Travada
no século 19, a Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado da história do
continente, dizimou entre 60% e 70% da população paraguaia e deixou marcas que
persistem até hoje.
Por Redação
g1
Guerra do Paraguai que dizimou cerca de 70% da população paraguaia. — Foto: Domínio Público
O governo
paraguaio convocou o embaixador do Brasil em Assunção nesta quinta-feira (30) para
entregar uma nota relacionada às declarações do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice Aliança —
conflito que dizimou cerca de 70% da população do Paraguai.
Na
última sexta-feira (24), Lula fez um discurso em Jacareí (SP) defendendo
investimentos para a defesa nacional. Ele afirmou que o Brasil gosta de paz,
mas que não poderia se esquecer da Guerra do Paraguai, no século 19.
"A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", afirmou.
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A convocação de um embaixador é um instrumento diplomático usado por governos
para manifestar formalmente insatisfação ou pedir esclarecimentos sobre
declarações e ações de outro país.
O
conflito citado é considerado o episódio mais sangrento da história da
América do Sul.
O presidente Lula durante cerimônia em Brasília, em 22 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Adriano Machado
O
que foi a Guerra do Paraguai?
A Guerra
do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança,
foi o maior conflito armado da história da América do Sul. Travada entre 1864 e
1870, ela colocou o Paraguai contra a aliança formada por Brasil, Argentina e
Uruguai.
O
conflito começou em meio a disputas políticas na região do Rio da Prata. Em
1864, o governo brasileiro interveio militarmente no Uruguai durante uma guerra
civil no país vizinho. O então ditador paraguaio, Francisco Solano
López, considerou a ação uma ameaça ao equilíbrio regional e reagiu
apreendendo um navio brasileiro e declarando guerra ao Brasil.
Meses
depois, tropas paraguaias invadiram territórios que reivindicavam que hoje
fazem parte de Mato Grosso do Sul e avançaram também sobre áreas da Argentina.
Em resposta, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram, em maio de 1865, o Tratado
da Tríplice Aliança, comprometendo-se a combater o Paraguai até a derrota de
López.
A
guerra se estendeu por quase seis anos e teve algumas das batalhas
mais sangrentas da história do continente, como Tuiuti, em 1866. Apesar de
sucessos militares iniciais, os paraguaios passaram a sofrer sucessivas
derrotas à medida que o conflito avançava.
Em
janeiro de 1869, tropas brasileiras ocuparam Assunção, a capital paraguaia.
Mesmo assim, Solano López continuou a resistência no interior do país até
ser morto em Cerro Corá, em 1º de março de 1870, episódio que marcou o fim da
guerra.
As
consequências foram especialmente severas para o Paraguai. Além da destruição
de boa parte da infraestrutura do país e da perda de territórios, o conflito
provocou uma grave crise demográfica.
Corpos de paraguaios mortos durante a guerra empilhados no campo, em imagem de 1866 — Foto: Fundação Biblioteca Nacional
A
estimativa de de mortos foi de:
- Uruguai: 3120
mortos;
- Argentina: 18 mil
mortos;
- Brasil: 50 mil
mortos.
No
caso do Paraguai, não há um *consenso do saldo de mortos, no entanto, acredita-se
que cerca de 150 mil paraguaios foram mortos no conflito —
equivalente de 60% a 70% da população do país.
Crise
diplomática
Após
as declarações de Lula, o chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano,
afirmou que o governo defenderá a "dignidade" e os
interesses nacionais diante das falas do presidente brasileiro. Segundo ele, o
tema também foi discutido em uma conversa por telefone entre o presidente do
Paraguai, Santiago Peña, e o chefe de Estado brasileiro.
Em
entrevista coletiva, Ramírez Lezcano afirmou que o governo compartilha o
sentimento da população paraguaia diante de um episódio "tão
sensível" da história do país.
"A dignidade do Paraguai não é negociável. Quero que saibam que, sob a liderança do Presidente Santiago Peña, abordamos esta questão ao mais alto nível desde o início", afirmou.
O ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, durante coletiva de imprensa — Foto: Governo do Paraguai
Na
quarta-feira (29), a Câmara dos Deputados do Paraguai emitiu uma declaração
oficial para repudiar a fala de Lula. Segundo o documento, as declarações do
presidente "distorcem e minimizam" a dimensão histórica do conflito.
Em nota, o órgão afirma que o presidente "desconhece a complexidade dos antecedentes do conflito, o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio" e as consequências geradas pela guerra.





