Durante mais de dois meses, os repórteres investigaram as denúncias, ouviram pesquisadores e representantes de entidades espíritas e reconstruíram a trajetória de Máira Rocha.
Por
Fantástico
Máira Rocha — Foto: Reprodução/Globo
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Famílias
que buscaram cartas psicografadas com Maira Rocha acusam a médium de coletar
informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos.
No
lugar do conforto, a decepção. Famílias que buscaram cartas psicografadas com
Máira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as
supostas mensagens dos mortos.
Durante
mais de dois meses, os repórteres investigaram as denúncias, ouviram
pesquisadores e representantes de entidades espíritas e reconstruíram a
trajetória de Máira Rocha.
Contra
ela também existem acusações de ameaças, charlatanismo e estelionato. Procurada
pelo Fantástico há mais de duas semanas, Máira não quis gravar entrevista.
Para
a empresária Marina Escames, a perda de seu marido Thiago foi devastadora: "Quando
ele partiu, pra gente foi uma ruptura que é muito difícil aprender a viver sem
ele".
A
comerciante Marcela Magalhães relata a dor de enterrar seu filho Henrique, de
18 anos, que faleceu em um acidente de carro : "Você precisa se agarrar a
qualquer coisa, porque senão você afoga você vai junto com ele. Enterrar um
filho é atravessar a maior dor.
Muitas
vezes, para quem fica, a morte cria uma necessidade de buscar respostas na
espiritualidade . Thiago, o marido de Marina, morreu de leucemia . "Eu sou
espírita kardecista desde que nasci, então eu sempre acreditei muito na
psicografia, nos médiuns. Então eu queria muito uma notícia dele".
A
ajuda espiritual para Marina também tinha como objetivo aliviar o sofrimento do
filho caçula, Matteo, que tinha apenas 3 anos quando o pai morreu. Também era
do pai que Diva Mascarenhas Borges sentia falta. "Eu tive a informação
de que tinha uma pessoa que recebia cartas, e que era muito boa".
Diva
e Marina procuraram a mesma pessoa, Máira Rocha . A médium declarava
publicamente: "Eu quero propagar a palavra de Deus".
Marina
conta que acreditava piamente em Máira devido a vídeos recomendados por seu pai
: "Eu acreditava piamente que ela seria uma ponte entre mim e o
Thiago".
A
advogada Máira Rocha é conhecida como médium em Brasília. No espiritismo,
médium é quem serve de intermediário entre as pessoas e os espíritos. Ela
também trabalha no Ministério da Saúde. No começo deste ano, Máira Rocha
construiu seu próprio centro espírita, a Casa da Caridade Inácio Daniel. A
instituição atende cerca de 5 mil pessoas por mês, sobrevivendo de doações e
ajudando pessoas necessitadas com alimentos, roupas e agasalhos.
Em
uma de suas transmissões ao vivo, ela declarou: "Procurem fazer o bem,
em nome de quem você acreditar, porque Deus vai estar ali".
Essa
generosidade inicial encantou o ex-voluntário Antônio Carlos Felizola.
"Fazíamos um bazar, também doávamos roupa, e também a Máira logo que
chegou, fundou a sopa".
Boa
parte das atividades da Casa da Caridade é voltada para os atendimentos
espirituais. O trabalho de cartas psicografadas, também chamadas de cartas
consoladoras, é coordenado por Máira, e as doações servem como agradecimento
das famílias.
Marina
Escames relembra que contribuía frequentemente: "Quando eu recebi a carta,
eu me senti muito grata, então eu quis realmente fazer algumas doações. Ela
estava construindo a nova Casa da Caridade. Você comprava o tijolinho, que ela
ia colocar o nome da pessoa que tinha partido".
Máira
defendia a arrecadação financeira alegando que sua mediunidade não poderia se
afastar da matéria : "A Casa da Caridade poderia funcionar com seu
trabalho só mediúnico, se fosse só mediúnico, mas não existe essa possibilidade
da mediunidade da Máira se afastar do campo material".
Outra
modalidade de arrecadação do centro eram os leilões de roupas e objetos que a
médium usava em suas sessões de cartas consoladoras.
A
aposentada Arlete Pereira justifica sua participação nos leilões: "A gente
confiava nela, então eu queria uma roupa com a energia dela porque ela convivia
com nossos espíritos, dos nossos filhos, dos nossos familiares".
