Mais
de 33 milhões de pessoas não foram às urnas no primeiro turno;
proporcionalmente, eleitores do Sudeste e Centro-Oeste são os mais faltosos.
Por
Júlia Christine, Gabriella Soares, g1 — Brasília
Charge de Thiago Lucas (@/thiagochargista) para o Jornal do Commércio - que representa a dúvida do candidato em às urnas cumprir o exercício de cidadania
O
primeiro turno das eleições terminou com 33 milhões de brasileiros deixando de
exercer o direito ao voto. Em uma eleição acirrada como a presidencial, a
abstenção impacta diretamente nos resultados: foram 21,08% dos brasileiros
que deixaram de votar neste ano.
O
percentual dos eleitores que não votaram é o maior para o primeiro turno
presidencial desde as eleições de 1998. Naquele ano, com a reeleição de
Fernando Henrique Cardoso (FHC), 21,49% dos eleitores faltaram à eleição.
Depois
disso, houve uma recuperação, com mais brasileiros indo às urnas escolher não
só seus presidentes, como governadores, senadores, deputados federais e
estaduais.
Mas
em 2018, o percentual de brasileiros que preferiram não exercer o direito ao
voto ultrapassou 20% e tem crescido pouco a pouco nos últimos pleitos.
O
eleitor que não votar no primeiro turno pode sim votar no segundo, já que,
para a Justiça Eleitoral, cada turno é um novo pleito e, portanto, faltar ao
primeiro não impede que o eleitor vote no segundo.
🔎No
Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos maiores de 18 anos e menores de 70
alfabetizados, segundo a Constituição Federal.
Os
motivos para um eleitor deixar de comparecer na chamada "festa da
democracia" são variados. Mas uma marca que permeou essa eleição foi o
desânimo da população.
Para
Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), o
desânimo tem como um dos motivos a polarização. Com os dois principais
candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com altos
índices de rejeição, há um "ambiente de desalento" com a política.
"A percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças concretas favorece o afastamento do eleitor das urnas. A abstenção elevada é um sinal desse distanciamento entre a política e o eleitor",
- diz Medeiros.
Entre
os 33 milhões deste ano, o g1 ouviu relatos de eleitores de diferentes
idades, profissões e contextos. Veja abaixo:
Burocracia
e falta de acessibilidade afastam eleitores
Roberto
Gepp, estudante de economia, diz que gostaria de ter votado, mas acabou não
transferindo o título de eleitor. Ele se mudou de Brasília para São Paulo e
também não poderá votar no segundo turno.
Para
ele, foi uma “pena” não escolher seus representantes e afirma que o processo de
transferência do título afasta e burocratiza o voto.
🔎O
prazo para transferir o local de votação terminou no dia 6 de maio. No entanto,
até o dia 20 de agosto, eleitores que estivessem fora do domicílio eleitoral no
dia das eleições poderiam solicitar a alteração temporária do local de votação
para votar em trânsito.
Ao
se deparar com muitas pessoas e uma zona eleitoral que considerou
desorganizada, Henrique Eduardo Bahouth, 73 anos, desistiu de votar.
“Eu
nunca deixei de votar. Esse ano, realmente, eu ainda cheguei na minha zona
eleitoral, mas estava cheia de muitas pessoas, achei muito desorganizado e eu,
em função até do dia, eu não estava bem e acabei desistindo”, disse.
Já
Bianca Dantas não conseguiu votar por uma questão de acessibilidade na seção em
que iria votar. Ela conta que, após passar por uma cirurgia no joelho duas
semanas antes do primeiro turno, não conseguiu chegar à seção eleitoral.
Ao
chegar ao local e se deparar com dois lances de escada, precisou ir embora sem
votar. Ela explica que não teve tempo de solicitar uma seção com
acessibilidade.
“Quantas
pessoas deixaram de votar por essa mesma razão, né? Pessoas que sofreram
acidentes, enfim, e isso foi muito frustrante para mim, assim, ter que virar,
estar ali na porta e ter que virar as costas e ir embora sem poder votar”,
questionou.
Crença
na política
Aos
73 anos, Maria Luíza Teixeira tem o direito de deixar de votar, mas afirma que
não compareceu às urnas no primeiro turno por discordar dos dois candidatos à
Presidência, Lula e Flávio Bolsonaro.
Ao
g1, Maria Luíza disse que também não pretende votar no segundo turno e que, se
comparecesse às urnas, anularia o voto.
Desanimada
com a política, a servidora pública Nara Oliveira afirmou que para ela não
valia a pena gastar tempo e dinheiro com o deslocamento até o local de votação.
Nara
citou o caso do Banco Master para explicar por que acredita que os políticos
pensam apenas nos próprios interesses. Na avaliação dela, a eleição resume o
significado da expressão “tanto faz”.
“Qualquer um que ganhar vai pensar só nos interesses próprios, e não vale a pena eu perder um segundo sequer da minha vida para votar em ninguém”, afirmou.
Já a
estudante Maria Júlia Costa viajou para uma cidade distante daquela onde vota
durante o primeiro turno para um evento de família e disse que pretende
participar da votação no segundo turno.
A
estudante afirmou ainda que acredita “na política, no poder do voto e na
cidadania”.
Raio-X
da abstenção
A
abstenção de 21,08% deste ano seguiu o ritmo de crescimento da ausência no
primeiro turno dos últimos anos. Em 2022, o segundo turno não teve um movimento
para que mais pessoas fossem às urnas escolher um presidente, segundo dados do
TSE.
Ainda
assim, levar esses eleitores a reconsiderarem e votarem é uma das estratégias
de comunicação do presidente Lula, que saiu em desvantagem da primeira etapa de
votação. Medeiros indica que esse será um dos maiores desafios a partir de
agora.
"O segundo turno acende um alerta ainda maior para a abstenção. Com 21 governos estaduais definidos, a eleição presidencial será a única disputa em grande parte do país", explica o cientista político.
"Isso esvazia a mobilização política nos estados, desestimula o engajamento das lideranças locais e enfraquece as estruturas de campanha responsáveis por levar o eleitor às urnas",
- disse Medeiros.
Dados
do TSE mostram que os maiores percentuais de eleitores que deixaram de votar
são das regiões: 15 milhões de eleitores do Sudeste (22,7%) e 2,6 milhões do
Centro-Oeste (21,7%).
"Aumentar
o comparecimento, portanto, não significa aumentar os votos de Lula. Tudo
depende do perfil político de quem ficou em casa", afirmou Medeiros.
Já
no Nordeste, região que votou em sua maioria em Lula, 18,4% dos eleitores
deixaram de comparecer às urnas. O contingente representa 8 milhões de
eleitores.
Levar esse eleitor às urnas, no entanto, representa um desafio para as campanhas que buscam ampliar o número de votos.

