inclusive para as eleições municipais de 2028.
Marina Caldas ao lado do marido, o ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas — Foto: Reprodução/Redes sociais
"Considerando
a tendência governista na política brasileira, nos próximos anos deve ocorrer
um novo realinhamento das forças políticas no estado, inclusive para
2028", explicou.
O
que pode definir o futuro dos Calheiros?
Na
avaliação dos especialistas, o principal desafio da família será manter o
apoio de prefeitos, deputados e outras lideranças políticas, especialmente
diante da chegada de JHC ao governo estadual.
Leonardo
Rodrigues de Morais destaca que, mesmo após a derrota, Renan Calheiros ainda
possui influência dentro do MDB e relações construídas ao longo de décadas em
Brasília. No entanto, perder o mandato significa também deixar de contar com
um dos principais instrumentos de poder político.
Senador Renan Calheiros (MDB-AL) — Foto: Pedro França/Agência Senado
"No cenário nacional, Renan pode exercer influência como articulador e interlocutor político, principalmente em momentos de negociação política e de composição de forças. Porém, a perda do seu mandato tende a diminuir a sua força nas negociações", afirmou.
Em
Alagoas, o risco é que prefeitos e outras lideranças ligadas ao MDB passem a
apoiar o novo governador. Para Leonardo, esse movimento poderá determinar se os
Calheiros conseguirão preservar sua influência ou perderão ainda mais espaço.
"Renan
precisa manter prefeitos, deputados e lideranças locais ao seu lado, evitando a
migração dessas forças para a base do governador eleito. Esse será o sinal
decisivo para o seu futuro político", explicou.
O
enfraquecimento do MDB nos municípios e na Assembleia Legislativa também pode
dificultar uma eventual tentativa de Renan Calheiros de voltar a disputar um
cargo eletivo, na leitura do especialista. A perda de aliados, nesse cenário,
reduziria a capacidade do grupo de montar chapas competitivas e sustentar
candidaturas.
JHC (PSDB) — Foto: Lucas Leite/g1
Já
para Denisson Silva, outros dois fatores serão importantes para definir o
futuro da família: o resultado da eleição presidencial e o desempenho de JHC à
frente do governo de Alagoas.
Para
Denisson, o desempenho do novo governo e os resultados das articulações
políticas nos próximos anos ajudarão a mostrar o tamanho do impacto das
derrotas.
"Ainda é cedo para dizer o tamanho do impacto no grupo dos Calheiros, ou de um enfraquecimento estrutural dos Calheiros", afirmou.
Renan
Calheiros ainda pode ter influência fora do Senado?
Apesar
de deixar o Senado em 2027, Renan Calheiros poderá continuar participando das
decisões do MDB e das articulações políticas em Alagoas e Brasília.
Leonardo
explica que a influência de um político não depende exclusivamente de ocupar um
cargo eletivo. No caso de Renan, a experiência como presidente do Senado e as
relações construídas com lideranças de diferentes partidos ainda podem garantir
espaço nas negociações.
"A influência dentro do MDB não depende apenas de ter um mandato. O mandato conta, mas a influência é construída ao longo de décadas, com base em relações pessoais, no domínio das regras internas do partido e na sua capacidade de articular acordos", afirmou.
Senador Renan Calheiros — Foto: Roque Sá/Agência Senado
Entre
os caminhos possíveis, o especialista aponta a atuação de Renan como liderança
partidária e articulador político, além da participação na organização da
oposição ao governo de JHC.
Essa
atuação, porém, dependerá da capacidade do senador de preservar sua influência
dentro do MDB e de manter aliados mesmo sem ocupar um cargo eletivo, pontua
Leonardo. A permanência de sua força política também estará ligada aos
resultados eleitorais do partido e à sua presença nos municípios.
"Caso
o partido diminua a sua força nos municípios e na Assembleia Estadual e
continue a perder eleições, a influência dele tende a se esvaziar",
avaliou.
Renan
Filho pode assumir o protagonismo da família?
Embora
tenha perdido a disputa pelo governo de Alagoas, Renan Filho continuará na
política. Ele foi eleito senador em 2022, tem mandato até 2031 e poderá se
tornar uma das principais vozes de oposição ao governo de JHC.
Renan Filho (MDB) — Foto: Rebecca Moura/g1
Para
Denisson Silva, o ex-governador já representa uma nova geração da família
Calheiros, mas não pode ser considerado um nome novo na política.
"Sem dúvidas Renan Filho representou e ainda representa uma renovação dos Calheiros, mas cabe destacar que ele já foi governador duas vezes, ministro de Estado e é senador da República", destacou.
A
experiência acumulada por Renan Filho pode colocá-lo à frente das próximas
articulações políticas da família, especialmente com a saída do pai do Senado.
Por outro lado, sua capacidade de liderar esse processo dependerá da
preservação das alianças políticas e do desempenho do MDB nas próximas
disputas.
"Nesse
sentido, é mais provável que tenhamos mais uma passagem de bastão do que uma
renovação", avaliou Denisson.
Leonardo
Rodrigues de Morais também aponta que Renan Filho poderá ajudar a manter a
influência política do pai em Brasília, além de assumir um papel importante na
oposição ao novo governo estadual.
Para
ele, porém, o futuro político dos dois está diretamente ligado à capacidade do
MDB de preservar sua base de apoio em Alagoas.
"A perda de apoio nos municípios e na Assembleia Legislativa coloca em risco não apenas a sua volta ao poder, mas também a de Renan Filho", afirmou.