O
olho grego foi uma das peças mais caras arrematadas pelos seguidores. Máira
Rocha destacou o valor do amuleto ao entregá-lo para um seguidor : "Eu
coloquei as minhas energias nesse amuleto. Todas as energias ruins que eu
tinha, ele me tirou e me trouxe muitas alegrias. Eu entro em casa todos os dias
e vejo muitos espíritos ali perto deles."
Entretanto,
práticas de leilão são rejeitadas pelas instituições oficiais do espiritismo.
Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), faz
uma crítica clara ao modelo. "A doutrina não nos autoriza, não nos
ensina a realizar leilões, esse tipo de prática. Ela nos ensina a servir. E
servir de forma desinteressada ."
Em
diversos vídeos, Máira Rocha afirmava que seus dons mediúnicos haviam surgido
na infância, quando ela vivia em Jati, no Ceará, cidade de 8 mil habitantes. "A
minha mãe conta as primeiras experiências a partir dos quatro anos. Eu me
recordo a partir dos sete anos".
Essa
mediunidade, no entanto, nunca foi notada por seus familiares na pequena cidade.
Ao ser perguntada sobre o dom de Máira, sua prima Márcia Rocha declarou : "Não.
Novidade, novidade para todos nós. Como a cidade é pequena, essa mediunidade
que ela alega ter não passaria despercebida".
Márcia
também desmistificou a história do apelido de Máira, "Lê", que a
médium afirmava ter recebido de um espírito que a ensinou a ler. "Na
verdade, o apelido Lê veio do nome Alexandrina, de Máira Alexandrina".
O
ex-voluntário Antônio Carlos Felizola relembrou discussões constantes entre ela
e seu esposo: "O marido dela, eles brigavam muito. Ele falava: eu vou
contar para todo mundo que isso é uma farsa. Você é uma farsante!"
As
denúncias de fraude ganharam força a partir das inconsistências em cartas
enviadas a famílias enlutadas. Marcela Magalhães, vulnerável pela dor de perder
o filho Henrique, de 18 anos, relata como se sentia ao buscar ajuda: "É
tanta dor, é tanta dor que você, você acredita em qualquer coisa."
Ela
relata que recebeu dois recados de seu filho Henrique durante uma transmissão
ao vivo realizada por Máira Rocha. Na live, Máira mencionou o jovem : "Eu
eu tô com o Henrique, um jogador de futebol que desencarnou muito cedo, mas
mãezinha, ele tá bem."
No
entanto, Henrique nunca foi jogador de futebol profissional, fato que alertou o
marido de Marcela : "Meu marido virou pra mim e falou assim: mas ele não é
jogador de futebol. Pra mim foi um erro, dela."
Marcela
mais tarde identificou a origem do erro: uma fotografia de Henrique vestindo um
uniforme esportivo que estava vinculada a uma reportagem de jornal sobre seu
acidente de carro. A reportagem original havia cometido o mesmo erro ao
descrever Henrique como jogador de futebol.
Um
segundo recado de Máira gerou ainda mais desconfiança, ao associar Henrique a
outras duas pessoas no carro. A médium errou ao assumir que os amigos que
apareciam na foto estavam envolvidos no acidente de carro.
A
imagem na realidade era uma montagem de uma campanha de alimentos realizada
durante a pandemia, reunindo fotografias de três jovens que faleceram em épocas
e circunstâncias distintas como uma homenagem de Marcela em suas redes. "O
Henrique morreu de acidente em fevereiro de 2020. O João morreu de AVC em abril
de 2020, e a Letícia morreu de um mal súbito, em 2005."
O
cruzamento sistemático de dados é uma prática comum de quem investiga golpes
online, como explica o youtuber Guga Guimarães. "Então, além de cruzar os
dados que estão na internet disponíveis, ainda tem as matérias online, quando a
morte é trágica, e também as redes sociais dos parentes, que também é fácil
encontrar. Infelizmente, a nossa vida toda está disponível na internet para
quem quiser ver."
O
ex-voluntário Antônio Carlos Felizola revelou que já tinha sérias suspeitas
sobre a idoneidade das informações obtidas por Máira: "E, sinceramente, eu
comecei a desconfiar. Chegavam pessoas que já receberam carta, questionando a
carta."
O
Fantástico conversou com alguns dos maiores especialistas e pesquisadores do
espiritismo e das atividades mediúnicas no Brasil. Todos reforçam a importância
da carta psicografada, feita de forma séria, que leva conforto para quem perde
alguém. Mas autoridades da doutrina espírita também fazem um alerta sobre
fraudes cometidas por falsos médiuns.
