João Lucas Brito, de 24 anos, compartilhou fotos do ensaio de formatura no Instagram e recebeu comentários de cunho racista e xenofóbico. Polícia Civil investiga o caso.
Por g1 Pernambuco
Estudante de medicina denuncia racismo no Instagram em fotos usando jaleco — Foto: Reprodução/Instagram
O estudante de medicina e doutorando João Lucas Brito, de 24
anos, denunciou ataques racistas e xenofóbicos numa postagem no Instagram.
O caso aconteceu após o jovem compartilhar no seu perfil na rede sociais as
fotos do ensaio de formatura. Em uma delas, recebeu o
comentário: "Saudades de quando favelado não entrava em medicina... Bons
tempos".
A mensagem contra o recifense foi publicada por um médico
de Brasília , que não conhece ou segue João Lucas nas redes
sociais. O universitário registrou um boletim de ocorrência na sexta-feira (4),
mas preferiu não revelar o nome do agressor. A Polícia Civil investiga
o caso de "injúria praticada no ambiente virtual".
Em entrevista ao g1, o jovem disse que, ao
compartilhar as fotos, queria celebrar o fim da graduação. Ele não esperava a
repercussão das imagens, que acabaram alcançando um público maior e diferente
do esperado.
"Na cabeça dele, ele achava que aquilo ali [comentário] ia me atingir. Só que para mim não era um xingamento. Então na mente dele, me chamar de favelado era algo ruim. Só que para mim ser favelado é quem eu sou", disse João Lucas sobre o episódio.
A foto que recebeu o comentário é de João Lucas vestindo um
jaleco de médico com seu nome bordado, um óculos de lentes espelhadas – modelo
comum entre jovens de periferia. Ele também segura nas mãos o livro
"Sobrevivendo no Inferno", do grupo de rap Racionais MC's.
João Lucas nasceu e cresceu no Recife, na
Comunidade do Cardoso, que fica localizada no bairro da Madalena, na Zona Oeste
da cidade. Ele conta que a escolha dos itens para as fotos partiu das suas
vivências antes de ingressar na faculdade.
"Eu sempre escutava muitas músicas de Racionais. Pela comunidade Cardoso tocava Racionais, meus primos escutavam Racionais, minhas referências escutavam Racionais. Então, eu escutava Racionais, e eu usava muito a ideia do álbum de 'Sobrevivendo no inferno'", explicou o estudante.
Além de racistas, as mensagens do usuário do Instagram
questionavam a credibilidade das instituições de ensino superior no Nordeste.
Seguidores e amigos de João também responderam ao comentário, em defesa do
jovem universitário.
Durante a discussão, o autor das injúrias se identificou
como médico e divulgou o número do seu Conselho Regional de Medicina (CRM). Com
os dados, João Lucas conseguiu registrar um boletim de ocorrência contra ele.
Com a repercussão do caso, o comentário com as ofensas foi
removido do Instagram. Porém, João Lucas ainda tem prints das mensagens, que
serão utilizados para auxiliar na investigação da polícia.
O estudante contou, ainda, que vai dar entrada em uma ação
no Ministério Público de Pernambuco. "Para que essa situação não passe
impune, porque a gente sofreu não só questões raciais, como questões de
elitismo, questões também de xenofobia, questões também que envolvem as
instituições públicas do nosso Estado, e isso é muito grave", pontuou o
jovem.
Dois dias após o episódio, João também fez uma nova postagem nas redes sociais onde questiona: "Mas por que um médico favelado incomoda tanto?". Relembrando suas realizações ainda como estudante, o jovem escreveu que "nenhuma dessas conquistas é motivo pelo qual aquele comentário está errado. Eu não precisaria ter feito nada disso para merecer estar aqui".
Doutorado
O
universitário será o primeiro médico da sua família. Atualmente, o jovem está
no 11º período do curso de medicina em uma faculdade particular com bolsa
integral pelo programa Programa Universidade para Todos (ProUni).
Aos
23 anos de idade, por causa do seu desempenho acadêmico, João Lucas foi
aprovado no doutorado de Saúde Integral no Instituto de Medicina Integral
Professor Fernando Figueira (Imip).
A
oportunidade foi possível através do programa Programa MD-PhD, regulamentado
pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ele
desenvolve uma pesquisa na pós-graduação ao mesmo tempo em que finaliza seu
curso de medicina.
"É um estudo sobre as disparidades étnico-raciais dos nascidos vivos aqui no Brasil. Então, mesmo na minha pesquisa de doutorado, eu ainda continuo trazendo muito do que me representa. [...] Não tem como eu ignorar de onde eu venho. Então, uma forma que eu vejo de trazer retorno para minha comunidade é não sendo objeto de estudo, mas, sim, sendo produtor daquele conhecimento", disse ao g1.
O
cronograma do doutorado prevê, ainda, um intercâmbio no Canadá em 2027, para
desenvolvimento da tese. A previsão é que a pesquisa seja finalizada em 2028.