A
reportagem é sobre pessoas que se sentiram enganadas durante o período mais
difícil da vida e como, apesar da dor, é preciso estar atento a detalhes.
Pedro
Camilo é escritor e pesquisador espírita e investiga fraudes em cartas
psicografadas. Segundo ele, dados fornecidos ao médium e pedidos de prazos
longos para entregar a carta, são alguns dos pontos que merecem atenção.
"Com
essas informações é possível fazer uma varredura nos bancos de dados que existe
na internet, elaborar um dossiê sobre aquela pessoa e sobre possíveis parentes
desencarnados que podem ter as suas informações transmitidas."
Marina
Escames descreveu o rígido protocolo burocrático exigido pelo centro de Máira
antes das sessões: "Antes da data da psicografia, 60 dias antes, você
precisa se inscrever, você e o seu acompanhante, e passar o nome completo, o
CPF da pessoa que vai e do acompanhante."
Marcela
Magalhães relatou exigências semelhantes de documentação e passagem: "Nome
completo, sem estar abreviado, e mandar um comprovante ou de hotel ou do
avião."
Este
modelo burocrático difere drasticamente da conduta do médium mais conhecido do
Brasil, Chico Xavier, como reforça Jorge Godinho: "Tinha uma multidão
de pessoas, ele não sabia quem estava. Ele não tinha CPF, não tinha endereço,
nada disso. Porque o telefone ele toca do alto para cá. E aí aqueles espíritos
que ali estavam, que iriam trazer alguma informação, ele psicografava."
Chico Xavier – Foto: Reprodução
Durante
sua ida à Casa de Caridade Inácio Daniel, Marina Escames presenciou um ritual
conhecido como "fila do abraço", realizado antes da sessão
psicográfica, onde a médium costumava extrair informações de forma direta e
sutil. "Então, na realidade, ela também tem esse contato, ela faz uma fila
de abraço antes da psicografia." .
Ao
ser completada pela repórter Lilia Teles sobre a coleta de dados, Marina
confirmou. " Ela perguntou o nome do meu marido completo, ela perguntou do
que ele tinha falecido, eu dei uma foto dele e, assim, realmente, nessa fila de
abraço, ela pegou várias informações."
Na
mesma sessão, Matteo, filho mais novo de Marina, correu para entregar uma
cartinha pessoal à médium: "O Matteo saiu correndo antes de mim, porque
estava bem cheio, chegou até ela com uma cartinha que ele tinha feito, que
queria que ela entregasse para o pai dele."
Dias
depois, durante uma palestra pública, Máira anunciou uma revelação: "olha,
tem um marido que eu conversei ontem que falou que ama a esposa. Ama pra
cacete".
Marina
achou o jargão incomum para o perfil do marido: "Aí na hora não caiu minha
ficha porque meu marido nunca falou assim. Ele sempre falava que me amava mais
que tudo, que eu era a vida dele, mas não essa palavra."
Contudo,
ao buscar em seus arquivos de fotos e redes sociais, identificou um print
antigo de um parabém do marido que trazia a mesma expressão: "Eu entrei
nas minhas fotos, que eu tenho prints de redes sociais. E lá estava uma
mensagem que o Tiago me mandou de aniversário E no final ele falou: 'te amo pra
cacete'. Aí eu falei: 'poxa, então é o Tiago, né? É o Tiago que mandou essa
mensagem."
Marina
descobriu ainda que Máira havia levado as cartas prontas para o local:
"Nesse dia ela falou que ela tinha já levado as psicografias prontas de
casa."
Ao
ser indagada por Lilia Teles sobre os termos descritos na carta, Marina contou:
"Falou que ele era um pai muito apaixonado e falou que eu era a âncora
dele. E realmente ele tinha uma tatuagem de âncora com meu nome."
A
carta também relatava momentos de hospitalização e citava chá de camomila:
"Passamos noites terríveis, de dor, febre e você lá, naquelas cadeiras,
junto comigo. Ele tá dizendo que não aguenta nem ver chá de camomila."
Marina
lembrou que esse detalhe constava em um vídeo publicado por ela na internet:
"Tem um vídeo que ele tá colocando, que eu tô colocando chá de camomila
gelado, porque ele tava com o braço infeccionado, inflamado."
Foi
o filho Nicolas quem percebeu que havia algo errado. Ele acessou a rede social
do pai, que estava inativa. "Eu entrei e acabei vendo muita semelhança em
relação à carta. E aí na hora eu chamei a minha mãe e falei: 'mãe, olha, tá
tudo aqui!'“.
A
mãe confirmou a descoberta após olhar o perfil. "Tinha o vídeo da
camomila. Tinha minha tatuagem e o "te amo pra cacete" no final. E
ali eu vi que realmente estava tudo na internet. "
O
único elemento ausente nas redes era a menção a um episódio de bullying sofrido
pelo caçula Matteo, apontado na psicografia. "O amiguinho falou que ele
era sem pai. E ela citou isso na carta. "'Matteo, agora você vai mostrar
pra todo mundo que você tem um pai.' Ele chorou, ele tinha nove anos, ele
pulava de chorar. E no fundo eu fiquei muito muito feliz de ele ver que o pai
dele estava vivo, que o pai dele amava ele."
A
surpresa foi desfeita quando Marina percebeu que Matteo havia relatado o
bullying no bilhete entregue diretamente à médium. "Eu sentei para
conversar com meu filho. Eu falei: você conversou com ela? No dia que ele saiu
dando a cartinha, ele conversou e eu não vi."
Ao
ser questionado, o menino confirmou: "não, mãe, eu conversei, a única
coisa que eu falei realmente pra ela, eu falei que era se ela podia entregar a
cartinha pro meu pai, e que ele me mandasse uma carta pra eu poder mostrar pro
meu amiguinho que falou que eu sou sem pai."
Para
Marina, a mentira foi devastadora: "pronto, a única coisa que me apegava
foi o meu filho que falou pra ela!. O que mais me machucou foi o que ela fez
com o meu filho. Foi o segundo luto, tanto para mim quanto para o meu
filho."
O
menino entrou em depressão após descobrir a farsa. Em apoio às vítimas, sete
lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime
contra Máira Rocha na Justiça por estelionato, charlatanismo e por crime
cometido com base no artigo 232 do ECA: submeter criança ou adolescente a vexame
ou constrangimento.
O
advogado criminalista Luiz Henrique Machado explica o crime de estelionato
espiritual: "O tipo de estelionato é justamente quando procura, nesse
caso específico, se instrumentalizar a fé, ou seja, enganar a pessoa dizendo
que possui informações extraordinárias, quando na verdade está enganando a
pessoa, está buscando informações em bancos de dados, eventualmente na
internet, e entregar uma carta psicografada que na verdade ela é fake."
Diva
também encontrou erros na carta do pai.
"Logo
no início da carta fala que meu tio queria falar com Judite. Judite é a esposa
do meu tio. Só que a minha tia já tinha falecido um ano antes do meu tio
falecer. Então, parecia que meu tio tava que ele não sabia que a mulher tinha
falecido."
Diva
também achou estranho como a carta se refere a dois irmãos dela.
"E
eles são filhos adotivos, assim como eu, foram registrados como Edvano e
Edvani. Quando minha mãe e meu pai adotaram, eles acrescentaram o nome Sheila e
André Luiz. Então ninguém chamava na família a Sheila e o André de Edvano e
Edvani. "
Sheila
chegou a retirar o nome Edvani da identidade. Mas são esses nomes, Edvano e
Edvani, que aparecem na carta. "Tava ali, na nternet. A ordem todinha do
inventário era igualzinha a que estava na carta. É como se estivesse copiado e
colado. Eram erros assim que estavam ali e que meu pai não cometeria."
A
carta dizia ainda que o aniversário do pai de Diva seria no dia 5 de maio, mas
a data estava errada.
"Começa falando que era aniversário dessa pessoa. Eu relaxei, porque o meu pai, ele nasceu dia 16 de maio. Ela continua lendo a carta e ela vai citando nomes. Minhas filhas é que falaram assim: "Mãe, é o vovô,. Você fica na dúvida. Por que que ele erraria o aniversário dele? Foi, aí eu comecei a fazer pesquisa e aí saiu um blog de Jequié, que é a terra dele. Constava que ele tinha nascido dia 5 de maio de 1918. E eu falei: "epa, o erro tá aqui" Ali meio que desmontou toda a carta. Só que você tá dentro de um ambiente que é assim, lotado de gente, todo mundo muito emocionado, pessoas chorando e você é meio que envolvido dentro desse turbilhão de sentimentos, de emoções. "
Diva
procurou a Federação Espírita do Distrito Federal e descobriu que já havia
outras denúncias.
"Essas pessoas traziam um luto, uma dor muito grande e buscaram nessas cartas uma espécie de consolo. E aí depois descobriam que aquela carta não era verdadeira ou que as informações eram informações, ou estava em jornais, ou em internet, em mídias sociais", diz Paulo Costa, presidente da entidade.
Silvano
é outro que também denunciou Máira Rocha. Ele considerou a carta da mãe, morta
no ano 2000, uma fraude. "Ela coloca o seguinte: "Saudade de todos,
queria ter convivido com todos os meus netos. Ivy, Gabriel, Taiyana, Rafael,
Tabata, Walesca, Leticia, João Lucas, Nicole, Luis e Silvano. Nós percebemos
que ela esqueceu de um neto. Minha mãe não esqueceria de um neto. Mas o mais
sério é a Tábata. A Tábata não é neta da minha mãe. Ela é sobrinha da minha
cunhada. Eu resolvi registrar um boletim de ocorrência. Na Polícia Civil do
Distrito Federal, eu relatava a carta, né, e dizia das incoerências."
Silvano
registrou duas novas ocorrências no Distrito Federal, por charlatanismo e por
ameaça. Antônio e a mulher dele também foram ouvidos no mesmo inquérito que
investiga fraudes com cometidas por Máira Rocha. Há registros policiais contra
ela em pelo menos cinco estados, por estelionato, calúnia e difamação e ameaça.
Além
disso, o Ministério Público recebeu e analisa acusações por apropriação
indébita, desvio de recursos, rede de influência com servidores públicos. As
vítimas dizem que ainda tem muitos que desistem de denunciar por medo das
ameaças.
Ela
falou comigo: "Se eu continuasse que ela ia fazer uma live aonde ela ia
contar determinadas coisas que eu tinha contado para ela, uma dor muito grande,
um problema muito sério que havia acontecido comigo e que eu desabafei com
ela", diz Marcela Magalhães.
A
própria Máira Rocha deixa claro que não tolera questionamentos.
"Cuidado na pedra que você joga, tenha absoluta certeza que seu telhado não é de vidro. Para você possa fazer isso. Se a pessoa for lá dizer que eu peguei na internet, até eu posso completar o recado. Agora se ela vai gostar é, de ser dito isso em público, eu não sei, né? Eu prefiro responder um processo cível, porque provavelmente vai acontecer, já que eu vou falar o nome das pessoas, prefiro pagar, né? Prefiro pagar a indenização."
O
psicólogo e pesquisador Everton Maraldi fala dos impactos negativos numa pessoa
em luto que se sente enganada. "Esse efeito, ele pode ser para muitas
pessoas desastroso. Você pode levar essa pessoa a questionar as suas crenças, a
sua visão de mundo e prejudicar o seu bem-estar, a sua saúde mental."
As
cartas psicografadas são temas de pesquisas científicas há pelo menos 15 anos
no Brasil.
Elas
buscam explicar a atividade mediúnica e o que acontece durante as sessões de
psicografia realizadas com total seriedade.
Na
Universidade Federal de Juiz de Fora, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade
e Saúde, o NUPES, é um dos centros de estudo mais ativos do Brasil. Ele é
liderado pelo psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida.
"Nós selecionamos médiuns que fazem esse trabalho de ponto de vista voluntário, que não tem nenhum benefício material com isso. O segundo critério: nós selecionamos pessoas que vão ter contato com esse médium, pessoas enlutadas, mas essas pessoas não têm contato prévio. E depois quando começa a pesquisa em si, quando o médium encontra o familiar, o médium é monitorado continuamente até o momento que ele psicografa. Há, de modo muito consistente, evidências de que há pessoas médiuns que são realmente capazes de obter informações muito precisas sobre as pessoas falecidas sem ser por meios convencionais."
O
Fantástico enviou mensagens, ligou, procurou Máira Rocha diversas vezes para
que ela respondesse as denúncias de fraude nas cartas psicografadas, mas Máira
não aceitou gravar entrevista.
"Eu
estou fazendo isso quase como um apelo. Que a pessoa tem cautela ao estar
buscando esses falsos médiuns. Porque isso prejudica. Eu chamo de estelionato
por luto, prejudica mais o sentimento de perda. Porque ali não há uma
autenticidade daquela mensagem, é uma mensagem forjada. É um crime
lesa-a-Deus.", diz Jorge Hessen, pesquisador do Espiritismo.
"O próprio Allan Kardec, O Livro dos Médiuns diz que todo médium que for pego em fraude deve ser sim denunciado, deve ser desmascarado para que as pessoas verdadeiramente sérias não sejam enganadas por aquele indivíduo, não sejam levadas à falsa compreensão, a uma compreensão mentirosa da realidade", diz Pedro Camilo.


